Ela estava parada em frente à janela. Era uma casa simples, de madeira azul e branca, com vitrôs de correr e vidros anelados. Apoiada na cadeira, pois era difícil sustentar o peso do corpo com a idade, tudo pesava, as costas doíam e doíam-lhe as pernas, por isso não permanecia muito tempo na mesma posição, meio arcada e alternando o peso do corpo de um pé para o outro a cada dois minutos que, nessa solidão, pareciam séculos.
Em oposição ao relógio que parecia com preguiça de marcar o tempo, os pensamentos de Dalva eram acelerados, não paravam. Eram compostos de lembranças, memórias e questionamentos sem respostas. Ela meditava em sua vida, como gostava de companhia e como apreciava as longas conversas com suas amigas, ou com os irmãos e irmãs da igreja.
Passava em seus lábios a sombra de um sorriso, porque já não conseguia sorrir, de fato, há muito tempo, ao lembrar de seus filhos e como cresceram rápido. Eram três: Luís, Maria e Marina. Quando pequenos eram tão levados, brigando o tempo todo, correndo por entre os móveis da casa pequena e fazendo barulhos estrondosos no assoalho. A única preocupação de Dalva nesta época era ter um pouco de paz, então ela gritava com as crianças para que ficassem quietos, pedindo que se comportassem, se não quisessem levar umas palmadas. Ora, ela havia trabalhado o dia todo, estava cansada, nada mais justo que um pouco de paz em casa.
Enchia os pequenos de tarefas domésticas, para que a casa permanecesse em ordem, o jardim sempre aparado, as roupas limpas e organizadas. Eram dias cheios, cansativos. Entretanto, essas lembranças causavam mais que o esboço do sorriso, causavam um nó na garganta e marejavam-lhe os olhos de saudade.
Dalva nunca acreditara que sentiria saudade de toda aquela agitação, mas agora sentia. E era dolorida, intensificada pelo silêncio que ela tanto reivindicara e que agora inundava a casa de uma maneira sufocante. Olhava ao redor e percebia tudo como ela deixara, nada para colocar no lugar, nenhum riso estridente e fora de hora. Suspirava cansada dessa paz impiedosa.
Saiu da janela e foi até a cozinha, abriu o armário e pegou mais uma dose de pílulas para as múltiplas dores que a acometiam. Foi até a pia, numa caminhada cansada de alguns passos. Voltou para o quarto e sem nada de interessante para fazer, deitou na cama, fechou os olhos.
Pensava consigo mesma como o tempo tinha passado tão rápido. Sim, ela tinha 83 anos agora, mas mesmo assim parecia pouco. Quando foi que as coisas mudaram drasticamente, quando começaram a não ligar mais para o opinião dela e passaram a considerá-la um idosa? No fundo, sentia como se ainda fosse criança, lembrava de seus sonhos bobos da infância e essas memórias se misturavam com as lembranças de sua vida sofrida para sustentar os seus próprios filhos. Sim, o pai os abandonara quando ela ainda estava grávida da Marina, ah que dias difíceis! Dessa fase, Dalva sente alívio por ter se livrado.
Meditava como tudo é tão incerto, como as regras não dizem nada. Já faziam cerca de 35 anos que Luíz morrera ainda jovem e deixara um profundo vazio no peito de Dalva. Ela imaginava como ele estaria agora, por certo seria um senhor alegre, tivera um gosto aguçado para piadas e anedotas.
Maria e Marina casaram, mudaram-se e viviam suas próprias vidas, vinham visitá-la "quando dava". Mas essa marcação de tempo para Dalva era muito diferente do que para suas duas filhas. Para quem está sozinho, cada minuto é uma eternidade.
Quando Dalva se aposentou, teve a sensação de conquista: "enfim, vou descansar". Mal sabia que esse descanso seria torturador e levaria toda a sua vontade de viver. De todos os questionamentos que a inquietavam o que mais a intrigava, certamente era a dúvida do porquê ela não morria. O desejo da morte era intenso ultimamente. Mas ela não morria, estava condenada a esse cárcere silencioso, torturador e solitário.
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Contos amargos demais para serem consumidos sem açúcar
Short StoryEscrevo histórias que poderiam ser suas, minhas, de qualquer um. São retratos melancólicos da vida como ela é: sem filtros, sem açúcar. Por isso, pegue um docinho para o amargor não lhe amargar a boca.
