Capítulo 4

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    Era uma manhã agradável de outono. Um ventinho suave e ligeiramente frio soprava sobre os rostos, deixando um nariz gelado que os fazia esquecer do verão escaldante que passara. Era a melhor época para se trabalhar nos campos devido a ausência do sol forte. De uma janela grande, Calebe viu os cavaleiros vindo pelo caminho, interrompendo sua leitura agradável na cozinha. Conhecia os três cavaleiros, inconfundíveis pela altura, belos cavalos e porte. Uriel destacava-se na montaria. Calebe saiu e os cumprimentou com um acenar de cabeça. Uriel, seu irmão e um servo,  o cumprimentaram com uma leve reverência. Acsa logo foi avisada da presença dos visitantes por uma das moças que trabalhava por ali, e permaneceu na varanda, vendo de longe a conversa. Otoniel a par do possível interesse do visitante em Acsa, não saiu de seu lugar na cozinha, mesmo que não quisesse, podia ver o que estava acontecendo lá fora, pela enorme janela.
—Bom dia senhor, venho a negócios. – Disse Uriel com sua voz forte, em tom confiante — Trago comigo algumas mercadorias. Sementes trazidas de muito longe, mel silvestre e algodão egípcio, que é do agrado de meu pai, trocar por suas colheitas. No entanto antes de fazê-lo gostaria de conversar sobre outro assunto...
Calebe apenas consentiu novamente com um gesto, fazendo Uriel continuar:
—Corre por nossas terras que sua bela filha, está em idade de enlaçar-se matrimonialmente. Sei ainda que nenhum anúncio pelo pedido do dote foi feito por ti. E como pode ver, estou de fato interessado neste assunto. Crendo humildemente poder ser um bom marido, gostaria de saber qual seria a ínfima quantia pedida, por tão preciosa moça. E ainda gostaria de saber se me considero, aos seus olhos, alguém digno de sonhar em tal aquisição.
Calebe que até agora não tinha dito uma palavra, disse apenas que pensaria no assunto e que em alguns dias lhe daria uma resposta. Uriel porém perguntou se poderia entregar um presente a Acsa, que foi consentido por Calebe. Uriel desceu de seu cavalo; pegou uma caixa de madeira e veio caminhando até Acsa. Essa permanecia surpresa e gélida enquanto via ele vindo em sua direção. Ela não imaginava o que iria acontecer, já que a conversa não foi ouvida por ela.  Apenas via que Uriel falava e olhava em sua direção. Ele subiu as escadas da varanda, lhe ofereceu a caixa com uma leve reverência e deu um  sorriso de canto, acompanhado de um piscar de olhos charmoso. Se despediu com uma nova reverência, dando-lhe um beijo em sua mão. Retornou aos negócios com seu pai, que o levou ao armazém da propriedade.
Sentada em sua cama, abriu a caixa cuidadosamente. Eram lindas joias, em ouro com pedras azuis. Acsa colocou um belo colar em seu pescoço, era realmente bonito.
Ao entrar em casa, Calebe viu Acsa em pé na sala, lhe aguardando. Como ele não disse nada, ela iniciou a conversa:
—Posso saber o que Uriel queria contigo meu pai?
—O rapaz quis saber a respeito do seu dote, acredita poder pagar por ele. –lhe respondeu Calebe de forma simplória e com uma aparente ironia em seu tom, dirigindo-se novamente a cozinha. Vendo que a filha merecia algo mais como resposta e que o assunto a deixava extremamente preocupada, parou antes do seu destino e completou:
—Em breve irei anunciar o pedido do dote por ti, mas não se preocupe com isto minha filha, não a darei a alguém que não irá cuidar de ti como eu estou disposto a fazer.
Otoniel pode ouvir a conversa entre os dois. Também havia visto, pela janela, Uriel na varanda com Acsa. Mas parecia não ter visto nada. Continuava sentado na mesa da cozinha, descascando uma laranja em silêncio.
Os dias passaram um tanto quanto monótonos. Mas um clima de casamento, agora parecia inundar a casa de forma densa. O assunto “enxoval” não era mais um tabu e era dito com frequência pelas servas da casa, que acabavam deixando Acsa ainda mais ansiosa e preocupada.
Era real que a partir de qualquer momento tudo iria mudar para ela. Um casamento naquela época poderia até representar nunca mais ver a família anterior. Tudo dependeria do posicionamento do marido em permitir ou não. Ou talvez a distância. Certo era que ela não pertenceria mais ao pai após casar-se. O pai que tanto a amava e que deveria permanecer sozinho após sua partida. Ela não sabia o que pensar, era um sentimento de tristeza misturado com ansiedade. Na época era costume dos povos os homens poderem se casar com mais de uma esposa, Calebe porém sempre acreditou me agradar ter uma única esposa, e após a partida da sua, não quis casar-se novamente.
—Será que Otoniel permaneceria com seu pai após ela casar-se?- Pensava Acsa. Ela não sabia o que queria de fato, mas sabia que não queria ver seu pai sofrer. Eram muitas hipóteses para pensar em seus últimos dias na casa. E ocupar-se em fazer panos bordados para o enxoval, não estava ajudando a se distrair.
—Será que Otoniel teria algo para vender que pudesse servir como dote?– ela refletia nessa possibilidade. Pelo que sabia ele agora tinha um cavalo. Seu pai provavelmente pediria bem mais que cinquenta daquele, se essa fosse a moeda de troca. Lembrando do pobre cavalo, ela aproveitou a oportunidade para falar com Otoniel, já que nos últimos dias não havia motivo para tal e mal haviam se cruzado pela casa. Otoniel e Calebe passavam o dia trabalhando na propriedade e Acsa havia abandonado suas funções cotidianas para se dedicar inteiramente aos preparativos de um possível casamento.
—Como está o cavalo do vilarejo? Perguntou Acsa, enquanto arrumava sua refeição nas panelas. Otoniel de modo leve e aparentemente bem feliz com a companhia que chegara na cozinha respondeu:
—Bom... aparentemente parece totalmente recuperado; pensei em dar uma volta com ele para verificar.
A afirmativa parecia um convite. Os dois não estavam sabendo disfarçar a felicidade e empolgação ao voltarem a conversar depois de tantos dias.  Acsa comedida, disse:
—Eu posso acompanhá-lo em meu cavalo se for aqui por perto. Preciso de um pouco de ar fresco.
—Seria ótimo, creio que ainda tem muito o que me mostrar pela propriedade. Disse Otoniel tentando esconder seu sorriso enquanto comia a seu lado.
Acsa entendia que aquela poderia ser uma das últimas vezes que conversariam. Os dois não queriam trazer á tona o elefante branco que rondava,  representando o casamento.
—Já escolheu um nome? -Perguntou ela, acariciando o cavalo, que parecia agitado em ter companhia.
—”Esperança”. Respondeu ele olhando o animal e amarrando a cela. _ Com a violência que ocorreu naquele lugar, e o fato dos saqueadores não virem algo de tanto valor, creio que Deus quis que ele fosse meu. Um bom sinal pra eu não perder minhas esperanças. – Otoniel encerrou o assunto indo até a baia buscar outro cavalo para Acsa. O certo peso na voz dele, foi compreendido por Acsa como sendo um assunto que não se referia apenas ao cavalo que estava ali.
Segurando sua mão, ajudou Acsa a montar o belo animal. Ela estava tão perfumada que era quase irresistível permanecer certa distância. Com sua saia longa púrpura e cabelos negros presos no alto, parecia uma joia sendo prestigiada num cortejo.
—Como está o trabalho? Está gostando? -Perguntou Acsa enquanto caminhavam em seus cavalos lado a lado, rumo ao sul da propriedade.
—Sim, eu iria trabalhar de qualquer forma para pagar pela hospitalidade de seu pai. Porém ele faz questão de me pagar como a um de seus servos pelos meus serviços.
– Meu pai deve estar muito feliz em tê-lo por perto, você tem sido uma grata surpresa para nós. –Disse ela.
–Creio que meu pai também estaria muito satisfeito em saber que estou aqui, ele admirava muito Calebe, que era sempre mencionado com profundo orgulho.
Aos poucos, era Otoniel quem, de fato, estava dando substância à conversa. Ela queria estar ali, mas ao mesmo tempo tentava resguardar seu coração de algo que não poderia ser alimentado. Ainda assim a vontade de aproveitar cada segundo juntos falava mais alto.
Acsa o estava levando a uma fonte de água que formava uma espécie de oásis nas terras mais secas do território, antes de chegar a um deserto. Seu pai tinha muitas terras, do extremo sul ao extremo norte, havia uma diferença gigantesca de bioma. O norte era feito de montes irrigados e verdejantes. O sul era árido, com vales e fontes de águas. Nos dois eram vistos belezas singulares.
Naquele caminho silencioso, avistaram uma tamareira que estava carregada, logo desceram do cavalo e procuraram um galho para tirar aquelas belas tâmaras. Não acharam nada que servisse, então Otoniel subiu na tamareira, o que necessitava muita força e habilidade.
—Você é melhor colhendo tâmaras do que uvas. - Brincou Acsa enquanto segurava as tâmaras que Otoniel ia jogando do alto da árvore.
—Sou melhor quando não estou sendo sabotado senhorita!– gritou ele lá do alto, rindo.
Colheram tanto quanto podiam carregar, Otoniel terminou sujo e suado. Não continuavam a cavalo, iam a passos lentos, puxando os animais pelas rédeas conversando e comendo tâmaras.
O local da fonte era magnífico, formava um lago de águas mornas, cercado por palmeiras e grandes pedras. Quase um local secreto no meio do deserto.
Otoniel tirou apenas os sapatos e deu um salto nas águas, mergulhando no fundo do lago cristalino,  nem parecia que tinha companhia ou que voltaria molhado no restante do passeio. Acsa, enquanto isso, subiu em algumas pedras que circundavam a fonte e sentou-se numa delas, debaixo de uma leve sombra de palmeira. Erguendo um pouco a saia, molhava parte das pernas e  seu rosto com as mãos.
Otoniel saindo molhado, pegou uma flor branca de uma murta da beira do lago. Chegando mais próximo de Acsa do que o convencional, por causa da distância das pedras, olhou intensamente em seus olhos e lhe entregou a flor. Acsa completamente desnorteada com o presente disse um obrigada corando as bochechas.
—É de comer. Disse ele dando um leve sorriso para ela.
—Está tentando me matar Otoniel? Respondeu ela, agora mais descontraída com o presente.
—Sou especialista em deserto madame; Disse ele pegando uma pétala e comendo sorrindo, ainda olhando em seus belos olhos negros, tão próximo quanto fosse ainda apropriado aos dois.
Ela, tirando as pétalas também as comeu. Eram de fato saborosas, realmente ele parecia ser um especialista em sobrevivência. Deram de beber aos cavalos e retornaram para casa.
Na volta apostavam corrida a cavalos. Pareciam que estavam correndo para sobreviver de tão rápido que cortavam as estradas. Chegaram com os bolsos cheios de tâmaras. Acsa nunca teve alguém com que gostasse tanto de passar seu tempo.

O Deserto de Acsa Stories to obsess over. Discover now