Carência em Horário Comercial

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O relógio marcava onze e quarenta da manhã quando Eva bateu a porta do quarto com força desnecessária, só pra ver se Vitória reagia. Nada. A atriz estava sentada no sofá da sala, de moletom cinza, cabelo preso de qualquer jeito e um notebook apoiado nas pernas. Os olhos varriam a tela com concentração cirúrgica, como se nada no mundo importasse além daquele bendito roteiro que ela precisava entregar até o fim do dia.

Eva, de moletom azul claro e meias com estampa de ovelhinhas, arrastou os pés até a cozinha. Bateu as gavetas com mais barulho do que precisava, abriu a geladeira como quem buscava um sentido existencial entre potes de salada e iogurte vencido. Pegou uma uva. Comeu de cara feia. E voltou pra sala, onde Vitória ainda estava com a mesma expressão séria.

— Amor... — Eva começou, encostando-se no batente da porta como quem não tem nada pra fazer, mas quer que alguém repare nela. — Tô entediada.

— Uhum — murmurou Vitória, sem desviar os olhos da tela.

Eva cruzou os braços, deu dois passinhos lentos até o sofá e largou o corpo ali, bem ao lado da namorada. Encostou a cabeça no ombro dela, suspirando alto. Mais alto do que o normal.

— Vitóriaaaa...

— Fala, meu bem — respondeu a atriz, com um meio sorriso automático, ainda digitando.

— Tô carente.

— Eu percebi.

Silêncio.

Eva esperou. Esperou mais um pouco. Quando viu que Vitória não ia largar o notebook, começou a escorregar o corpo devagar, até deitar a cabeça no colo dela. Esticou as pernas pelo sofá, enfiou os pés por debaixo da coxa da namorada e agarrou a barra do moletom dela como um cobertor.

— Eu podia estar fazendo tanta coisa agora... tipo... beijando você.

Vitória bufou uma risada contida e finalmente olhou pra ela.

— Eva...

— Que foi?

— Eu tenho que entregar esse roteiro até às cinco. A gente combinou, lembra? Eu te avisei ontem. Três vezes.

— Mas eu não pensei que hoje eu fosse acordar com vontade de dormir no teu colo o dia inteiro — murmurou Eva, fazendo biquinho.

Vitória apertou de leve o braço dela e sorriu, tentando não se render.

— Você é muito manhosa.

— E você é muito fria quando quer — rebateu Eva, se ajeitando de um jeito que a cabeça ficou ainda mais perto do quadril dela. — Será que você não pode só... parar dez minutinhos? Me dar colo, cafuné, beijo, atenção, carinho, cafuné de novo?

— Isso são cinco coisas, não dez minutos.

— Você não me ama mais — dramatizou, virando o rosto e fingindo chorar.

Vitória riu. Dessa vez, riu de verdade, inclinando o rosto pra frente e largando o notebook sobre a mesinha de centro. Em seguida, passou a mão nos cabelos de Eva, devagar, acariciando o couro cabeludo com carinho.

— Se eu te der cinco minutos de cafuné, você promete me deixar trabalhar depois?

Eva fechou os olhos, satisfeita, e murmurou:

— Prometo tentar.

Vitória riu outra vez e se inclinou para beijar a testa da namorada.

— Você é o meu desastre mais gostoso.

Eva sorriu sem abrir os olhos, sentindo o cafuné leve, preguiçoso, vindo da ponta dos dedos de Vitória. E por alguns minutos, o mundo inteiro se resumiu àquele sofá, àquele silêncio confortável e à carência doce que, no fundo, Vitória adorava alimentar — mesmo quando dizia que não tinha tempo.

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oii pessoal, a continuação final está no próximo capítulo 💕

vieva (one shots)Onde histórias criam vida. Descubra agora