CAPÍTULO ÚNICO

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Noah só queria devolver um livro.

É sério, ele repetia para si mesmo, enquanto se esgueirava pelo corredor lateral da igrejinha decorada com flores brancas, tentando não esbarrar em ninguém, nem chamar atenção. O que era difícil, considerando que ele estava suando feito um condenado, vestia uma camisa amassada e segurava um exemplar surrado de Rimbaud como quem carregava uma arma de crime passional.

O plano era simples: chegar cedo, deixar o livro com alguém da equipe, dar meia-volta e nunca mais pensar em Joshua. Mas é claro que o universo tinha outros planos. Noah perdeu o ônibus. Depois o Uber. Depois a dignidade, quando entrou correndo na igreja e deu de cara com o cortejo começando. Josh estava já no altar, tão bonito que parecia em slow motion, como se algum diretor cruel tivesse colocado efeito especial só pra torturá-lo.

— Você está pálido — sussurrou uma senhora ao seu lado. — Quer um leque?

— Só se ele puder me apagar da existência — respondeu Noah, sem pensar.

Agora, ali estava ele, meio escondido atrás de um arranjo de lírios, com o maldito livro ainda nas mãos. O exemplar, ironicamente intitulado Iluminações, parecia pesar uma tonelada. Joshua tinha emprestado quando ainda namoravam, dizendo "essa poesia é difícil, mas bonita. Tipo a gente." Noah nunca teve coragem de devolver. Até hoje.

O padre pigarreou e disse:

— Estamos reunidos aqui para celebrar...

Noah prendeu a respiração. Joshua não olhava na direção dele, claro. Estava com os olhos fixos na noiva, uma mulher alta, loira, usando um longo vestido branco, bronzeada, com cara de quem faz yoga no nascer do sol e nunca teve crise de ansiedade na vida. Ela até sorria com os olhos. Ninguém que sorri com os olhos pode ser confiável.

Noah se mexeu, nervoso. Uma pétala caiu no seu cabelo. Uma criança o apontou e cochichou para a mãe. Tudo estava desmoronando discretamente.

O padre continuava:

— Se alguém tiver algo contra esta união...

Ai, não.

— ...fale agora ou cale-se para sempre.

AI, NÃO.

O livro pesava nas mãos como uma escolha. Noah olhou para Joshua. Para a noiva perfeita. Para seu maldito vestido branco. Para os convidados. Para a saída.

E então, como quem tropeça em uma decisão (e também em um banquinho de madeira), Noah se levantou de repente.

— Desculpa. Eu- — Ele engasgou. Todos os olhares viraram pra ele. Joshua inclusive.

Noah ergueu o livro, desajeitado, como um troféu trágico.

— É que... esse livro é seu.

Silêncio. Um pássaro piou lá fora. Alguém tossiu. E Joshua sorriu. Aquele sorriso. Aquele maldito, terrível, destruidor de vidas, sorriso.

Noah soube, naquele instante, que estava perdido. De novo.

Foi isso que saiu. De todas as coisas que Noah poderia ter dito. De todas as frases que ensaiou na cabeça durante o trajeto: "você merece alguém que saiba amar do jeito certo, eu ainda sei seu cheiro quando chove, lembra quando a gente achava que Paris era logo depois de São Paulo?". Ele escolheu essa. Um livro. Um maldito livro.

Joshua não disse nada. Mas aquele sorriso ainda estava ali, meio de lado, torto, quase zombeteiro. Como se dissesse claro que você faria isso. Claro que seria você.

A moiva-perfeita, que provavelmente tinha um nome que não revelava sua ascendência, olhou para Joshua, depois para Noah, depois para Joshua de novo.

— Você conhece ele? —  perguntou, voz calma de quem faz meditação guiada às seis da manhã.

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