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Eles estavam pisando em ovos ao redor um do outro.

Till passou a mão pelos cabelos, tentando não desfazer o penteado que a cabeleireira tivera tanto trabalho pra montar. Seu stresse estava em níveis altíssimos e não conseguia controlar a ansiedade que assolava seu corpo, os dedos inquietos tamborilando alguma coisa ou as unhas sendo roídas. Quem o visse poderia presumir que ele estava nervoso com o show, sempre acontecia de ter um frio na barriga, o coração disparar e as pernas ficarem meio bambas – a plateia estava aumentando, os lugares que performavam estavam cada vez maiores – mas quem o conhecia sabia dizer que não era isso.

O ômega estava em estado máximo de alerta. Os bloqueadores de cheiro e os remédios que tomava não conseguiam mais controlar seu corpo. Odiava ter que passar por um cio, e principalmente com a agenda tão apertada, mas seria obrigado a tirar uma semana de folga para descansar. A ansiedade que se instalava em seu peito era se conseguiria ou não durar até o final do show, com arrepios involuntários pelo corpo e a temperatura aumentando a cada segundo. O outro grande problema tinha 1,86, um sorriso de tirar o fôlego e o cheiro mais gostoso que Till já sentira em toda sua vida.

Ele sabia que tinha nascido pra música. Io o colocara para aprender a tocar instrumentos e em aulas de canto muito cedo, assim que notou o interesse do filho, e ele não podia agradecer o suficiente sua mãe por ter feito isso, já que toda sua personalidade tinha sido moldada a partir daquele momento. No ensino médio se apresentara em shows de talento e tocava para alguns veteranos da faculdade quando tinham falta de pessoal, e quando chegou sua vez de prestar vestibular sabia que seu caminho era para as artes visuais e a música. Não foi difícil formar a própria banda. Sua bolha de amigos era composta por pessoas extremamente talentosas. Sua tocava teclado e piano desde nova, Mizi era uma baterista de primeira, Till tinha um bom conhecimento de vários instrumentos, mas nascera pra guitarra e tinha Ivan, com sua voz rouca e seus dedos longos e ágeis que deslizam sob as cordas do baixo.

Ser um ômega nunca foi um problema. Sabia antes mesmo de o resultado dos testes chegarem que seu segundo gênero seria esse, em seu âmago já esperava por isso. Não tinha explicação que não fosse biológica para o estado em que ficava toda vez que brigava com Ivan. Eles tinham se conhecido quando nem sabiam usar o banheiro, cresceram lado a lado com suas diferenças – não só em relação a criação, com pais ausentes por parte do mais velho e bens materiais sendo um substituto para a falta de afeto, enquanto Io se pudesse o daria o mundo, mas passava sufoco para pagar as contas sozinha. Eram diferenças sutis, Till gostava de chocolate meio amargo, enquanto Ivan se esbaldava em doces a cada segundo, Ivan preferia músicas mais calmas, enquanto o ômega adorava metal e rock. Por incrível que pareça, conseguiram superar essas diversidades e criar uma amizade – por mais que não parecesse, pois Ivan era mestre em tirá-lo do sério e passavam mais tempo brigando do que conversando como pessoas civilizadas.

E então veio a puberdade, onde claramente aquele idiota bonito se apresentara como um alfa. Ele era alto, propenso a criar músculos, cabelos lindos e um pênis enorme – Till tivera a infelicidade de ver enquanto trocavam de roupa pro treino de natação durante o ensino médio, onde os outros caras quase pediram para segurá-lo e o platinado quis morrer. Era o curso natural das coisas, assim como Mizi também ser uma alfa e Sua um ômega. Todos sabiam que Till também seria um, estava enraizado nele e não tinha como mudar. O grande problema era a forma como seu corpo idiota reagia a Ivan. Tinha ciência de todo blablabla sobre biologia e entendia que sua espécie naturalmente se atraia aos alfas, só que tinha construído uma parede tão alta de que seus sentimentos eram apenas instinto e rezava todos os dias para ser isso, e não que estivesse apaixonado pelo babaca.

Coçou o pescoço, no local onde ficava a gargantilha. O couro suado deixava a área sempre avermelhada, mas estava usando tantos adesivos que nem conseguia sentir o material em contato com a pele. Se olhou no espelho e suspirou, ajeitando a roupa no corpo. A calça skinny e a camisa larga já eram uma marca registrada, devido a elevada temperatura do corpo optou por uma regata velha, onde cortou as laterais para que se tornasse respirável utilizá-la. O coturno era pesado e os acessórios estavam a um passo de incomodar sua pele irritadiça, mas faria um esforço para usar a quantidade absurda de anéis e pulseiras que Hyuna lhe trouxera.

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