Cure-se | Parte 1

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⚠️ Alerta de gatilho: Esta história contém cenas de tentativa de su1cíd10, est&pr0 e violência extrema. A leitura pode ser sensível ou perturbadora para algumas pessoas.


— Renato? Renato? Acorda, filho! João, vem aqui agora, rápido. Pelo amor de Deus!

Renato desmaiou.

O garoto já havia perdido as esperanças há muito. Por pouco sua vida não foi ceifada — e não por falta de tentativas. Seus pais, Marina e João, já tinham o internado algumas vezes, mas nada surtiu efeito. Não sabiam mais como ajudar o garoto que tinha tudo, mas viveu nos últimos anos como se não tivesse nada.

Quando abriu os olhos, Renato se deparou com uma cena já bastante corriqueira: um quarto de hospital. Dessa vez, sua barriga doía como nunca doeu antes. "Os remédios não funcionaram", ele pensou. "Nem pra isso eu sirvo".

— Filho! — disse a mãe, entrando no quarto. — Como você está?

O garoto não respondeu, apenas se virou para o lado com vergonha de enfrentar a mãe, que segurou sua mão e começou a chorar sem parar. Nunca tinha a visto tão vulnerável assim. Seu choro era de desespero. Ela não tinha mais forças para pensar em soluções.

E o arrependimento tomou conta do filho. Por isso, não conseguia olhar a mãe nos olhos. Porém, considerou:

E se vivesse pelos pais dali para frente? Seria esse um propósito suficientemente forte para mantê-lo andando por aí e, quem sabe, vivendo uma vida normal?

* * *

Seis meses depois de uma longa internação na clínica psiquiátrica, Renato finalmente recebeu alta. Ele se sentia melhor. Talvez pronto para confrontar a realidade novamente.

Foi o período mais longo pelo qual passou por tratamento longe de casa, num lugar recluso da cidade grande, cheio de matas virgens ao redor. Manter contato com a natureza realmente o ajudou a se acalmar, colocar a cabeça no lugar.

Quando as portas automáticas se abriram, Renato viu uma BMW vermelha estacionada logo em frente ao prédio. Sua mãe acenava de longe. Não se viam desde aquele dia no hospital. Os psiquiatras da clínica acharam por bem seus pais ficarem longe durante o tratamento e apenas se falarem por telefone aos fins de semana.

— Que saudade de você! — Sua voz estava embargada, os olhos marejando, então o abraçou.

— Eu também, mãe... — Renato estava envergonhado, ainda lembrando daquela cena de seis meses antes. — Você tá bem?

Eles entraram no carro.

— Parece que, pela primeira vez em muito tempo, as coisas voltaram a se endireitar. Seu pai anda fechando contratos ótimos na empresa! Meu negócio também está indo bem. A Juliana finalmente arrumou um namorado decente e... você tá voltando pra casa! — ela falava animada pelos cotovelos como se tudo já estivesse resolvido.

Renato esboçou um sorriso falso enquanto o carro partia do estacionamento. Ele tinha medo de decepcionar a mãe de novo, e esse foi um dos tópicos mais abordados nas infindáveis sessões de terapia feitas na clínica: o quanto sentia um senso de dever com ela.

Ele não era filho biológico. Seu pai adotivo, João, não queria mais filhos na época. Entretanto, Marina se inscreveu em segredo numa instituição de acolhimento e conta que, quando o viu pela primeira vez, sentiu o amor mais forte de toda a sua vida. De alguma maneira, sabia que Renato seria seu filho.

Daquele dia em diante, Marina fez tudo o que pôde para convencer João e, alguns meses depois, o garoto — que na época tinha apenas dois anos — já estava vivendo com eles.

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