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Paredes Velhas

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       É quase impossível se esquecer de um detalhe na sua infância, que fez com que te marcasse para sempre. Seja o cheiro do café pela manhã, os corredores carregados de desenhos infantis nas paredes com nomes e bonecos que contam histórias, que no fundo, ninguém reparou bem o que elas contavam. É impossível esquecer a hora do almoço que era sempre servido com um delicioso copo de suco, e um suculento prato feito por mamãe, enquanto se posiciona na mesa em um canto da sala. Não havia sala de jantar. Havia apenas uma sala. E aquelas paredes velhas.

Melissa Scott sempre se perguntava se em algum momento, aquelas memórias deixariam de existir em sua mente. Se em um dia qualquer, ela acordaria e se esqueceria dos eventos que marcaram não sua pele, mas sua alma. Tão profundamente, que aos 23 anos e desempregada, ela ainda se lembrava perfeitamente dos detalhes, até os mais pequenos e esquecíveis.

Aquela maldita casa... não esperava se encontrar parada em frente às velhas paredes que um dia carregara não apenas sua história, mas a história de sua família e pessoas especiais (outras, nem tanto.) se perguntava se realmente valeria a pena retomar o passado que um dia escolheu não fazer mais parte, a final, ainda carregava as cicatrizes daqueles dias.

-Não posso fazer isso comigo mesma, se eu entrar nessa casa, muito provavelmente sairei a caminho da minha psicóloga. A propósito, já ligue avisando que precisarei de uma sessão. -disse Melissa, enquanto sentia suas mãos suarem frias a cada passa que dava. Olhava em volta, e tentava se recordar de mais detalhes, aqueles que a lembrariam do motivo de sua família ter escolhido justo uma casa no cume de uma montanha.

-Que isso, não é para tanto. Olha, não sei exatamente pelo que você passou e porque não gostar de ao menos tocar no assunto em relação a essa casa, mas eu estarei aqui. Ok? Nós passaremos por isso juntos, e ao menor sinal de algum sintoma ruim, vamos embora no mesmo instante. Tudo bem? Olha só, é apenas uma casa com paredes velhas e... bom, medonha. - Patrick apertava minha mão com a tentativa de me acalmar, mas sentia que a cada olhada que o mesmo dava ao redor do ambiente, o medo tentava pregar-lhe peças.

Ora, não seremos injustos. Imagine uma casa com paredes desgastadas e uma porta de madeira velha, as janelas fechadas e quebradas, como sinal de algum vandalismo, e o ambiente melancólico, como se a qualquer momento fosse cair uma tempestade.

Melissa deu três toques na porta, mesmo sabendo que ninguém a responderia... nunca mais. 

Respirou fundo, e abriu a porta. O cheiro de mofo e algo podre tomou conta do lugar, fazendo com que tanto Melissa quanto Patrick olhassem um para o outro com uma  careta daquelas que dizem "o que raios estamos fazendo aqui?".  Olharam para o canto esquerdo da casa, aonde um dia continha uma mesa com quatro cadeiras de madeira, e logo viram um pássaro morto, provavelmente o jantar de algum bicho que visitara o lugar mais cedo.

-Tome cuidado por onde pisa, Melissa. Esse cheiro de mofo, não sei, essas madeiras podem estar podres, prestes a se romperem. - Patrick toma a frente, tampando o nariz e ligando a lanterna de seu celular, a sua maior preocupação era de fato dar de cara com algum vândalo ou pessoas perigosas com más intenções.

Melissa parou, no meio do que um dia tinha sido uma sala e olhou ao redor. Não era possível ver tudo com clareza, mas ela conseguia sentir o lugar, as lembranças indo e vindo como vendaval em longos dias de chuva... e então uma lágrima discreta caiu sobre seu rosto.

-Costumava brincar aqui. Bom, não exatamente aqui, sempre gostei mais de brincar lá fora, na área, com meus primos quando vinham nos visitar. Mas aqui, nesta sala, me lembro de brincar em dias como hoje, em que é melhor estar dentro de casa, e não fora.

-Eu também me lembro de algumas brincadeiras com meus primos quando pequeno, ainda moramos na casa que passei minha infância, então não consigo imaginar como seja para você. Quer me contar? - Patrick sabia que aquele terreno era perigoso, já tentara uma vez, e a resposta foi um curto e seco "não".

-Quem sabe um dia, mas olhando para essas paredes, esse lugar pequeno e vazio, é difícil sabe? não sei explicar a sensação de familiaridade e estranheza na mesma intensidade. Mas, prometo que falaremos sobre isso. Agora não, mas falaremos - Melissa sabia que se tocasse no assunto daquela casa, as lembranças boas viriam, mas com elas, as ruins também, e estar ali, aonde tudo aconteceu, talvez não seja o ideal.

Ambos começaram a caminhar lentamente sobre a casa, olhando atentamente para todos os lados, como se de repente, algo ou alguém surgisse no meio daquelas coisas velhas e quebras. Puderam ver algumas madeiras quebradas do que um dia foi uma cama, jogadas em um canto perto da parede de um quarto à esquerda da casa, e no quarto dos fundos, um bem pequeno, daqueles que para caber duas pessoas, uma deveriam sair, Melissa olhou de longe e sorriu.

Um sorriso não tão feliz, mas também não tão triste assim, apenas um sorriso de recordação. Aquele fora seu quarto.

-Reconhece esse lugar? - Perguntou Patrick, já presumindo a resposta ao ver o pequeno sorriso no rosto de sua namorada.

-Sim, era o meu quarto. Nossa, eu não acredito, que nostalgia. Eu... bom, não sei, dê uma olhada, era tão pequeno que sequer seria possível me lembrar, mas uau, eu me lembro bem desse pequeno cômodo em questão. - deu uma leve risada, que fez com que Patrick relaxasse os ombros e observasse o comportamento de Melissa diante de tal situação.

Quando adentrou o pequeno quartinho, Melissa não espero reencontrar os inúmeros desenhos espalhados por toda a parede, do teto ao chão. Desenhos e palavras, que para ela, agora eram completamente desconexas, mas algumas... ah, algumas ela reconhecia bem. Os momentos felizes e tristes retratados em uma parede, alguns escritos bem pequenos, como se fosse um segredo que apenas ela entenderia se lesse de perto. 

-Não imaginava que vir aqui seria de algum jeito, importante. Sabe, me fez lembrar de tanta coisa que eu não... - sua fala fora abruptamente interrompida por um trovão que rasgara o céu, um barulho tão alto que fez com que Melissa e Patrick dessem um mini saltinho, agarrando um no outro, como sinal de proteção.

-Meu Deus, está vindo uma chuva muito forte, e pela condição dessa casa, ou ela despencará, ou nos molharemos inteiros com as goteiras. Amor, o que acha de voltarmos uma outra hora? -Patrick diz, caminhando em passos rápidos até a porta da frente, olhando o céu como quem confirmasse o que acabara de dizer, chamando com um leve aceno Melissa, que o respondeu de prontidão.

-Sim, você está certo. Mas, espere, me empreste seu telefone por favor? Desejo apenas tirar algumas fotos dessas imagens, vou poder me recordar melhor olhando-as durante à volta para casa. 

-Claro, aqui está. Se apresse meu bem, os pingos de chuva estão começando a engrossar. - Melissa rapidamente pega o telefone da mão de Patrick e faz inúmeros registros de coisas que para ela seriam importantes mais tardes, algumas fotos saíram como borrões pela pressa que estava, tentou fazer um vídeo na tentativa de talvez conseguir mais imagens, e por fim, já estavam caminhando rumo à caminhonete estacionada não muito longe da casa.

-Espero voltar aqui se realmente for preciso. - Patrick disse, soltando uma risada leve, acompanhada por Melissa, que ainda se encontra nostálgica.

-Sim, afinal, não é todo dia que se encontra uma casa com paredes tão velhas assim. 


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⏰ Cập nhật Lần cuối: Jun 06, 2025 ⏰

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