a casa das sombras.

3 0 0
                                        

Capítulo 1 — A Casa das Sombras

A floresta parecia respirar.

Não com o som do vento, mas com um murmúrio baixo e constante, como se a própria terra guardasse segredos que preferiam nunca ser revelados. O carro preto, sujo de poeira e folhas, serpenteava pela estrada estreita em meio à escuridão das árvores, carregando seis almas em direção a um destino que nenhum deles compreendia completamente.

Helena estava ao volante, os olhos fixos na estrada como se fugir do que havia deixado para trás dependesse disso. Seus dedos finos apertavam o volante com força suficiente para embranquecer os nós. No banco do passageiro, Jonas rolava um cigarro entre os dedos, o olhar distante preso na neblina que começava a subir do asfalto frio.

— Faltam só quinze minutos, — disse Letícia, no banco de trás, quebrando o silêncio com sua voz baixa. — Já vi no GPS.

Matheus, ao lado dela, bufou.

— Espero que esse lugar valha a pena. Dirigir horas pra chegar numa casa velha no meio do nada... que ideia genial, Helena.

Helena não respondeu. Ela não precisava. Aquela era sua casa — ou, pelo menos, o que restava dela. Herdada de uma tia que todos diziam ser louca, a Mansão Kellenhart havia ficado fechada por mais de vinte anos. Diziam que era amaldiçoada. Diziam que era assombrada. Diziam muitas coisas — e Helena estava cansada de fugir de tudo.

— Eu tô animada, — disse Rafaela, forçando um sorriso. — Um lugar antigo, com história, com energia... é tudo o que preciso pra minha nova série de fotos.

— Desde que a casa não tente te engolir, né? — Mylena zombou, olhando pela janela, os olhos atentos às sombras que se alongavam entre as árvores. — Parece saída de um filme de terror. Só falta a placa: “Você não vai sair daqui vivo”.

Todos riram, menos Helena e Jonas.

Jonas sabia. Ele sempre soube que havia algo errado naquela casa. E, por mais que não dissesse em voz alta, a ideia de passar a noite ali o fazia sentir como se tivesse uma corda apertada ao redor do pescoço.

A mansão surgiu como um cadáver entre as árvores. Alta, imponente, com torres de pedra cobertas de hera e janelas que mais pareciam olhos negros espiando o mundo. O portão de ferro rangeu como um animal ferido quando Helena o empurrou. O grupo entrou, cada um carregando mochilas e lanternas, os passos ecoando nas tábuas secas da entrada.

A sala principal era gigantesca. Um candelabro pendia do teto, sujo de poeira e teias. Havia um piano de cauda ao fundo, coberto por um lençol que se movia suavemente com a brisa. As paredes eram cobertas por retratos antigos — rostos desconhecidos que pareciam seguir os visitantes com os olhos.

— Isso aqui é incrível, — Rafaela sussurrou, tirando o celular para tirar fotos. — Macabro, mas incrível.

Letícia, sempre sensível ao ambiente, estremeceu.

— Tem algo... estranho aqui. Como se estivéssemos sendo observados.

— Estamos. — Jonas murmurou. — A casa tá viva.

— Cala a boca, Jonas. — Matheus riu, tentando esconder o próprio nervosismo. — Você assiste terror demais.

Mas Helena não ria.

— Vamos deixar nossas coisas nos quartos. Depois podemos explorar, — disse, subindo as escadas com passos decididos, como se quisesse mostrar à própria casa que não tinha medo.

No quarto principal, Helena passou a mão sobre o espelho antigo. Poeira e manchas cobriam o vidro, mas algo mais estava ali: uma mancha vermelha, seca, no canto do móvel.

Sangue.

Ela não queria acreditar. Mas quando tocou, o frio da lembrança a atingiu como um raio. Fragmentos de memória — uma mulher gritando, um quarto trancado, uma figura de olhos vazios arrastando-se pelo corredor.

“Volta pra mim...”

A voz surgiu em sua mente como um sussurro molhado. Ela se virou bruscamente, mas estava sozinha.

Lá embaixo, o grupo se dividia. Mylena e Letícia estavam na biblioteca, vasculhando livros mofados. Matheus explorava a cozinha em busca de cervejas ou qualquer coisa que disfarçasse a tensão crescente.

Jonas, por outro lado, sentia-se puxado por algo. Um instinto. Uma memória esquecida.

Ele desceu até o porão.

A porta estava entreaberta, e o cheiro de mofo e terra úmida era forte. Degraus de madeira rangiam sob seus pés. E então ele viu: uma cadeira de ferro no centro da sala, correntes penduradas, e símbolos riscados no chão. Um altar. Um santuário doentio.

— O que diabos...?

— Você sentiu também, não sentiu?

Helena estava atrás dele. Pálida, ofegante. Os olhos dela pareciam mais escuros do que antes.

— Isso era da minha tia. Ela... ela fazia rituais. Dizia que precisava manter “ele” preso aqui.

— Ele?

— O homem de olhos vazios.

O silêncio caiu como uma pedra.

À noite, todos se reuniram na sala. Havia uma lareira — milagrosamente funcional — e vinho barato que Matheus encontrara em um armário trancado. As tensões afrouxaram. Risos surgiram. Músicas antigas tocaram em uma caixa de som pequena. Por um momento, pareceram apenas amigos tentando escapar do mundo.

Mas ele estava ali.

Na sombra atrás da lareira, nos reflexos escuros dos espelhos, nos pesadelos de Letícia, que viu a si mesma afogada em sangue. Na insônia de Mylena, que jurou ouvir alguém chamando por seu nome em voz doce e malévola.

E na escuridão dentro de Jonas, que sentia o passado despertar.

Porque naquela casa, o amor era uma arma. E o que estava por vir não era um jogo de sedução — era possessão, entrega e destruição.

A casa os queria. Mas não todos.

A casa escolhia.

E ela já havia escolhido quem amar… até a morte.




Capítulo 2 em breve

a última dose.Stories to obsess over. Discover now