VICÍO-PERCAS

2 0 0
                                        

Um homem que, aos 38 anos,já carregava nos ombros o peso de várias vidas desperdiçadas. Era pai de uma menina e marido de uma mulher linda dos cabelos cacheados e sorriso contagiante, que um dia o amou com tudo o que tinha — e depois odiou com tudo o que perdeu.

Ele já havia sido um homem promissor.Trabalhava como analista financeiro em uma corretora, sabia lidar com números como poucos. Mas foi justamente essa intimidade com o risco e a ganância que o levou a um mundo onde cada vitória era um passo mais perto do abismo.

— "Só mais uma aposta, Amor. Dessa vez vai dar certo. Eu sei o que estou fazendo!" — dizia ele, olhos arregalados, cheirando a cerveja barata e esperança podre.

Sua esposa já não respondia. Só olhava, silenciosa, com a filha agarrada à barra de sua blusa, com medo de mais uma noite de gritos.
O homem começou a faltar no trabalho. Depois perdeu o emprego. A casa, antes arrumada, virou um campo minado de garrafas vazias, pontas de cigarro e pequenos sacos plásticos.

— "Você não é mais o homem que eu conheci. Eu não vou deixar nossa filha crescer nesse inferno."

— "Você acha que é fácil? A vida me ferrou! Eu só preciso de tempo, de um pouco de sorte!"

Mas a sorte havia morrido havia muito tempo, talvez junto com o último beijo sincero de sua esposa,ou com o último abraço apertado de sua filha, antes delas
irem embora de vez.

Ele se envolveu com gente perigosa. Agiotas, traficantes, gente sem rosto nem alma. O que começou como apostas de fim de semana virou uma dívida que crescia como um tumor.

Sozinho em um apartamento caindo aos pedaços, ele começou a ouvir as vozes.

— "Papai, volta pra casa..." — a voz de sua filha em sua cabeça.

— "Você jogou tudo fora, Amor... tudo..." — o lamento de sua esposa, ecoando pelas paredes.

Mas elas não estavam lá. Nunca estavam. Só os fantasmas daquilo que ele perdeu.

Ele gritava, quebrava garrafas, socava paredes.

— "CALEM A BOCA! EU JÁ SEI O QUE EU FIZ!"

Mas as vozes nunca se calavam. Porque elas vinham de dentro.

Anos se passaram. Ele agora era um andarilho que vagava pelas ruas repletas de pessoas frias e maldosas. Os olhos fundos, a pele marcada pela miséria. Dormia em papelões, com um cobertor rasgado e a cabeça cheia de memórias que mais doíam do que aqueciam.

Uma noite, bêbado, drogado e faminto, ele caiu na calçada. Sentiu o corpo gelar. O coração pesava como pedra. O peito ardia.

— "É isso, então?" — murmurou, vendo as luzes da cidade se apagando lentamente.

E pela primeira vez em muito tempo, ele viu algo diferente. Uma lembrança. O dia em que segurou sua filha nos braços pela primeira vez. O sorriso de sua amada no hospital. A promessa que fez e que nunca cumpriu.

— "Eu podia ter sido alguém..." — sussurrou, com os olhos cheios d'água.
No último instante,ele viu a si mesmo... mas não como era. Como poderia ter sido.

Um pai presente, levando sua filha ao parque. Um marido que abraçava sua família toda noite ao chegar do trabalho. Um empreendedor que superou a compulsão, que pediu ajuda, que caiu... mas se levantou.

Ele viu a casa cheia de risos. Uma mesa posta. Uma filha orgulhosa. Uma esposa feliz.

Mas foi só uma visão.

O que ele foi... ficou naquela calçada fria, onde o coração parou durante a madrugada com frio,com fome,com sede,sem amor e sem despedidas.Sem segunda chance. Só com o eco das vozes e o gosto amargo do arrependimento.

Em sua lápide foi gravado e escrito:
"Na vida, todos têm o direito de errar... mas nem todos escolhem parar de errar a tempo."

Cuidado com o que você se envolve,valorize as pessoas ao seu redor e tenha certeza do seu futuro,não troque seu bem estar para conhecer o mal do mundo.

VÍCIOWhere stories live. Discover now