"Já volto"

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Eles se conheceram por acaso, entre notificações e algoritmos. Uma chamada de voz tímida no começo, rostos revelados depois. Nada além disso. Nunca trocaram nomes completos, nem falaram das famílias, nem dividiram o cotidiano para além do que decidiam contar. E ainda assim, havia algo de íntimo naquela amizade. Uma presença constante. Uma companhia gentil nas horas silenciosas do dia.

Ela ria com facilidade. Ele escutava com atenção. Havia dias em que se falavam por horas, outros em que apenas uma mensagem bastava: "Como você está hoje?", "Sonhei com coisas bobas", "Ouvi uma música e pensei em você."
Mesmo sem saber detalhes da vida um do outro, pareciam se entender.

Então, uma noite qualquer, ela disse algo como "vou ali rapidinho", ou talvez "até amanhã". Ele não lembrava ao certo. A conversa não teve fim, apenas cessou. Como quem fecha a janela para voltar em breve.

Mas ela nunca voltou.

No começo, ele mandou mensagens. Uma por dia. Depois, uma por semana. Aos poucos, apenas lia a conversa em silêncio. O "visto por último" o encarava toda vez: terça-feira, 21:46. Um horário que se tornou sagrado, intocável. Nunca soube o que houve. Um acidente? Uma decisão? Um silêncio escolhido ou imposto pela vida? As possibilidades pesavam mais do que qualquer resposta.

O "visto por último" dela ficou ali.
Como um epitáfio digital.
Uma data.
Um horário.
Um silêncio que congelou no tempo.

O tempo passou. Os dias viraram meses, e os meses, anos. Ele seguiu com a vida, como todos fazem. Mas de vez em quando, à noite, pensava nela. No som da risada que vinha com eco pela ligação. Na forma como ela dizia "você me entende, né?" sem esperar resposta.

Três anos depois, numa noite em que o coração pesava mais que o sono, ele decidiu abrir de novo aquela rede social esquecida. Quase não lembrava a senha. Errou algumas vezes. Conseguiu. Entrou devagar, sem saber o que procurava.

E lá estava.

A conversa. Intacta.
O último "kkk" bobo.
O emoji torto que ela sempre usava.
Aquele “já volto”.

E o maldito "visto por último há 3 anos. 21h46 — 14 de maio de 20XX."

A mesma hora.
O mesmo minuto.
Nunca mudou.
Como se o tempo tivesse parado. Como se ela ainda estivesse ali, do outro lado da tela, prestes a dizer "voltei".

Mas ela nunca disse.

Ele encarou a tela por longos minutos.
Sentiu um aperto que não sabia nomear.
Uma ausência que ainda fazia barulho, mesmo depois de tanto tempo.

Não tinha como perguntar a ninguém.
Não sabia o nome completo dela, nem o sobrenome.
Nunca soube o suficiente.

Mas soube tudo o que importava.

E naquele instante, com os olhos marejando sem razão aparente, ele digitou uma última mensagem.

“Oi... ainda estou aqui.”

Não esperava resposta.

Mas também não precisava.

Ela, de algum jeito, continuava ali.

Na lembrança.
No “visto por último”.
Naquela amizade que viveu no espaço entre um “oi” e um “até amanhã” que nunca veio.

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⏰ Last updated: Jun 22, 2025 ⏰

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