Capítulo 1 - O Nascimento do Vazio

23 2 0
                                        

A noite parecia mais escura do que o normal.

Lucas caminhava sozinho pelas ruas estreitas do bairro velho, os postes de luz falhando em iluminar totalmente o caminho. O silêncio era quebrado apenas pelo som abafado dos seus próprios passos e do vento frio que soprava entre os prédios abandonados. Ele gostava daquele caminho - ou talvez, apenas se sentisse menos estranho quando estava cercado de sombras.

Desde pequeno, Lucas carregava aquela sensação esquisita: como se algo invisível o seguisse, um olhar frio cravado em sua nuca, sempre escondido na escuridão. Enquanto as outras crianças brincavam ao sol, ele preferia os cantos vazios, as vielas silenciosas, os lugares onde ninguém podia vê-lo de verdade. "Você é muito fechado, Lucas", diziam os professores. Mas ele sabia - no fundo, sempre soube - que o escuro era onde ele pertencia.

Naquela noite, tudo começou com um erro.

Ele havia saído mais tarde do que o normal da biblioteca, tentando evitar cruzar com um grupo que costumava implicar com ele na escola. Mas, claro, eles estavam ali, como sempre, como cães farejando o medo.

- Ei, Lucas! - gritou um deles, do outro lado da rua. - Tá com pressa?

Lucas acelerou o passo, tentando cortar caminho pelo beco entre dois prédios industriais. O ar ali era mais denso, impregnado pelo cheiro de óleo velho e ferrugem. Seus passos ecoavam mais alto do que queria, mas ele não parou.

Só percebeu que estava cercado quando ouviu as vozes surgindo atrás e à frente.

- Achou mesmo que podia fugir? - perguntou o líder do grupo, sorrindo de maneira cruel.

O coração de Lucas batia tão rápido que parecia explodir. Ele olhou ao redor. As paredes altas, o chão úmido, a única saída bloqueada. Não havia para onde correr.

As sombras, no entanto... estavam ali.

Sempre estiveram.

Num impulso que ele mesmo não entendeu, Lucas encostou a mão na parede ao seu lado, onde a luz não alcançava. O frio da superfície metálica era diferente... como se fosse mais profundo. Como se não fosse só a parede, mas um convite silencioso para sumir.

- O que foi? Tá com medo? - zombou um dos rapazes, se aproximando.

Lucas apertou a mão contra a parede, fechou os olhos com força.

E então...

Por um segundo, tudo ficou silencioso demais. O som dos agressores desapareceu, o frio aumentou e, ao abrir os olhos, Lucas percebeu que estava em um lugar completamente diferente.

Era um espaço infinito de escuridão densa, onde não havia paredes, chão, nem céu. Apenas ele e aquele vazio silencioso. Não sabia como tinha chegado ali. Nem sabia como sair.

Mas, pela primeira vez, não sentiu medo.

Ali, ninguém podia vê-lo. Ninguém podia alcançá-lo.

No entanto, assim como aquele vazio o acolhia, algo dentro dele... também acordava. Uma presença, uma forma que começava a tomar contorno nas sombras ao seu lado. Pequena, humanoide, de olhos vermelhos que brilhavam como brasas acesas.

Mas isso...
Isso seria só o começo.

Do lado de fora, os garotos olhavam ao redor, confusos.

- Ele... sumiu?

E, na escuridão, Lucas deu o primeiro passo em direção ao que realmente era.

Eclipse OverdriveWhere stories live. Discover now