Príncipe de Merda

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(Narrado por Vinni, 1 mês depois)

Eu nunca quis morar aqui.

Esse castelo — porque é isso que essa porcaria de palácio é — nunca me pertenceu. E nunca vai pertencer. Me enfiarem num quarto enorme com vista pra uma cidade que queima lá embaixo não muda o fato de que eu continuo sendo o mesmo garoto que cresceu com cheiro de pólvora nas roupas e sangue nos dedos.

Mas o velho insistiu. E ela também.
Catarina.

Ela me olhou daquele jeito que só ela sabe. E eu, idiota, fui.
Não por ele. Não por luxo, por conforto, por nenhum desses lixos.
Eu fui por ela.

— Acorda, alteza. — Dante passa por mim com um copo de café na mão e aquele maldito sorriso debochado. — Vai perder o café real.

— Vai à merda.

Ele ri. Diana surge logo depois, ainda com o cabelo molhado do banho, e me dá um beijo no rosto como uma irmã faz. Ela e Dante agora vivem no palácio também. Parece piada, né? A gente passou a vida correndo da realeza do crime e agora tá morando dentro dela.

A diferença é que eu ainda não sei se isso aqui é um lar... ou uma prisão bem decorada.

Gaspar tem sido... diferente.
Não mais o homem que mandava e reinava com um estalar de dedos (ou pelo menos não na minha frente). Ele tenta. Fala baixo comigo. Me chama de filho — quando tem coragem. Mas eu não deixo.
Ainda não.

Fiz questão de deixar claro: não quero nada que seja dele. Nem o dinheiro, nem o nome, nem o poder.

— Catarina é a única herdeira. — Eu disse isso pra ele olhando nos olhos. — Eu não vim pra herdar império. Eu vim porque ela me pediu.

E ela me pede poucas coisas.
Mas quando pede, eu escuto.

Dante se joga na poltrona da sala como se fosse dono do lugar. E talvez seja. Ele sempre coube bem em todos os lugares — até nos que não devia.

— Vai me ignorar agora? — ele pergunta, enquanto Diana se senta no braço da poltrona dele, rindo baixinho. Os dois estão diferentes. Mais leves. Mais casados. Ela usa uma aliança nova no dedo, dessas que brilham mais do que deviam. Eu sei porque ela fez questão de me mostrar. Dante ainda não tem juízo, mas tá tentando. E eu? Eu tô aprendendo a confiar.

Aprendendo a ficar.

— Não tô ignorando — digo. — Só tô tentando não socar tua cara por me chamar de príncipe mais uma vez.

— Ah, desculpa, alteza. Não queria ferir os sentimentos da nobreza.

— Vocês dois são insuportáveis — diz Diana, e joga uma almofada nele. Dante se defende rindo, e por um segundo, tudo parece... normal.

É nessas horas que o peito aperta. Quando a vida parece boa demais pra ser minha.
Tem dias em que eu acordo achando que é mentira. Que a qualquer momento alguém vai me dizer que acabou. Que a Catarina se foi. Que o Gaspar me enganou. Que a máfia me abandonou. Que Diana tá morta. Que Dante me traiu.

A felicidade me assusta mais do que qualquer tiro.

⸻

Mais tarde, estou no escritório do Gaspar. O ambiente cheira a couro velho e poder. Tem coisas aqui que eu nunca vou entender. Ele está sentado atrás da mesa, mexendo em papéis, mas me olha quando entro.

— Precisa de alguma coisa? — ele pergunta. A voz é calma. Muito calma. O tipo de calma que vem de quem já governou demais pra se apressar com qualquer coisa.

— Só vim avisar que estou indo pra reunião com os turcos amanhã.

— Catarina vai com você?

— Sempre.

"Antes que eu queime 2"Historias para obsesionarse. Descúbrelo ahora