Phamella ria de algo que nem era tão engraçado assim, mas seu sorriso era tão fácil, tão sincero, que contagiava. Atrás do balcão da pequena lanchonete no centro da cidade, ela se movia com agilidade entre os pedidos e os clientes, como se pertencesse àquele lugar.
Tinha longos cabelos castanhos num tom indeciso entre o claro e o escuro, quase como se refletissem o meio-termo entre luz e sombra que ela mesma carregava. Os olhos eram lindos — daquele tipo que parece brilhar quando ela sorri — e a pele clara contrastava com o uniforme manchado de mostarda.
Phamella era doce, engraçada, do tipo que sabia o nome dos clientes fixos e zoava os que vinham pedir hambúrguer sem sal ou milkshake sem leite. Sarcástica na medida certa, mas de coração bom. O tipo de pessoa que ninguém imagina que vai acabar no meio de uma história onde sangue corre pelo chão.
— O de sempre, seu Jorge? — perguntou, com aquele sorriso fácil.
— Só se vier com o seu bom humor de brinde! — o senhor respondeu, e os dois riram juntos.
No fundo, ela gostava daquela rotina. Era previsível, era simples. E tinha gente que dizia que simplicidade era chata, mas pra Phamella, era quase conforto.
Quando o movimento diminuiu, ela limpou o balcão pela milésima vez naquela noite, enquanto ouvia as colegas de trabalho fofocando perto da cozinha. A noite estava chuvosa, e os pingos batiam nos vidros da lanchonete com insistência. Uma típica quarta-feira qualquer. Uma daquelas noites em que nada muda.
— Vai por onde hoje, Pham? — perguntou uma das amigas, já tirando o avental.
— Pelo beco. É mais rápido. — respondeu sem pensar muito, guardando as gorjetas numa bolsinha pequena. — Só não me deixem sozinha se aquele cliente esquisito voltar pedindo pastel com ketchup.
— Corajosa demais! — riram.
Ela puxou o capuz e se despediu com um aceno rápido. A noite estava fria, e o vento parecia querer atravessar seus ossos. O beco era sempre mais rápido, mas aquela escuridão parecia mais densa do que o normal. Ainda assim, ela seguiu.
No início, tudo parecia normal. Silêncio, pingos batendo no chão, o som abafado de um rádio distante. Mas então ela ouviu.
Primeiro, um som baixo e molhado. Como carne sendo... cortada. Rasgada. Um baque, um gemido fraco. E depois, silêncio. Tenso. Vivo.
Ela virou a esquina e congelou.
Ali, à frente, um corpo no chão. A luz fraca dos postes iluminava parcialmente a cena: sangue escorrendo pelo asfalto encharcado, o líquido vermelho se misturando à chuva. Um homem ajoelhado em cima do outro, os braços ensanguentados, o rosto parcialmente coberto pela sombra. Seus movimentos eram precisos, frios. Ele não hesitava. Não tremia. Era como se estivesse tirando algo que o incomodava, não matando um ser humano.
Phamella sentiu o corpo inteiro paralisar.
Então, ele se virou.
Os olhos dele a encontraram no escuro. Profundos, opacos, vazios de qualquer emoção humana. E naquele segundo, ela não conseguia se mover. Era como se aqueles olhos a puxassem, sufocassem, deixassem o ar pesado demais pra respirar.
Ela sentiu um arrepio brutal percorrer a espinha.
Tremendo, deu um passo para trás — e quase caiu.
O medo explodiu no peito e ela correu. Os pés batiam nas poças, escorregavam, e o coração batia tão alto que parecia gritar dentro dela. As luzes da rua seguinte surgiram como um alívio ilusório, mas mesmo ali, com pessoas ao redor, ela não conseguia escapar da sensação de estar sendo observada.
— Meu Deus... — sussurrou, ofegante, olhando por cima do ombro.
Algumas pessoas na calçada viraram os rostos, notando sua corrida desesperada.
— O que houve com ela? — murmurou uma mulher.
— Tá tudo bem? — perguntou um homem que ela nem ouviu direito.
Phamella seguiu correndo, o peito ardendo, o ar entrando cortado pelos soluços e pela adrenalina. Tudo girava ao seu redor, mas a cena se repetia em sua cabeça como um pesadelo sem fim.
"Não... não... o que foi aquilo que eu vi?"
"Não pode ser real..."
"Só pode ser um sonho. Um pesadelo... só isso."
A porta do apartamento se fechou com um estrondo seco.
Phamella girou a chave com as mãos tremendo e, sem pensar duas vezes, empurrou o armário de sapatos contra a porta. Depois arrastou uma cadeira, o pequeno aparador. Qualquer coisa que servisse de barreira entre ela e... aquilo.
O coração ainda batia fora do ritmo. Ela tentava puxar o ar, mas parecia que os pulmões estavam fechados. As roupas molhadas grudavam no corpo, e os dedos gelados mal respondiam direito.
Sem desligar as luzes da sala, correu pelo corredor até seu quarto. Bateu a porta e girou a tranca, como se aquilo fosse suficiente. Como se uma fechadura comum pudesse mantê-la segura de alguém como ele.
Se encostou na parede em pé, o peito subindo e descendo rápido.
O celular caiu da mão duas vezes antes de conseguir pegá-lo de volta. Ela tentava digitar mas, os dedos atrapalhados, os olhos indo da porta para a janela, da janela para a porta, como se a qualquer segundo ele fosse surgir ali.
Mas não ligou pra ninguém.
Ela só o segurava. Como se o aparelho fosse um talismã. Algo que, se estivesse por perto, impediria que o pior acontecesse.
"Eu vi um assassinato. Eu vi alguém morrer."
Mas ela não conseguia digitar isso. Nem falar. A garganta estava seca, trancada, como se palavras fossem perigosas demais.
Sentou-se no chão, abraçando os joelhos, tremendo. O quarto parecia pequeno demais. Cada som da rua, cada estalo do prédio, era um alerta.
"Ele me viu. Ele olhou nos meus olhos."
"Será que ele me seguiu? Será que já sabe onde eu moro?"
O silêncio fazia barulho.
Phamella manteve os olhos na janela por longos minutos. Depois, olhou para a porta trancada. E ficou assim... parada, quieta, sufocada dentro do próprio medo.
As pálpebras começaram a pesar. O corpo exausto cedeu ao susto, à adrenalina, ao trauma.
Ela adormeceu, sem perceber.
[...]
...
[...]
Um barulho.
Phamella acordou sobressaltada, com um leve gritinho preso na garganta. O coração disparou de novo, como se nunca tivesse desacelerado.
A luz da sala ainda acesa deixava uma faixa pálida atravessando a fresta da porta do quarto. A casa estava silenciosa, ainda era noite, ao olhar para o celular viu o horário, era apenas 04:28, o silêncio a deixava ansiosa, era aquele tipo de silêncio que parece... observar
Ela não sabia se tinha ouvido algo real ou se o barulho estava apenas dentro da cabeça dela.
Mas uma coisa era certa: aquele olhar continuava grudado na memória. Aqueles olhos sem alma. E a certeza sufocante de que agora... ela não estava mais sozinha no mundo.
Ele sabia que ela viu.
E isso mudava tudo.
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Flor de Sangue
FanfictionUma jovem comum com uma vida tranquila e previsível é lançada brutalmente em um submundo que ela nunca soube que existia - um universo de sombras, segredos e sangue. Após presenciar um assassinato cometido por um homem tão letal quanto hipnotizante...
