Capítulo 1

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Luka

O sol ainda nem tinha acordado direito quando Luka já descia o beco apertado com o tênis sujo e o olhar atento.
A viela era sempre molhada, fedendo a mijo e esgoto, mas aquilo já fazia parte do cenário — do morro, da vida, dele mesmo.
Com os bolsos do short cheios de papelote e o coração batendo no ritmo do medo, ele dava bom dia pra dona Jurema que varria a frente da casa com um cigarro no canto da boca e pra criançada que corria com sandália arrebentada no pé.

Luka era vapor desde os 15. Agora, com 20, já sabia se virar no corre — onde esconder a mercadoria, como fugir da sirene, onde se esconder quando a polícia subia.
Mas o que ninguém via era o que ele escondia de verdade: o cansaço nos olhos, a vontade de sair dali, o amor pelo irmão pequeno e a saudade do pai, que nunca voltou do presídio.

— Mais um dia no inferno... mas fazer o quê? — pensava, enquanto chegava na laje onde passaria a manhã inteira vendendo pros viciados.

A mãe dele, dona Iraci , vendia quentinha na porta de casa pra completar a renda. Vivia doente, tossindo o dia todo.
O irmão Leozinho , só tinha 7 anos e tinha leucemia e vivia indo para o hospital fazer tratamento,boa parte do dinheiro que ele recebia ia pro tratamento do irmão.

Luka sonhava em dar um futuro diferente pra ele.
Mas pra isso, precisava fazer o que ninguém queria fazer:
Se arriscar no corre. Botar o corpo na linha de fogo. E vender o que mata, pra não morrer de fome.

Às vezes, ele se perguntava se ainda tinha alma.
— Será que Deus olha pra mim?
Mas logo espantava os pensamentos com uma tragada funda no cigarro.

No meio da manhã, enquanto empurrava os papelotes pra dentro de uma mochila rasgada, ouviu os meninos da boca comentando:

— "Hades passou ontem aqui perto... foi ver o movimento."
— "Sério? Ele nunca desce desse morro."
— "Pois é... diz que tá desconfiado de uns vapor novo."

Luka gelou. Sabia que o nome de Hades não era pra ser falado alto.

Ele era o dono do morro, o chefe, o homem que ninguém via direito, mas todo mundo sentia.
Diziam que ele mandava matar com um gesto de cabeça.
Que já tinha queimado traidor no alto da pedreira.
Que ninguém sabia de onde ele veio, mas ele veio pra dominar.

E por algum motivo estranho, Luka sentia o sangue acelerar só de ouvir aquele nome.

Hades

No topo do Alemão, onde o vento batia forte e os fios de luz se cruzavam como veias de concreto, Hades observava tudo em silêncio.
Sentado na varanda da sua casa — uma mansão improvisada entre barracos, com muro alto e câmera em cada canto — ele via o morro como quem observa um tabuleiro de guerra.

Hades tinha 30 anos, mas a alma parecia mais velha.
Os olhos escuros, fundos, pareciam carregar cada morte, cada decisão, cada noite mal dormida.
Ele era temido, respeitado, odiado por muitos. Mas acima de tudo, sozinho.

Desde pequeno, aprendeu que no morro sobrevive quem manda ou quem obedece.
E ele escolheu mandar.

Cresceu vendo a mãe sendo agredida, o irmão mais velho tombando no tráfico, o sangue lavando a rua onde brincava.
Aos 18, já era gerente da boca. Aos 25, virou o chefe.
Ninguém mais subia sem autorização dele.

Mas com o tempo, o poder foi virando peso.

Ele não confiava em ninguém. Nem em mulher, nem em soldado.
Todo mundo tinha preço. Todo mundo queria algo.

— "Amor é fraqueza", dizia pra si mesmo. "Quem ama, morre."

Mesmo assim, às vezes, na solidão da noite, quando o barulho dos tiros dava trégua e o baile calava, ele olhava o céu vermelho do morro e sentia um vazio estranho.
Como se faltasse algo que ele nunca teve.
Algo que nem dinheiro, nem respeito, nem poder preenchiam.

Naquela manhã, um dos seguranças avisou que a polícia tinha feito blitz na entrada.
Outro trouxe o relatório da venda do dia anterior.
Mas nada chamou tanto sua atenção quanto uma imagem na tela da câmera da laje:

Um garoto magro, com os olhos inquietos e a mochila caída no ombro.

Luka.

Ele ainda não sabia o nome.
Mas sabia reconhecer nos olhos dele o mesmo tipo de dor que carregava nos seus.

— Quem é você, moleque? — murmurou, sem desviar o olhar da tela.

Meu Dono Do MorroStories to obsess over. Discover now