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Part I

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Querido diário,

Parece que foi ontem quando nossos olhares se cruzaram pela primeira vez. Eu estava em uma entrevista para trabalhar como recepcionista numa clínica odontológica. A coordenadora me recebeu bem, a conversa fluía, e tudo indicava que eu seria contratada.

No meio da entrevista, ela chamou o novo dentista para me conhecer. Segundo ela, ele teria contato direto comigo no dia a dia, já que parte da minha rotina seria organizar a agenda dele. Quando ele entrou, algo em mim congelou. Um homem de uns 22 anos, jaleco branco, aparência tranquila... Nossos olhos se encontraram, e meu coração acelerou. Nunca tinha visto alguém tão bonito.

Os olhos, pretos como jabuticaba. A pele, morena e bronzeada. Cabelos cacheados. Mas o que mais me chamou a atenção foi sua postura: firme, confiante. Braços fortes, cobertos por tatuagens que apareciam pelas mangas do jaleco. Com o tempo, percebi que ele era adepto da academia. O corpo não mentia. Nos dias casuais, usava uma camiseta polo mais justa e calça social escura com cinto de couro. Os olhares inevitavelmente se voltavam para ele. Inclusive os meus. Quem não sentiria desejo por um homem assim?

Sempre fui profissional. Tratava-o com respeito, chamando-o de "doutor", como manda o protocolo. Mas, às vezes, ele soltava uma provocação ou piadinha, e eu rebatia no mesmo tom. Como se fosse um jogo. E era. Os olhares das outras funcionárias e pacientes deixavam tudo muito claro. Eu não era a única. Mas ele namorava. E, para piorar, era próximo demais de duas colegas - amigas, mas... demais. Já vi os olhares. Já vi morderem os lábios. Nesse consultório, meu bem... tem muita coisa escondida por trás de um sorriso.

Com o tempo, fui conhecendo-o melhor. Era um colírio para os olhos, sim... mas sua personalidade? Um pouco decepcionante. Irônico. Competitivo. Profissional quando queria. Sério até demais. Mas parecia se divertir me provocando. Até apelido ele me deu. Um dia, enquanto tomava café com duas colegas, uma delas comentou:

- Você já reparou que o Dr. Léo não tira os olhos de você? Vive inventando piadinhas só pra chamar sua atenção.

Tenho 23 anos. Nunca me envolvi com homem nenhum. Nunca beijei. Nunca tive nenhuma experiência romântica. Sinto vontade, claro, mas algo me prende. Não sei explicar. Talvez medo. Talvez insegurança. Se fosse outra no meu lugar, já teria agido. Afinal... quem deixaria passar uma "Geladeira Electrolux"?

Quando ele saiu da clínica, o ambiente murchou. Ficou chato. Silencioso. Eu o procurava pelo canto do olho, mas ele não estava mais lá. Foi trabalhar em outra clínica. Recebeu uma proposta melhor. Apoiei, claro. Quem não apoiaria? Mas, no fundo, queria que ele ficasse. Só para continuar vendo-o de longe. Admirando. Como se isso fosse suficiente. Mas não era. O mundo dele não gira ao meu redor. E eu sei disso.

Antes de tudo, eu já procurava outro emprego. Pouco tempo depois que ele saiu, fui chamada por outra clínica. Fui contratada. Não me arrependi. O ambiente antigo estava me matando por dentro. Cobranças. Pressões. Fofocas. Era demais para minha cabeça.

E então, quase uma semana depois, recebo uma notificação. Era ele. Solicitação no Instagram. E uma mensagem. Fiquei sabendo que ele terminou o namoro. Conversamos um pouco. Ele começou com indiretas.

- Qual é o seu tipo de homem? - ele perguntou.

- Alto e forte - respondi.

- Então eu sou seu tipo?

Sorri, sem saber direito o que sentir. Logo depois, ele disse:

- Gosto de você. Você é fofa, pequena, tem uma carinha de brava...

Nunca achei que fosse bonita o suficiente para ser notada. Nunca alguém se aproximou para dizer que gostava de mim. Ele foi o primeiro. Mas... foi por mensagem. E foi superficial. Fiquei feliz. Mas também frustrada. Porque eu quero mais.

Quero um homem que diga isso olhando nos meus olhos. Quero verdade. Será que estou pedindo demais?

Respondi qualquer coisa. Nem sabia o que dizer. Mas, no fundo, esperei um convite para sair. Mesmo sem demonstrar com firmeza. Fiquei com medo de ser só uma brincadeira. Conheço histórias assim. Homens desafiados por amigos, mandando mensagens só por diversão. Não quero ser alvo disso.

Se nunca ninguém chegou até mim... por que ele chegaria? No trabalho, ele me olhava. Mas nunca foi direto. Até hoje... nenhuma mensagem. Nenhum convite.

Às vezes me pergunto se devia ter feito algo diferente. Mas, no fundo, sei: quem quer, demonstra. Quem gosta, age. Eu só queria um gesto real. Um convite. Mas ele nunca veio.

E agora, ele nunca vai saber que eu gosto dele também.

Confissão para um Amor Impossível Geschichten, die süchtig machen. Entdecke jetzt