Quando ela volta?

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Na estação das almas, ele espera.
Sentado em um banco vazio de pedra polida,
mas o tempo do aguardo nunca se finda.
Falando com o homem de cinza que apenas seus olhos enxergam.
— Ela sempre vem essa hora. Lara não demora!

Os trilhos gastos parecem novos sob seu olhar,
o vazio da alma aperta-lhe o peito sem parar.
Para ele, ansiedade não tem nome,
mas quando fica sem ar, abriga no peito a saudade e o motivo do aperto. Lara, enfim, o fará descansar.

A névoa encobria o monte ao longe,
a lembrança dos lábios doces e macios é um tenro enlace.
Ao olhar para os sapatos, um sorriso gatuno permeia sua face.
Os olhos revirados de Lara tomam sua mente,
e, cada vez mais, ele aperta os joelhos, mais impaciente.
O relógio imaginário em seu pulso aponta onze horas.

Ele aperta os olhos em memória à sua última briga com Lara e se cobra:
Será que sua demora era compatível com aquele terrível dia de inglória?
A verdade é que a briga era só sua,
Seus olhos brilhavam mais que a lua,
E o medo de Lara a paralisou no instante,
Mas ela não havia de ter esquecido os dez anos de romance, teria?

Seus pés batem mais forte no chão,
o estômago revira em compasso.
Levanta do banco e apressa o passo,
vai até o telefone e disca o número dela.
Talvez ela ainda estivesse pendurada naquela janela.
Mas Lara não haveria de estar. Ela havia caído do décimo andar.

Ele desliga o telefone e volta a se sentar, a imagem de vidro quebrado e sangue assombrando sua mente,
os pesadelos com longos cabelos pretos o amarrando como correntes,
sua mãe gritando seu nome como o silvo de uma serpente,
olhos desacreditados dos vizinhos adjacentes.
E Lara caída, quebrada por dentro e por fora.

Lágrimas escorriam dele no meio da estação, talvez ela estivesse com raiva, ou talvez fosse tudo coisa da sua cabeça, e ela ainda estivesse naquela sacada,
com suas bochechas coradas, os olhos verdes que penetravam no âmago da alma.
Se ele pensasse com calma, conseguia ver seu belo vestido vermelho,
seu pescoço adornado com joias,
sua coleção de jiboias, num tanque de meio metro, no fundo do quarto esbelto.

De repente, ele gargalhava sem parar,
Não havia tormento mais negro, do que passar os dias sem medo e sem vontade amar.
Nada lhe dava alegria ou tristeza,
Não conseguia mais ver beleza.
A comida não tinha mais sabor,
O sol não tinha mais calor, permanecia tudo sem cor.
Uma tristeza descompensada, uma morte diversificada, o pescoço de um vivo fora do pescoço,
Um abacate sem caroço.
Ele sem ela, para sempre.

Matava-lhe saber que tudo era culpa de seu egoísmo,
Que o tinha levado para o abismo, com a promessa de ser o melhor.
O orgulho no peito do homem, que não aceitava que era fraco, quebrando toda sua fortaleza numa queda de braço, perdendo a capacidade de sustento,
fugiu da morte por tanto tempo, mas acabou num trilho sujo sem calento, com o choro grudado em seu ouvido como uma pulga em um cão sarnento.

Ele fechou os olhos com força, conseguia sentir o sabor do vinho daquele dia,
conseguia ouvir o ritmo e a melodia.
Em suas mãos, sentia sua cintura fininha,
e o cheiro de Château no ar.

Quando abriu novamente, o céu cinza se destacava,
o verde de musgo no trilho brilhava, e o homem de cinza que o acompanhava não passava de um chapéu.
Ao longe via um raio cair,
mas só sairia dali quando ela chegasse.
Quando ela vem?
Foi olhando para o velho trem que percebeu tudo o que perdeu esperando ela voltar.

Foi duro se apaixonar por Lara, uma garota rica que, no auge de sua vida,
prometeu amar e cuidar.
De quem?
Ele, terrível homem de mente perturbada,
que ouvia vozes na estrada que o mandavam matar.
A maior parte do tempo ele ignorava, mas foi naquela sacada que ele empurrou Lara, do décimo andar. E agora esperava, desesperadamente, ela voltar.

Quando ela volta?Tempat cerita menjadi hidup. Temukan sekarang