Trovão

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Chovia em São Paulo. Elizabeth estava sentada em seu sofá, com um copo de whisky nas mãos e aparência deplorável. Se esconder no cobertor jogado em cima dela não estava ajudando, e admitia, o filme triste também não. Quem diria. O menino morreria antes da garota com câncer. Esse final a teria pego de surpresa, se não o assistisse todos os anos, desde que a obra foi lançada.

Via esse filme sempre nessa data em específico. Sem nenhuma razão aparente. Não tinha nada a ver com a morte de sua mãe. Apenas a morte. Não era tão específico. Mas ela não tinha achado nenhum filme sobre isso. Sentia uma lágrima solitária descer pelo seu rosto ao ver a cena onde contavam para Hazel sobre a morte de Gus e virou o resto do líquido em seu copo.

Suspirou, pegando sua garrafa de João Daniel e pensou se adiantava colocar no copo. Deu de ombros e bebeu do gargalo, com mais lágrimas se formando no canto de seus olhos. Olhar vazio.

Joui havia mandado mensagem essa manhã, perguntando como ela estava e se queria companhia. Queria? Não sabia. Foi isso que respondeu ao japonês.

"Ah, mas Liz, qual das duas perguntas você respondeu com 'não sei'?"

As duas.

Respirou fundo, colocou a garrafa vazia no chão e jogou a cabeça para trás, apoiando no sofá. Seu coração batia mais rápido do que o normal, mas ela se acostumou a sentir-se assim nessa data em específico. Já faziam onze anos. Um trovão estourou no céu, fazendo Liz pular no próprio lugar e fechar os olhos, com força.

Ele não havia mandado mensagem ainda, mas tinha um motivo. Veríssimo o tinha convocado faziam dois dias e desde então, não teve mais notícias. Estava preocupada! Louca!

E se tivesse acontecido alguma coisa com Thiago? Estava de cabelos brancos com tamanha preocupação, e porra, as datas tinham que coincidir? Afundou a cabeça nas próprias mãos, deixando seu desespero falar mais alto. Mais um trovão. Caralho! Ela sempre se assustava.

Limpou as poucas lágrimas que caiam e fungou, se agachando para pegar sua garrafa vazia e levar para a cozinha.

Devia estar ridícula. O cabelo estava solto, porque não havia se dado o trabalho nem de fazer um coque simples, mas seu jaleco se encontrava em seu corpo. Isso a fazia lembrar do porque lutava. Porque enfrentava aqueles monstros. O que procurava.

Olhou o retrato de sua mãe, logo ao lado da televisão, na estante. Sua mãe estaria feliz? Estaria orgulhosa da mulher que havia se tornado? Provavelmente não. Olhou seu reflexo no forno e viu suas olheiras, cabelo desgrenhado, roupas amassadas... Uma completa fracassada. Sorriu sem humor.

Abriu um armário, na procura de uma nova garrafa, porém não achou. Thiago a visitara semana passada e obrigou a mulher jogar fora duas das três garrafas que guardava. Bem, justo, levando em conta que ela havia feito o mesmo com seus cigarros, uns meses atrás, mas isso não a impediu de espernear igual criança pequena.

Bufou ao constatar que teria de beber chá. Observou pela sua janela em frente a pia as gotas caírem cada vez mais forte. Se sentia nervosa. Olhava preocupada para fora, torcendo para Bolinho, o cachorro de Gonzales, estar bem com Joui. Ele era bem apegado ao bicho e gostava de passar tempo com o animal. Liz não via problemas nisso, e apesar da preocupação, não sentia vontade de mandar mensagem alguma. Pra ninguém. Apenas pra ele.

Sabia que não seria respondida. Igual as outras cinquenta e duas mensagens que havia enviado. Se não tivesse notícias, ela mesma iria andando até a Ordem procurar aquele homem e puxá-lo pela orelha para a casa dela.

Se apoiou com as duas mãos no balcão, esperando a água ferver. Apenas uma lágrimas escorreu de seus olhos. Não era nenhuma criança para chorar por isso. Né?

Data IdiotaTempat cerita menjadi hidup. Temukan sekarang