"Isn't it lovely, all alone?
Heart made of glass, my mind of stone."
- Billie Eilish, Lovely.
"De volta ao quarto, sem ninguém por perto..."
O frio do chão do banheiro cortava a pele da Mel. As lágrimas embaçaram sua visão enquanto ela se encolhia no canto, as marcas em seu braço ainda frescas. Não tinha mais forças para fingir que estava bem. Só queria desaparecer, apagar a dor de dentro dela.
O som da porta se abrindo ecoou alto. A professora de literatura, dona Lúcia, entrou às pressas.
- Melissa! - a voz dela tremia, assustada ao ver a cena.
Mel tentou se encolher ainda mais, como se pudesse se esconder da vergonha. Mas já era tarde.
A professora ajoelhou ao lado dela, sem saber ao certo o que fazer. Apenas segurou suas mãos com delicadeza e ficou ali. Sem perguntas. Sem julgamentos.
Logo vieram mais pessoas. A orientadora. A psicóloga da escola.
Chamaram a enfermaria.
Chamaram seus pais.
Chamaram o medo que Mel tentava manter longe há semanas.
Ela se deixou levar, sem protestar. Como uma folha arrastada pelo vento.
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Mel se sentia oca.
Estava sentada na enfermaria da escola, um cobertor fino sobre os ombros, as mãos geladas apertando os joelhos. As vozes ao redor dela soavam abafadas, como se viessem debaixo d'água.
- Seus pais estão a caminho, querida. - a psicóloga disse, tentando sorrir com gentileza.
Mel apenas assentiu, os olhos fixos em algum ponto distante.
O tempo parecia se arrastar até seus pais chegarem. A mãe, com o rosto desfeito em lágrimas. O pai, tentando se manter firme. Eles conversaram baixinho com a diretora e a psicóloga. Trocaram olhares pesados.
Então seu pai se ajoelhou diante dela.
- Filha... pensamos que talvez... seria bom se você ficasse um tempo em uma clínica. - ele disse, a voz embargada. - Só até se sentir melhor, até conseguir respirar de novo.
Respirar de novo.
Como se fosse simples.
Como se ela quisesse continuar sufocando.
Mel não discutiu. Talvez porque uma parte dela também estivesse cansada de lutar.
Talvez porque nada mais fizesse sentido.
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O caminho até a tal clínica parecia interminável.
No carro, o rádio tocava baixinho. Alguma música antiga, que falava sobre esperança. Uma esperança que Mel não conseguia mais alcançar.
Encostou a testa na janela gelada. Deixou as lágrimas caírem em silêncio.
Quando chegaram, o lugar parecia... estranho.
Não era assustador como nos filmes. Não tinha grades ou portões enormes. Era um prédio baixo, cercado por jardins bem cuidados e bancos de madeira. Tudo muito limpo. Muito arrumado.
Muito irreal.
Um recepcionista os recebeu com um sorriso ensaiado.
- Bem-vinda, Melissa. - disse, como se ela estivesse chegando para umas férias.
A mãe apertou sua mão, os olhos marejados. O pai apenas acariciou seus cabelos de leve, como quem se despede sem palavras.
Assinaram papéis.
Conversaram com médicos.
Enquanto isso, Mel apenas existia. Sem vontade. Sem força.
Uma enfermeira jovem, de voz suave, veio buscá-la.
- Vamos, Mel. Vou te mostrar seu quarto. - disse.
Mel olhou para trás uma última vez. Viu os pais parados no corredor, parecendo tão perdidos quanto ela se sentia.
Não disse nada.
Não sabia o que dizer.
Seguiu a enfermeira por corredores claros, com quadros de pinturas, feitos à mão, de praias, montanhas e campos floridos pendurados nas paredes.
Entraram num quarto pequeno, com uma cama simples, um armário e uma janela aberta para o jardim.
- Este vai ser o seu espaço. - a enfermeira sorriu. - Se precisar de qualquer coisa, é só chamar.
Quando ficou sozinha, Mel se sentou na cama.
A mala jogada no chão.
A cabeça vazia.
O peito... quebrado.
Ela olhou pela janela, para as árvores balançando ao vento.
Fechou os olhos e desejou, pela primeira vez em muito tempo, que em algum lugar - mesmo que bem longe dali - Mia ainda pudesse ouvi-la.
Porque, mesmo perdida, mesmo machucada, ela sabia:
Ainda estava viva.
E agora... precisava descobrir o que fazer com isso.
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🌙Nota da autora:
Se você se sentiu tocado por esse capítulo e está passando por um momento difícil, saiba que pedir ajuda é uma das atitudes mais corajosas que podemos ter. Não há vergonha em não estar bem.
Se você precisar conversar, o CVV (Centro de Valorização da Vida) oferece apoio gratuito e sigiloso. Ligue para 188 ou acesse www.cvv.org.br.
Você não está sozinho 💛
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Fragmentos de Mim
Teen FictionQuando sua melhor amiga tira a própria vida, Mel se vê sozinha diante de uma dor que não consegue controlar. Internada em uma clínica para tratamento psicológico, ela precisa enfrentar a culpa, o medo e a própria mente, tentando encontrar forças par...
