Capítulo I- Antes da Luz

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Capítulo Um: Antes da Luz

O vazio... é onde tudo começa.

Não o vazio comum, mas o anterior a qualquer conceito de tempo, forma ou som. Um espaço onde nem mesmo o silêncio existia, pois até o silêncio exige algo para existir contra. Foi nesse estado absoluto de ausência que ela se manifestou - não como uma explosão, nem como um início abrupto, mas como um sussurro eterno que sempre esteve ali, esperando ser escutado.

Ninguém sabe ao certo quando isso aconteceu. Tampouco de onde ela veio. Talvez ela não tenha vindo de lugar algum - talvez ela seja o próprio princípio, a primeira vontade, o pensamento anterior à realidade. O que se sabe, ainda que por fragmentos dispersos no tempo, é que foi ela quem moldou os primeiros seres com as mãos do infinito. Não como um artesão, mas como uma mãe. Não de forma, mas de essência.

Dizem que os corpos dos primeiros foram feitos do barro das estrelas apagadas, e que ela os aqueceu com o calor do seu próprio ser. Que sua pele escura como o cosmos abrigava os segredos da vida, e de seus cabelos longos como o tempo escorriam os fios de energia que dariam origem ao movimento, à luz, ao som. É por isso que, em alguns cantos do mundo, ela é lembrada por nomes sussurrados com reverência: Aquela Que Vem Antes, A Mãe das Estrelas, A Noite Que Gera o Dia.

Vê-la... é uma honra pertencente a tempos antigos, aos dias em que os primeiros caminhavam sob um céu recém-desperto. Os relatos são poucos. Fragmentados. Quase apagados. Mas entre os mais antigos vestígios de nossa origem, uma única carta permaneceu intacta - preservada em pedra, em sombra, em fé.

Ela foi escrita por aqueles que a viram. Os Primeiros. Os filhos formados por sua vontade, que viveram sob seus olhos antes de o mundo se dividir em eras. Eles deixaram esse testemunho para os que viriam depois, para que soubéssemos que não fomos criados por acaso. Para que não esquecêssemos quem foi a primeira a nos amar.

Eis o que escreveram:
Carta dos Primeiros Filhos da Terra

Àqueles que virão após nós,
que ainda não viram o rosto da origem,
deixamos estas palavras -
testemunho e reverência.

Hoje, vimos a Deusa.

Ela não surgiu como trovão, nem como relâmpago. Sua chegada foi como o respirar do mundo quando tudo se cala. Sua presença não precisa falar, pois o silêncio em torno dela se curva e canta. Sentimos, em nossos ossos antigos, uma calma que não sabíamos caber no corpo. Até os ventos, que antes gritavam, sussurraram. Os animais silenciaram. Os bravos deixaram cair as armas de caça. Não por temor, mas por reconhecimento. Como filhos que finalmente reencontram o ventre de onde vieram.

Sua pele... não há nome que a defina. É da cor do céu antes da primeira estrela, mais escura que a noite e, ao mesmo tempo, feita de sua essência mais pura. Cada curva sua carrega o peso e a beleza de todas as histórias ainda não contadas. É a matéria do universo quando ele ainda sonhava em ser. Tocá-la seria profanar o sagrado - e ainda assim, sentimos que ela nos toca, mesmo sem mover um dedo.

De sua cabeça nascem cachos de fogo gentil, longos como o tempo. São rios de cobre e brasa que tocam a terra, como se buscassem nela lembranças esquecidas. Cada cacho parece dançar com o mundo, como se cantasse junto ao vento, contando histórias de antes da memória. Quando ela caminha, seus cabelos acompanham como uma aurora que decidiu permanecer.

Mas a Deusa não pode ser contida em palavras. Ela é mais do que beleza. Mais do que poder. Ela é complexa como o primeiro sopro da criação, e tão vasta quanto aquilo que não pode ser nomeado. Tentamos descrevê-la, mas falhamos. Porque ela não é para ser explicada - é para ser sentida, reverenciada, lembrada em silêncio e em fogo.

Que esta carta chegue aos tempos distantes. Que vocês saibam:
ela nos criou.
Ela nos viu.
E por um instante, vimos o coração do mundo.

- Os Primeiros
Na aurora do primeiro dia.

E assim, começa esta história.
Não com certezas, mas com memórias celestes -
e o eco de uma presença que jamais deixou de nos ver.

Shinkai no HahaCerita yang bikin terobses. Temukan sekarang