Piloto

3 1 0
                                        

SINTO MEU CORPO BATENDO bruscamente nos galhos enquanto corro, meu corpo arfa na busca pelo oxigênio mas não me permito parar nem por um segundo. Avisto pelo meio das samambaias alguns lampiões que iluminam o que parece ser uma taverna, acelero tomando cuidado para não tropeçar em nenhuma pedra ou ramo do caminho. Inspirar e expirar, inspirar e expirar, eu consigo fazer isso.
A entrada está pouco iluminada pelo horário tardio, mas ouço um burburinho de vozes vindo de dentro. Puxo o tecido desgastado do capuz cobrindo todo meu rosto, evitando uma possível e muito provável perseguição, meus dedos calejados tocam a porta e a empurrão para trás, o rangido da madeira velha no cascalho anuncia a minha entrada atraindo alguns olhares curiosos que me acompanham mas logo se dispersão.
Caminho em direção ao solário e mantenho a cabeça baixa, me sento em um banco desgastado provavelmente ruído por cupins, o lugar está lotado por Aniketos de todas as idades ainda com suas fardas enquanto conversam e bebem feito animais, as mesas e as cadeiras são antigas e a única brecha de vento que percorre dentro vem de uma janela minúscula do lado direito, há um tapete de pele sujo no chão que cheira a cerveja vencida, e o óleo queimado que pinga dos lampiões corrompe a pedra cada vez mais. Eles riem e abraçam uns aos outros como se houvesse algum motivo em meio a esse caos que causasse tanta felicidade.
Um homem de meia idade e cabelos grisalhos, se aproxima lentamente demorando até estar a minha frente me avaliando.
— Mulheres não são bem vindas aqui.
— Preciso escrever uma carta.
— Volte com um marido ou seu pai e poderá escrever — diz virando as costas. Retiro o saco de couro amarrado na minha cintura e resgato minhas duas últimas moedas de ouro do fundo do pacote, e as bato na pedra para chamar a sua atenção.
— Uma pelo seu silêncio e a pela sua cooperação — seus olhos brilham e ele me olha com espanto. — Preciso de papel e tinta.
— Quem é você? — empurro as moedas na sua direção e dispenso sua pergunta considerando que não tenho muito tempo e a essa altura minha rápida passagem por essas terras causariam uma rebelião.
— Papel e tinta, agora. — ele se agacha hesitante mas logo se levanta me passando três folhas manchadas e o tinteiro.
Nossos olhares se cruzam e eu identifico quase imediatamente pela cor de seus olhos, qual seu povo. Amaranthos, são conhecidos por serem os ferreiros, o que não faz muito sentido, levando em conta que este homem está trabalhando em uma taverna. Diferente dos homens que frequentam esse lugar, eles não costumam ser muito violentos. Os Aniketos, são os soldados da guarda real. Se estivéssemos em um jogo de tabuleiro, onde a vários jogadores, eles seriam os peões, as marionetes no meio do caos. Os fantoches do rei, normalmente é assim que os apelidamos.
Desde minha infância, cresci rodeadas por Aniketos, houve uma aliança a muito tempo atrás, entre meu pai e o Rei Theodoros, que subiu ao poder sem uma exata hierarquia, mas sim pelo poder dos Deuses, sendo concebido ao trono pelo seu nome, Theos "Deus" e doron "presente", daí sendo referido como "presente de Deus". Está foi uma das principais vezes em que os Deuses falharam. Com o passar dos anos, Theodoros foi se firmando pouco a pouco no trono, casou-se três vezes, mas nenhuma de suas esposas lhe deu um primogênito, até que um dia, foi anunciado a primeira gravidez da linhagem por uma de suas consortes, todos ficaram eufóricos, e foi planejada uma grande festa de comemoração que durou sete dias, onde havia tudo em abundância, bebidas, orgias e comidas dos mais variados tipos. Os povos de toda Grécia vieram para o Olimpo festejar, foram feitas inúmeras oferendas a Afrodite, Deusa do amor e da fertilidade. Nove meses depois, nasce o tão esperado herdeiro, Matthaios, predestinado a subir ao poder no seu vigésimo primeiro aniversário. Segundo o que Klaus me conta, eles nunca tiveram uma relação muito boa, mas tudo piorou no seu décimo sétimo aniversário quando Theodoros descobriu que Caroline tinha um amante, a corte a sentenciou a morte por traição. O rei que traiu todas as esposas que teve até achar uma que lhe concedesse um filho homem, condena a mãe de seu primogênito a morte por traição, a mais pura hipocrisia do rei. Ela foi enforcada na frente do próprio filho e de todo reino a mando de Theodoros, como "uma espécie de aviso" que qualquer um que escolhesse ser desleal a coroa, teria o mesmo destino.
Matthaios então se rebelou contra seu pai, o matando com um tipo de magia negra desconhecida até mesmo pelos mais velhos, até mesmo pelo meu pai, e assumiu o trono por ser o próximo da linhagem. E foi aí, que tudo começou a dar errado. Os Deuses ficaram furiosos, e se colocaram todos contra o mais novo Rei, ordenando-lhe que renunciasse ao Trono para ser julgado pelo Olimpo. Porém o Rei, com um poder imenso em suas mãos, negou a ordem dos Deuses, e separou a terra em duas partes, quebrando a aliança e declarando guerra a qualquer um de seus súditos, que ousase se opuser a ele. Assim as pessoas foram se dividindo em povos, Amaranthos os ferreiros, Aniketos os soldados, Damokles os nobres, Androkles os guerreiros gloriosos, Chrysanthos os cultivadores, e Hermês meu irmão, que deu início a linhagem dos manipuladores da terra, os Adamos. Que por uma incrível coincidência, é o motivo de eu estar aqui.
Abaixo o olhar um segundo depois e volto minha atenção ao papel a minha frente, rabisco rapidamente enquanto já consigo ouvir de fundo o grito dos soldados.
— REVISTEM A TAVERNA! — a voz masculina se aproxima e preenche o lugar rapidamente, os Aniketos pararam com as brincadeiras entre si quase imediatamente — ACHEM ELA!
— Pelos Deuses é você — O homem balbuciou assustado observando o vão que o capuz revelou do meu rosto ao escorregar um pouco.
— Garanta que seja entregue ao mensageiro antes do amanhecer. — solto o tinteiro e me esguio para o outro lado do solário depositando a carta rapidamente na sua mão. — Por favor, precisa ser antes do nascer do sol.
— Antes do amanhecer — corro em direção a saída dos fundos e olho para trás com agradecimento.
— Obrigada Amaranthos.
— Filha de Zeus — diz fazendo uma longa reverência — a seus serviços.
Lanço um último aceno e disparo quando a porta da taverna se abre.
O som dos meus passos ecoa pelos corredores escuros e as palavras que escrevi pesam sobre meus ombros, mas não há ninguém que possa mudar o destino de uma profecia, de um destino. Eles sabem disso. Mas não sabem o suficiente. E é isso que vai me manter viva.
Corro para fora, mergulhando na escuridão da noite e me misturando ao caos. A sensação de estar sendo observada não era nova, mas hoje, algo no ar estava diferente. Era como se as estrelas ao meu redor estivessem prestes a se alinhar, e eu não podia impedir o que viria..
O vento frio me envolve, mas não sinto nada além da certeza de que quando o sol nascer, o jogo será outro. E a guerra irá começar.

Athena | Livro IHistorias para obsesionarse. Descúbrelo ahora