PRÓLOGO

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Quando o Caos Sussurrou pela Primeira Vez

"No princípio, não havia luz.
Nem sombra.
Nem mesmo o tempo ousava respirar."

Havia apenas o Caos.
Um espaço sem contorno.
Uma ideia sem nome.
Uma vontade que nunca fora ensinada a parar.

E então, o Caos sentiu algo inédito.
Uma agitação em seu centro.
Um ritmo.
Um pulso.
Uma possibilidade.

Era uma criança.
Um milagre gestado entre o movimento e o silêncio.
A primeira e última herdeira de sua essência.

Não feita de carne, mas de intenção.
Não forjada por desejos humanos, mas pela colisão de forças antigas que dançavam no vácuo da existência.

"Ela será a minha continuação.
E o meu fim."

O Caos a nomeou Nyxa.
E, ao nomeá-la, soube que era hora de descansar.
Não por cansaço,
mas porque não havia mais nada a ser dito.

Seu nome agora vivia fora dele.

E onde antes existia um abismo criativo e selvagem,
agora havia ela:
Aquela que ouvia todos os sons e todas as dores ao mesmo tempo —
e sorria.

Não por sadismo —
mas porque compreendia.

Nyxa não nasceu entre os homens,
mas os viu nascer.

Primeiro, como fogo e lodo.
Depois, como reis e poetas.

Ela viu cidades serem erguidas com promessas —
e ruírem por orgulho.

Testemunhou a alma de uma civilização moldar-se em uma mulher chamada Nada,
que caminhava com realeza e ousadia.

Nyxa ainda era um suspiro de poder adormecido —
mas seu espírito reconheceu algo naquela mulher.

Uma familiaridade.
Um aviso.

E então, Nada encontrou o Sonho.
E tudo mudou.

Foi naquele tempo que Nyxa foi levada  ao mundo dos homens pela primeira vez.
Vestia formas humanas como se vestem véus de dança:
com elegância, mas nunca fixamente.

Ela observava.
Aprendia.
Sabia que ainda não era o momento de interferir.

Mas foi também naquele tempo que ela o viu.

Morpheus.
O Senhor do Sonhar.
O Perpétuo de olhos de noite sem fim.
De voz que não se curvava, nem suplicava.
De tristeza moldada em mármore.

E ela sentiu.

Não amor.
Ainda não.
Mas a gravidade.

Os séculos passaram.
Ela o observava — em silêncio.
Nos amores que se quebraram,
nas prisões que o acorrentaram,
nas perdas que o silenciaram.

Quando ele caiu no mundo desperto, capturado por mortais,
Nyxa soube que o equilíbrio havia sido violado.

Ele fora invocado por engano, selado em um círculo mágico por Roderick Burgess
um mago que desejava capturar a Morte,
mas prendeu o Sonho.

Um erro fatal.
Um erro que duraria cem anos.

Nyxa sentiu a ruptura.
Mas não interveio diretamente.
Ainda não.

Ela observava,
através dos olhos da coruja que lhe servia — Aitheris
aquela que voava sem ser vista,
que atravessava os véus do Sonhar com leveza e escuta.

E Morpheus, sem saber, nomeou aquela coruja silenciosa de:

"Sombra de Asa",
pois era como se seus olhos estivessem sendo vigiados pela sombra de algo maior.
Algo antigo.
E foi.

Espelho Do Caos - Pausado Where stories live. Discover now