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Capítulo 1

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   Bom, alguns dizem que Eu teria meus preferidos; não é bem assim... Sem dúvida alguns foram fascinantes, e mereceram minha especial atenção. Mas você também os privilegiaria com a sua, se assim como Eu, estivesse os olhando em seus breves sopros de vida.
Um desses fascinantes que pisaram este pó, foram Otoniel e Acsa.
Eu ouvi e vi muitos corações, mas um amor determinado como o deles, poucas vezes.
Foi há uns três mil e quinhentos anos atrás. Era uma época em que os reis eram principalmente generais de guerra. Terras eram tomadas a preço de sangue, e  coragem e determinação garantia a sobrevivência de povos em seus territórios.
Acsa era bela como uma rosa do deserto, uma pele bronzeada, cabelos negros e longos, que lhe faziam como um véu esvoaçante, adornando toda sua exótica beleza. De um temperamento agradável, bondoso e sorriso transbordante. Inundava tudo ao redor com sua presença, que de fato era uma deliciosa brisa de verão. Crescera com seu pai Calebe, nas montanhas de Hebrom em Canaã. Uma terra magnífica, onde Eu irrigava suas colinas no tempo certo, era pra mim como um belo jardim. Lá se dava todos tipos de frutos e ervas, habitada por povos guerreiros, cercada por vales áridos, onde os tempos de guerra faziam dos povos inimigos naturais.
Calebe apesar de idade avançada, era um dos homens mais valentes daquele lugar. Com uma fé inabalável em mim, grande fama e riqueza, já havia conquistado mais terras do que poderia cultivar. Precisaria de dias para percorrer todo seu território se assim pretendesse fazer, e sem dúvida era uma das melhores localizações da região.
Não era nascido de fato daquele lugar, pertencia a um povo nômade que caminhava pelo deserto do Sinai. Era um povo numeroso, cujos antepassados há muitos anos, haviam também habitado Canaã. Mas, por muito tempo tinham sido mantidos escravos em outro país. Agora, depois de libertos, andavam como nômades pelo deserto há quarenta anos, na esperança de retornar à suas antigas terras. Todavia existia uma proibição entre eles; a antiga geração do povo que havia sido escrava não poderia entrar em Canaã. Somente os mais jovens que haviam nascido no deserto estavam autorizados à entrada.
O único da antiga geração que pôde entrar naquelas terras foi o próprio Calebe, que por sua bravura em meio ao povo, havia se tornado digno. Sozinho tinha guerreado com vários povos do lugar, assim se estabeleceu ali durante aqueles quarenta anos. Sua mulher falecera quando Acsa era criança, restando apenas os dois. Ela, agora uma jovem,  já estava na idade de ser dada em casamento.
E essa história de um possível casamento com a filha de alguém tão notório, se espalhava pelas famílias da região, gerando grandes expectativas entre possíveis pretendentes. Era consenso que um casamento seria visto entre as partes como uma aliança firme de paz, apoio militar e vantagens econômicas.
Poucos porém seriam de fato considerados para concorrer a tal título, já que, de acordo com a época, necessitava possuir um grande dote pela moça e ainda certa posição de poder.
Aos olhos dos servos da propriedade e de Acsa, o principal partido seria Uriel. Era o terceiro filho do Clã dos Refains, habitantes das terras ao sul. Jovem muito forte, mais alto que todos da sua idade, treinado para guerra, com uma pele extremamente branca, que diferenciava seu clã de todo resto dos povos de Canaã.  Acsa o havia visto duas vezes, por ocasião de escambo entre as famílias. Negociavam safras de azeites produzidos por Calebe, em troca de especiarias trazidas pelo Pai de Uriel. Nenhum azeite se igualava ao produzido nas terras de Cabele por oliveiras centenárias, cultivadas nos montes.
Certamente ela concordava com o fato de que Uriel possuía um porte de príncipe. Muito talvez pelo fato de, nas duas vezes em que foi visto, ele estar trajando parte de sua armadura,  permanecendo em seu magnífico cavalo preto, de longas crinas brilhantes. Ele tinha uma imponência em sua presença que transmitia um leve ar de esplendor. Estava agora à frente dos negócios de seu velho pai, cuja idade não o permitia mais tanto esforço.
Acsa não teria de fato nada a se opor a tal casamento, e, certamente estava disposta a obedecer seu pai independente de qual fosse sua escolha. Sua mãe quando viva, a fazia acreditar que o amor sólido, que resistisse aos intempéries da vida, era construído aos poucos e através da firme decisão de ambos em fazer dar certo. Ainda sempre terminava seus conselhos à filha com seu ditado favorito:
—”De uma onça faminta e uma mulher carinhosa, ninguém consegue escapar!”.
Se era verdade ou não, Acsa não sabia. Mas, de fato seus pais viveram muito felizes e era impossível acreditar que não haviam sido feitos um para o outro. Ou talvez eram os anos juntos, que os tornavam como partes de uma única peça.
Calebe, apesar de ser um homem que pouco falava, era muito sábio e sempre justo e ela tinha certeza que ele iria escolher um bom marido, muito melhor que ela própria o  pudesse fazer.
Até o momento porém, nenhuma introdução ao assunto “casamento” havia sido feito por Calebe. Nem sequer um comentário leviano em todos aqueles anos. Ela também evitava falar sobre isso e até que esse assunto fosse trazido à tona pelo pai, ela não começaria a preparar seu enxoval.
Era um dia quente, com o céu azul, bem no início do verão. Todos já haviam começado seus serviços. Calebe foi chamado para receber um mensageiro vindo de seu povo, o qual lhe trouxera uma pequena carta. Isso era um evento especial para ele, que acontecera poucas vezes em todos aqueles anos.
Seu meio-irmão havia falecido.
A carta explicava que o motivo era uma peste que acometeu o acampamento. Tinha sido escrita por seu filho Otoniel, contendo poucas informações, e dada a distância entre ambos, já havia passado algum tempo do ocorrido. 
Otoniel e Calebe nunca haviam se encontrado; não por falta de interesse de ambos, que ao contrário, tinham grandes expectativas em fazê-lo um dia. Um pela admiração ao tio, devido sua grande fama. E o outro, em poder estar com parte de sua família, e saber também o que se passava com seu povo. Antes de morrer seu meio-irmão havia mencionado seu filho Otoniel em algumas cartas trocadas. Provavelmente deveria ser um pouco mais velho que Acsa. Seu meio irmão era um homem igualmente íntegro, não possuía a mesma disposição e ousadia de Calebe, mas, com certeza, havia sido um bom pai.
Calebe lhe retornou uma carta pelo mensageiro, contendo a seguinte mensagem:
—Com grande dor recebo a notícia de meu irmão. Poucos homens bons nos restaram após sua partida. Gostaria de tê-lo tido por perto, mas sabemos da proibição que estava imposta à sua geração. Quanto a você meu sobrinho, nada o impede. Sei que em breve será permitido a todo o povo a entrada para tomar posse de Canaã, e assim nos encontraremos. Mas, digo a você que venha antes e permaneça comigo em Hebrom até que o povo inicie a guerra.

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