sinopse

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Naquela noite, a lua se escondeu. E Zariya perdeu seu rei.

Não houve presságios. Nenhuma estrela caiu. Nenhuma folha sussurrou o aviso. A morte chegou como um ladrão silencioso e levou Lyael sem dar tempo para um último adeus.

O castelo parecia mergulhado num sono pesado, como se a própria pedra tivesse esquecido de respirar. Mas eu não dormia. Há días o sono me escapava, fugindo como um corvo que pressente a tempestade. Talvez meu sangue soubesse antes que minha mente.

Quando empurrei a porta dos aposentos de Lyael, o tempo parou. Havia algo errado no ar. Algo podre. Algo ausente. A primeira coisa que vi foi o lençol branco, empapado em sangue escuro. A segunda foram seus olhos, azuis como o gelo de Veylor, agora vázios, abertos, encarando o teto com uma ausência cruel.

Meu irmão.

Os cortes em seu corpo pareciam ter sido feitos com raiva, não apenas com intenção. Sua garganta fora aberta como uma flor invertida. Uma rosa despetalada pela violência. O sangue escorrera pelas bordas da cama, tingindo o tapete, marcando o chão com uma promessa que ainda não existia.

Ajoelhei ao seu lado. Não chorei de imediato. Primeiro veio o vazio. Depois o som abafado do meu próprio coração batendo alto demais. Então, finalmente, as palavras saíram, cruas, cuspidas como fogo:

- Eu vou vingar você, Lyael. Eu juro pelos deuses e pelo sangue que ainda pulsa em mim. Não importa quanto tempo leve, quantos precisem morrer. Eu os farei pagar.

Aquela promessa virou ferro. Se cravou em meu peito. Nunca mais me abandonaria.

Foram dois dias de silêncio e luto contido. Os nobres murmuravam em corredores escuros, os criados andavam como fantasmas. Dantas, meu conselheiro mais antigo, tentou convencer-me a esperar, a deixar que o conselho deliberasse.

Mas eu sabia o que estavam tramando. Sabia o que o Barão Varçani planejava, o que os covardes escondidos sob ouro e títulos esperavam: que eu ficasse de luto, calada, fraca.

Eles não contavam com a fúria.

Na manhã do segundo dia, vesti preto. Um vestido simples, sem bordados, sem joias. Deixei que vissem minha dor nua. Sem enfeites. E então, empurrei as portas da sala do conselho com ambas as mãos, fazendo com que se abrissem com um estalo firme.

Todos pararam. A conversa cessou. Olhares se voltaram para mim como lanças.

Caminhei até a cabeceira da mesa, onde antes Lyael costumava sentar-se. Sentei sem pedir permissão. Nenhuma palavra foi dita por alguns segundos. O silêncio era denso como neblina.

- O que estão discutindo? - perguntei, minha voz afiada como uma lâmina.

Asael Thebet, o duque de Lytian, foi o primeiro a responder:

- Alteza... falávamos sobre a sucessão. Sobre quem deveria assumir o trono.

Ah, claro. Sempre tão rápidos para esquecerem quem tem o sangue.

- E por que isso seria assunto de debate? - meus olhos, porém, estavam cravados no Barão Vincent Varçani.

Ele sustentou meu olhar por um segundo longo demais.

- Vossa alteza é uma mulher - disse, como se fosse um fato trágico. - Não tem marido. Não tem filhos. As tradições...

- As tradições morreram junto com meu irmão. - Minha voz cortou a mesa ao meio. - Vocês esquecem quem eu sou.

Levantei-me. Minha sombra alongou-se sobre a mesa.

- Morana Velour Zathary. É esse o nome que esqueceram? A linhagem da qual derivam seus títulos? A família que lhes deu as terras que pisam?

Vincent apertou os punhos. Uma gota de suor escorreu por sua tênue coragem.

- Há uma hierarquia, alteza...

- Então diga. - Me aproximei dele como fera. - Recite-a.

- Rei, príncipe, duque, marquês, conde, visconde, barão.

- E você está onde nessa cadeia?

- Sou o barão.

- Não mais. Saia.

Ele se ergueu, indignado, a voz vacilando de raiva:

- Você não pode...!

Deixei meu poder fluir. Não todo. Apenas o suficiente para fazer seu nariz sangrar. O sangue escorreu. Moldei-o no ar em forma de lâmina. Apontei para seu pescoço.

- Peça perdão. - Minha voz não era minha. Era de todas as rainhas antes de mim.

Ele não pediu.

Cortei.

O silêncio seguinte foi mais forte que qualquer grito. Ninguém se mexeu. Ninguém respirou.

- A coroação será em cinco dias.

E virei as costas, deixando o sangue para trás. Mas levando comigo o peso do que estava por vir.

Naquela noite, a lua continuava escondida.

E eu, pela primeira vez, soube que estava sozinha no mundo.

Cinco dias depois, o céu estava límpido como cristal negro. Nenhuma nuvem ousava cobrir a lua. Ela voltara - cheia, branca, observadora. Quase parecia pedir desculpas por ter desaparecido.

O som dos sinos preencheu os corredores de pedra e ecoou por todo o castelo. Os nobres se reuniram na sala do trono. Colunas enfeitadas com heras prateadas e tapeçarias ancestrais tremulavam com o vento que entrava pelas janelas abertas. Eu os vi chegando um a um: rostos falsamente solenes, sorrisos forçados, olhares famintos de poder. Alguns me odiavam. Outros me temiam. Quase todos queriam que eu fracassasse.

Mas ali estavam. E eu também. De pé diante das portas fechadas, vigiada pelo reflexo do meu próprio destino.

O vestido que usei não foi escolha ao acaso. Preto como a noite em que Lyael morreu, bordado com fios de prata e pequenas pedras de obsidiana, representando cada perda, cada ferida aberta desde então. Era uma réplica do que minha mãe usara em sua coroação. E era perfeito.

Quando as portas da sala do trono se abriram, caminhei. Cada passo meu ecoava como uma declaração. O piso de mármore frio não conseguia roubar o calor da minha raiva. Os olhares me seguiam como dardos. E eu me mantinha ereta, firme, carregando o peso invisível da coroa que ainda não tocava minha cabeça.

No topo das escadas, o Ancião da Coroa me aguardava. Seu semblante era solene, e ao lado dele, um jovem pajem segurava a coroa ancestral sobre uma almofada púrpura. Ao lado, o cetro dourado.

Ajoelhei-me diante dele, sem tremor, sem hesitação.

- Pelo poder que me foi dado pelos deuses e pela tradição da Casa Zathary, eu te coroo, Morana Velour Zathary, Rainha Soberana de Zariya.

A coroa foi pousada sobre minha cabeça com o peso de todas as rainhas que me antecederam. E, quando me levantei, peguei o cetro e me voltei para o salão.

- Muitos de vocês duvidam de mim. Muitos de vocês me subestimaram. - Minha voz preencheu o espaço. - Mas enquanto meu sangue for Zathary, eu defenderei este trono com tudo que sou. Dos inimigos de fora... e dos ratos que rastejam por dentro.

Um trovão ribombou nos céus assim que minhas palavras cessaram. Os nobres se entreolharam, inquietos. Alguns se benzeram. Outros empalideceram.

E eu sorri.

Sentei-me no trono que era meu por direito, sentindo pela primeira vez o verdadeiro peso do poder.

Que rezassem aos deuses por misericórdia. Porque de mim, não teriam nenhuma.

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⏰ Last updated: Aug 24, 2025 ⏰

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Sangue, Trono E Desejo. Stories to obsess over. Discover now