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A primeira vez que Nathan viu Luana, ele estava escondido atrás de uma árvore no parquinho da escola. Ele tinha sete anos, o rosto manchado de terra e os olhos claros fixos nela, como se ela fosse um segredo do mundo que só ele tivesse notado.
Luana ria alto, empurrando outra menina no balanço, o cabelo castanho preso num rabo de cavalo bagunçado. Quando ela tropeçou e caiu de joelhos no chão de brita, foi Nathan quem correu até ela com um lenço sujo no bolso, estendendo como se fosse um presente.
— Tá tudo bem? — perguntou, sem encará-la nos olhos.
Ela riu, mesmo com os joelhos ralados.
— Tá! Valeu, esquisitão.
Naquele dia, eles voltaram juntos pra sala de aula, lado a lado. Nathan não disse nada, mas uma ideia já se formava devagar na sua cabeça de criança: ela era diferente de todos. E ela tinha olhado pra ele.
Com o passar dos anos, Luana virou sua melhor amiga. Compartilhavam lanches, segredos, e, acima de tudo, silêncio. Ela falava por dois, e Nathan ouvia como se cada palavra dela fosse uma melodia que só ele entendia.
As professoras diziam que Nathan era "quieto demais", "estranho", "no mundo dele". Um médico sugeriu que ele podia estar no espectro autista, mas os exames e observações nunca deram uma resposta clara. Isso não importava pra Luana — ela dizia que ele era só "o Nathan", e isso bastava.
Mas dentro dele, as coisas cresciam diferente.
Nathan começou a anotar tudo o que ela dizia. Gravava sua risada no celular escondido. Guardava papéis com a letra dela. E quando ela começou a namorar no ensino médio, ele dizia a si mesmo que era só ciúme... só medo de perder uma amiga.
Até que, numa noite qualquer, aos quinze anos, ele sonhou com ela. Mas não era um sonho comum — era um casamento. Ela, de branco. Ele, de terno. Um beijo silencioso sob uma árvore morta. Quando acordou, o travesseiro estava molhado de lágrimas. Ou talvez fosse suor.
E ali, ele soube.
Ela era dele.
Sempre fora. Só não sabia ainda.
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A Dança da morte
Short Story--- Dança da Morte Algumas promessas não morrem com o tempo. Outras... nem com a morte. Nathan e Luana cresceram juntos - inseparáveis, quase almas espelhadas. Mas quando amizade se transforma em algo mais sombrio, nem todos os sentimentos merecem s...
