A cidade parecia ter sido cuspida por uma nuvem. As ruas estavam cobertas por uma camada de lama fina, misturada à água da chuva que não cessava desde a madrugada. Goteiras nas marquises, buracos invisíveis nas calçadas, guarda-chuvas quebrados no meio-fio. Cinza. Tudo cinza. E úmido.
Marcos encostou a testa na janela do táxi e deixou o vidro embaçar com o próprio hálito. Tinha uma mala no porta-malas, duas sacolas de mercado no colo e uma planta torta entre os pés. A planta havia quebrado um galho no caminho, e o cheiro de terra molhada o incomodava mais do que devia.
— Prédio branco com grades pretas, é isso? — perguntou o taxista, num sotaque que ele ainda não conseguia identificar.
— É, esse mesmo. Número 362.
O carro encostou. Marcos desceu rápido, puxando a mala pela alça torta, sentindo a água gelada atravessar o tecido do tênis assim que pisou na calçada. O prédio era mais velho do que parecia nas fotos. O portão era automático, mas rangia como se abrisse por esforço próprio. Um letreiro apagado em cima da entrada dizia “Ed. Áurea”.
No saguão, uma senhora sentada num banco de madeira olhou para ele sem sorrir. Usava um casaco lilás com botões dourados, mãos cruzadas sobre uma bolsa de crochê. Marcos tentou retribuir o olhar com um aceno leve, mas ela desviou os olhos. A sensação era de estar invadindo um mundo onde ninguém tinha pedido sua presença.
O elevador era pequeno, antigo. Subia rangendo, sacolejando nas paradas. Apartamento 602. Segundo andar, à esquerda. Ele colocou a chave na fechadura e girou com um estalo seco. A porta abriu com dificuldade, como se ainda não quisesse ser usada.
O apartamento estava frio. Não um frio de temperatura — mas de ausência. Ausência de vozes, de objetos pessoais, de cheiros familiares. Era um espaço vazio, com paredes descascando nas bordas, piso de taco amarelado e um leve cheiro de mofo que se agarrava às narinas.
Ele largou as sacolas na cozinha e a mala no corredor. Sentou no chão da sala e olhou para a janela. A chuva continuava, como se o tempo aqui fosse preso num ciclo interminável. Puxou o celular e tentou ligar uma playlist, mas a música pareceu deslocada, intrusiva. Desligou. O silêncio era mais coerente.
Por volta das quatro da tarde, desceu para comprar alguma coisa. Na rua, as poças formavam espelhos sujos, distorcendo os faróis dos carros. Encontrou uma padaria de esquina — vitrine embaçada, letreiro com duas letras apagadas. Lá dentro, um rádio chiava alguma notícia velha, e o dono o cumprimentou com um aceno mudo.
Marcos comprou pão, fósforos, uma lata de feijão, e por impulso, um sabonete de lavanda que cheirava como o guarda-roupa da avó. No caminho de volta, um cachorro atravessou a rua e quase foi atropelado. Ele pensou em correr, mas não correu. Só observou. O animal sumiu por uma viela.
Quando entrou novamente no prédio, alguém subia as escadas. Passos lentos, arrastados. Ele olhou para cima e só viu a sombra de um par de pernas virando o próximo lance. Não chamou. Nem tentou adivinhar quem era.
À noite, montou uma estante. Depois outra. Depois se irritou e empurrou as peças contra a parede. O prédio fazia barulhos estranhos — estalos, rangidos, sons indecifráveis que vinham das paredes, do encanamento, ou de lugares que ele não queria imaginar. Às vezes, escutava passos no corredor. Mas ninguém batia. Ninguém se apresentava.
Era quase meia-noite quando ele sentou na sala, agora com um colchão estendido no chão. A chuva seguia batendo no vidro, insistente, hipnótica. Pegou a caneca com chá morno e encostou as costas na parede. Estava cansado, mas não queria dormir. Sentia que, se fechasse os olhos agora, acordaria num lugar ainda mais estranho.
Então, num intervalo de silêncio mais espesso, ele ouviu. Muito baixo. Grave. Um som vindo da parede à esquerda. Não era voz. Não era passo. Era música. Um instrumental lento, talvez um violoncelo, talvez contrabaixo — difícil saber. Durou alguns segundos. Depois cessou.
Marcos não se moveu. Apenas escutou.
E por um instante — breve, quase imperceptível — teve a sensação de que não estava completamente sozinho.
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🤗🤗🤗
Começarei de novo! Agora é realmente minha primeira história.
Espero que leiam e gostem!! Votem!
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Entre paredes e olhares
Romanceum militar e um cozinheiro. Dois corpos diferentes. Uma arrogância de anos quebrada. Uma insegurança vencida pelo amor.
