Estreia — Ponto de vista de Lilian
O som do estádio me parecia distante, abafado, como se houvesse um vidro entre mim e o mundo. Eu ouvia os gritos, os cantos das arquibancadas, os comandos do técnico, mas nada entrava direito. Meus olhos estavam fixos no campo, mas meu corpo ainda estava preso ao banco, rígido, frio, mesmo sob o calor abafado daquela tarde.
Eu apertava os cadarços das chuteiras como se isso me enraizasse ali. Como se cada nó firme dissesse: você está aqui. Você pertence aqui. Ainda que, no fundo, a dúvida sussurrasse o contrário.
O primeiro tempo foi um desastre. O time parecia fragmentado, jogando por inércia. A camisa 6 havia perdido o tempo de bola em dois lances perigosos, e as adversárias — rápidas e letais — não desperdiçaram. Duas bolas, duas finalizações certeiras. Dois a zero no placar. Eu só conseguia pensar em como aquilo nos drenava, como a cada erro o time murchava um pouco mais. A frustração pairava no ar, espessa como fumaça.
No vestiário, o técnico gritou. Não por raiva, mas por desespero. Palavras duras, olhos vibrando indignação e esperança. Ninguém olhava diretamente para ele — ou para mim. Eu era a novata, ainda com o cheiro do último clube, ainda um nome estranho nos lábios das colegas. Ninguém me dizia “fica pronta”, mas eu sabia. Aquela tensão que cresce com o tempo, o olhar do treinador que começa a pesar sobre mim a cada minuto sem resposta em campo... Era só questão de tempo.
O segundo tempo começou e eu mal conseguia respirar direito. Cada minuto passado era uma roleta girando. Quando uma das atacantes — a camisa 14 — começou a mancar, senti meu estômago virar. Ela não pediu substituição, insistiu em continuar, mas dava pra ver no corpo dela o esforço para disfarçar a dor.
Aos 23 minutos do segundo tempo, o técnico finalmente se virou. O olhar era direto, quase um disparo.
“Lilian. Aquecimento agora.”
Aquelas três palavras foram como um soco no peito. Eu me levantei tão rápido que senti o mundo girar por um segundo. As pernas pareciam de borracha, mas obedeciam. Comecei a correr na lateral do campo, sentindo o ar entrar com dificuldade. Minhas mãos suavam dentro das luvas, e tudo em mim parecia querer fugir — menos o coração. Ele batia como quem sabia que tinha chegado a hora.
“Vai entrar no lugar da Júlia. Quero você caindo pela direita. Usa a profundidade, mas observa bem a linha delas. Estão deixando espaço nas costas.”
Eu balancei a cabeça, mas não falei nada. Não confiava na minha voz naquele momento.
Quando o quarto árbitro levantou a placa e vi meu número subir, uma vertigem me atravessou. Eu pisei no gramado sentindo o peso de cada grito da arquibancada, cada olhar em cima de mim. Era minha estreia. E o placar ainda mostrava 2×0.
O jogo era outra coisa vista de dentro. As passadas, os choques, o fôlego disputado em cada arrancada. As adversárias eram técnicas, mas não brilhantes — o problema era que nosso time estava desorganizado, nervoso, inseguro.
Na minha primeira bola, recebi um passe pelo alto, escorei de cabeça, e fui atropelada. Levantei no mesmo segundo. Não podia demonstrar hesitação. Não agora. Eu precisava jogar como quem sempre pertenceu ali.
Os primeiros cinco minutos foram de sobrevivência. Erramos passes, perdemos divididas, e a torcida começou a impacientar-se. Uma vaia veio de algum setor. Ignorei. Tentei escutar o som dos meus próprios passos, a cadência do jogo, o modo como a lateral adversária marcava com o corpo mais do que com os olhos. Ela se distraía quando alguém do nosso time fazia o pivô. Era ali.
Aos 32 minutos, a chance veio.
A goleira delas tinha saído para cortar um cruzamento e se atrapalhou. A bola sobrou na intermediária e eu já estava correndo antes de pensar. Cheguei primeiro. Um toque de lado, desviei da zagueira que vinha em desespero. A goleira tentava voltar. Respirei. Lembrei do treino. Olhei pro canto direito e bati rasteiro.
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The Lost Time - Taylor Swift
FanfictionSerá que podemos recuperar o tempo perdido? Depois de anos longe da sua família, Lilian se vê voltando pra casa depois de uma ligação da irmã sobre a luta da mãe contra o câncer. Onde Lilian tenta lutar contra as memórias triste de sua adolescênci...
