Abby sabia que não devia estar ali.
A rua onde caminhava parecia sufocada pelo tempo — como se os dias tivessem passado sem piedade por cima do asfalto, deixando cicatrizes. As árvores estavam secas, tortas, balançando com o vento de fim de outubro. Era um vento estranho, que não refrescava. Ele parecia avisar. Era como se o próprio ar dissesse "volte". Mas Abby não voltaria. Não dessa vez...
Ao lado dela, Andy — sua mãe — andava como se nada estivesse errado. Seu rosto calmo. Andy acreditava que aquela era só mais uma tarde qualquer. Que era só mais uma loja. Que Jack era só mais um homem.
Mas Abby sabia.
Já tinha estado ali antes.
Naquela primeira vez, tudo parecia inofensivo. Ela achou que ia apenas ajudar, talvez conseguir um trabalho.
Lembrava do cheiro da loja — forte, como tinta fresca e mofo escondido. Jack tinha sorrido pouco, mas suficiente pra parecer confiável. Só que aquilo durou segundos. Depois, vieram os corredores. As portas trancadas. E a chave que desapareceu do nada. Jack não deixava ninguém sair tão fácil.
Foi presa lá dentro. E ninguém soube.
Agora ela estava voltando.
Na mão, o molho de chaves roubado da última vez. Abby não sabia se alguma ainda funcionava, mas segurá-las a fazia se sentir menos fraca.Ela guardava pois no fundo sentia que iria voltar.
Que teria a sua vingança.
A única coisa que Andy dissera naquele dia foi:
— Vamos só ver se a moça está, e depois passamos na loja de concerto,para ver se consigo dar um jeito no meu celular.
Como se aquele lugar não fosse um buraco vivo.
Como se Jack não fosse o tipo de homem que esperava a porta fechar pra se transformar.
Abby não respondeu. Só olhava a entrada dos fundos — uma portinha torta, baixa, que levava pra um corredor sem janelas. Ela lembrava exatamente do som que os próprios passos faziam ali dentro. Um som abafado. Um som de quem caminha em lugar errado.
O pior era saber que Jack ainda estava lá.
Ele sempre esteve.
E Jack... não esquecia um rosto.
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Por trás da porta.
Mystery / ThrillerAbby nunca imaginou que um simples passeio com a mãe pudesse se transformar no início de um pesadelo. Uma loja esquecida no tempo, um dono que nunca esquece um rosto, e uma chave que guarda mais do que portas - guarda segredos. O que parecia ser ape...
