Joui acordou antes do sol. Como sempre.
A chaleira sibilava baixinho na cozinha. As mãos dele, firmes e delicadas, lavavam o arroz enquanto a mente passeava em outras dimensões — como se o mundo físico não fosse suficiente para conter tudo o que ele sentia. Vestia um yukata leve, azul-acinzentado, com os cabelos ainda soltos e úmidos pela lavagem matinal. O incenso queimava no altar, entre uma pequena estátua de Jizō e um vasinho com flor de lótus ressecada.
Ele murmurava baixinho, em japonês:
— Kyou mo ikiru tame ni, kokoro o yusaburu tame ni...
("Hoje também, para viver... para agitar meu coração...")
Ao fundo, a música que tocava era de seu ritual matinal. Venere Vai Vênus, sempre. Hoje era “Flor de Ausência”. O verso ecoava forte pelo cômodo:
“Me diz que tua falta é só uma pausa — e não o fim da canção.”
Joui apertou os olhos. Aquilo lhe doía de um jeito estranho. Não era saudade de alguém específico, mas de um sentimento que ainda não tinha nome. Ele não sabia se era amor, desejo ou apenas o eco de um abraço que nunca aconteceu.
Ele se sentia como um poema à espera do leitor certo.
.
Na varanda de seu pequeno apartamento, ele tomava o chá verde quente com as duas mãos, respeitando o calor da porcelana, o tempo das folhas, o silêncio entre um pensamento e outro.
A maioria das pessoas o chamava de “intenso”. Como se isso fosse demais. Como se a intensidade fosse uma falha de fábrica — e não uma bênção divina.
Mas Joui sabia que amar em voz alta era uma forma de coragem. Que chorar por uma canção era um jeito de manter o coração humano. Que sentir demais não era fraqueza, e sim o maior dos atos espirituais.
Ele anotava no diário com pincel e tinta sumi-e. Só palavras soltas, flutuando em silêncio:
“Hoje o mundo parece andar sem mim.
Mas eu insisto em existir —
com flor nos dentes
e incêndio nos olhos.”
Fechou os olhos por um instante. Lembrou de outro verso do Venere Vai Vênus, da música “Terra em Marte”:
“Eu sou feito de tudo que não coube em ninguém.”
Talvez por isso doía tanto. Talvez fosse esse o motivo de andar pelas ruas como se procurasse algo o tempo inteiro. Uma conexão. Um gesto. Um rosto que fizesse o tempo parar.
Mas, por enquanto, só havia ele — e isso precisava bastar.
.
Mais tarde, no final do dia, Joui caminhava por um parque vazio. Os pés descalços tocavam a grama com reverência. Ele era um homem urbano, sim, mas não abria mão de sentir a terra. De pisar devagar. De escutar o vento com o mesmo respeito com que escutava um conselho de sua avó.
Algumas crianças passavam correndo, e ele sorriu para uma delas. O menino devolveu o sorriso. Depois, voltou a andar sozinho. Por dentro, repetia:
“A solidão é um quarto onde converso com minhas versões passadas.”
Na ponte de madeira, parou. Olhou o lago parado, tão igual e tão instável quanto ele. O reflexo era de um rosto calmo, mas os olhos... os olhos sabiam do caos.
Ele pensou:
“Ainda não chegou.
Quem me atravessa.
Quem me queima inteiro.
Mas eu espero.
Como se esperar fosse meu idioma natal.”
E então, como num sussurro que nem o vento escutaria, ele disse em voz baixa:
— Um dia... alguém vai saber me ler..
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𝐍𝐚̃𝐨 𝐞𝐬𝐪𝐮𝐞𝐜̧𝐚𝐦 𝐝𝐞 𝐯𝐨𝐭𝐚𝐫 𝐞 𝐝𝐞 𝐝𝐞𝐢𝐱𝐚𝐫 𝐮𝐦 𝐜𝐨𝐦𝐞𝐧𝐭𝐚́𝐫𝐢𝐨!!!
𝐎𝐁𝐑𝐈𝐆𝐀𝐃𝐎 𝐏𝐎𝐑 𝐋𝐄𝐑!!!!
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Entre o Violeta e o Incêndio - Joesar
FanfictionNOME DA BANDA USADA APENAS COMO INSPIRAÇÃO, ALGUMAS RECITAÇÕES NÃO SERAM DE MÚSICAS REAIS! . Ele veio do Japão com o coração em brasa e os olhos cheios de silêncio. Joui Jouki, ex-ginasta e poeta involuntário, carrega no corpo a disciplina das tra...
