PRÓLOGO

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Samuel Calisto

Austin, Texas, Lua crescente gibosa

2 meses antes


Eu sou como uma das luas que orbitam Júpiter: promissora à primeira vista, mas, no fim, nada mais do que uma grande rocha radioativa congelada. Assim como a lua Calisto — curiosamente também o meu sobrenome —, não sou grande coisa se visto de longe; e, de perto, bem... pareço anos-luz ainda mais distante.

Ao menos posso dizer que compartilho algo em comum com o escudo da Terra, né? Pena que, pra isso — assim como o papel jupiteriano na galáxia —, eu precise atrair todos os cometas e asteroides para minha superfície.

Dramático, eu sei. Mas prefiro colocar esse comparativo como algo bom. Porque sim, é. Pelo menos pra minha família.

Os Calistos sempre foram conhecidos pela paixão que carregam pela astronomia. E, assim como meus pais se conheceram por causa dela, lutei muito para tentar levar esse legado adiante. Mesmo que, no momento, eu a odeie por me fazer ir ao Brasil por quatro longas semanas, sem que eu sequer tenha pedido por isso.

Tudo bem, fiquei animado... até a página dois, quando meu pai mencionou a inauguração do segundo maior radiotelescópio da América Latina: o Radiotelescópio de São Pedro — ou ROSP — construído no Nordeste brasileiro.

O problema não era esse. De longe, não era.

Meu pai sempre foi envolvido com as aulas e os projetos de pesquisa na UATX, onde atualmente trabalha. Mas, como a universidade é uma das patrocinadoras do ROSP, nomearam o senhor André Calisto como representante dos seus interesses. Por causa disso, meu pai acabou indo pro Brasil com muita frequência nos últimos dois anos, para acompanhar os investimentos estadunidenses de perto, com uma equipe desnecessariamente gigantesca.

Fiquei orgulhoso e interessado nas novidades, mas, desde então, tudo desandou.

Acabei o vendo cada vez menos e tendo cada vez mais responsabilidades, porque o bonito ainda conseguiu arrumar uma noiva em terras brasileiras: Simone Queirós, uma médica recém-divorciada que tinha muita grana e um filho detestável de brinde.

Eu e meu irmão Lucas não recebemos aquela notícia como meu pai esperava. Não soltamos fogos de artifício, nem sequer ficamos animados. E, sendo bem sincero, só consegui sentir preocupação.

Não sou contra a felicidade do meu pai, mas o trajeto EUA-Brasil não era fácil, nem barato. Como a gente manteria um esquema de visitas programadas se minha faculdade aqui nos Estados Unidos começaria ainda neste semestre?

Na teoria, eu teria mais algum tempo com meu irmão antes de ir pro MIT — porque, obviamente, Lucas vai morar com meu pai no Brasil — e daríamos um jeito depois. Afinal, eu achava que essa mudança ainda demoraria a acontecer, então encontraríamos um meio-termo.

Mas não foi bem o que aconteceu.

Com o sucesso do radiotelescópio e o crescimento da demanda, meu pai adiantou a data do casamento e agilizou os trâmites dos vistos, sem nem ao menos preparar o terreno. Ou seja: partiu Brasil, partiu terminar de virar nossas vidas de cabeça pra baixo.

Ainda não sei como lidar com isso, porque odeio enfrentar mudanças. Odeio não ter controle sobre elas, e odeio, mais ainda, ter me tornado tão sedentário de uma hora pra outra.

Estou ofegando com a minha própria vida, então precisei parar de correr e me recuperar, me apoiando nos joelhos. Já estava na volta final da minha corrida matinal, mas os meses em que venho vivendo como uma dona de casa preguiçosa — desde que terminei o Ensino Médio e por conta da ausência do meu pai, é claro — estão cobrando seu preço.

[DEGUSTAÇÃO]Sem Querer EmbaralhadosHistorias para obsesionarse. Descúbrelo ahora