reunião comigo mesmo

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A casa estava mais pequena do que ele se lembrava. Ou talvez fosse ele que tinha crescido demais. As paredes pareciam ter encolhido, e o chão de linóleo já não fazia aquele som seco de antigamente — ou talvez fizesse, mas agora já não assustava.

Veigh atravessou o corredor em silêncio. Não havia ninguém, mas sentia uma presença. O cheiro estava igual: incenso barato misturado com arroz feito à pressa e o resíduo doce de um produto de limpeza que tentava esconder a humidade entranhada nas paredes. Um cheiro que sabia a infância.

E ali, na sala, estava o sofá cor de vinho.

O coração bateu-lhe mais forte. Parou à frente dele. E viu-se.

Um miúdo magrinho, joelhos esfolados, t-shirt larga, cabelo despenteado e olhos fundos a olhar o teto, como se o mundo estivesse lá em cima, pendurado entre as manchas de humidade. Estava a sonhar. Podia vê-lo — ou melhor, podia ver-se — com os olhos meio fechados, a murmurar letras inventadas enquanto a televisão falava sozinha.

Veigh aproximou-se devagar.

— Estás sozinho? — perguntou, como se não quisesse acordar o passado.

O miúdo nem se assustou. Como se já o estivesse à espera.

— Estou sempre. — respondeu. Depois olhou para ele. — És tu?

— Sou.

— Então vieste mesmo.

Veigh engoliu em seco. Nunca tinha pensado que o miúdo que foi ainda estivesse ali, preso naquele sofá, naquela sala, naquela esperança.

— Lembras-te de tudo?

— Lembro. E tu? Ainda te lembras do que prometeste?

Ele sentou-se devagar no canto do sofá, sentindo as molas cederem debaixo de si, como se o tempo tivesse parado para assistir ao reencontro. Ficaram em silêncio durante uns segundos.

— Lembro-me. De tudo. Da fome. Do som do rádio velho. Da minha mãe a sorrir mesmo quando estava cansada. De escrever letras à luz da vela. De sonhar contigo.

— E cumpriste?

Veigh sorriu, mas os olhos ficaram húmidos.

— Acho que sim. Não foi fácil. Mas conseguimos. Estamos aqui, não estamos?

O miúdo encolheu os ombros. Depois perguntou, como quem quer confirmar:

— A luz ainda vai abaixo?

Veigh hesitou.

— Não. Agora não. Agora temos luz. Temos palcos. Temos multidões a cantar connosco. A mãe tem um sofá branco enorme que brilha com a luz do sol. E tu... tu tens espaço para sonhar à vontade.

O miúdo sorriu. Pequeno. Silencioso. Mas cheio.

— Então ainda vale a pena?

— Vale. Cada noite. Cada dor. Cada verso. Valeu tudo.

E ali ficaram os dois, sentados no sofá cor de vinho, lado a lado — o que sonhou e o que realizou.

E embora o mundo lá fora gritasse, ali dentro havia silêncio. O bom. O que acalma. O que cura.

Eu venci o mundo, VeighStories to obsess over. Discover now