A vida de Alícia nunca foi fácil.
Aos 23 anos, morava em uma vila simples, onde as casas pareciam sussurrar histórias antigas a quem passasse. A dela era pequena, mas sempre limpa. As paredes, descascadas em alguns pontos, guardavam mais dignidade do que muitos apartamentos de luxo.
Todos os dias, Alícia saía cedo para trabalhar como faxineira em uma empresa da cidade. O salário era pouco, mal dava para pagar as contas e comprar comida. Mas, ainda assim, ela sempre dava um jeito de dividir o que tinha.
Dois pequenos gestos mudaram a rotina da vila.
Na casa ao lado moravam Estela e Cândida, duas irmãs idosas, frágeis e esquecidas pelos filhos que viviam em outras cidades. A saúde das duas era delicada. Havia dias em que nem conseguiam sair da cama, e ninguém aparecia para ver como estavam.
Foi Alícia quem passou a levar sopa, varrer o quintal, acompanhar em consultas. Mesmo sem condições, ela dividia sua comida, seu tempo e, principalmente, sua atenção.
— Um dia, Deus vai te recompensar, menina — dizia Estela, segurando a mão de Alícia com força. — Você tem alma de quem cuida.
— Eu só faço o que gostaria que fizessem por mim — respondia, com um sorriso cansado, mas verdadeiro.
Por mais de um ano, Alícia manteve aquela rotina. Trabalho durante o dia, cuidado à noite. Aos poucos, criou um laço com aquelas duas senhoras que iam muito além da vizinhança — tornaram-se família.
Certo dia, ao chegar do trabalho, Alícia encontrou um carro preto estacionado em frente à casa das irmãs. Um homem de terno e pasta na mão conversava com elas na varanda.
— Alícia, venha cá — chamou Estela, com um brilho incomum nos olhos.
O advogado, sério, estendeu-lhe um envelope.
— Senhorita Alícia, meu nome é Dr. Afonso. Vim comunicar que os filhos de Dona Estela e Dona Cândida, infelizmente, faleceram em um acidente. Eles eram os únicos herdeiros legais. Mas no testamento, deixaram todos os bens às mães — e, como ambas são idosas e já declararam que não têm mais ninguém... gostariam que você fosse nomeada como curadora legal. E, futuramente, herdeira.
Alícia paralisou.
— Como assim... herdeira?
Cândida segurou sua mão com carinho. Estela completou, emocionada:
— Você cuidou da gente como filha. Agora queremos cuidar de você como neta.
A noite chegou silenciosa, mas a cabeça de Alícia não parava.
Ela olhava para o teto do seu quarto, ainda na vila, com o envelope do advogado repousando sobre o criado-mudo. A ideia de ser curadora — e possível herdeira — de Estela e Cândida ainda soava distante, quase irreal.
— Será que eu tô sonhando, meu Deus? — sussurrou para si mesma.
No dia seguinte, acompanhada do Dr. Afonso, foi até o cartório para dar início ao processo. O documento de curatela seria assinado ali mesmo, com base em um pedido formal feito pelas próprias irmãs, que declararam não ter outros familiares aptos ou interessados em cuidar delas.
— Você terá direitos, mas também deveres — explicou o advogado. — Curatela exige responsabilidade. Mas pela forma como elas falam de você, não me resta dúvida de que será a melhor escolha.
Alícia assinou com a mão trêmula. Quando o papel foi carimbado, ela sentiu o peso da mudança. Algo dentro dela mudava — de faxineira invisível para mulher com poder de decisão sobre vidas que a tratavam como família.
—
Nos dias que seguiram, Estela e Cândida convidaram Alícia a se mudar com elas para uma casa maior, comprada com uma parte da herança. Era uma residência espaçosa, de cômodos antigos, janelas grandes e um jardim com bancos de madeira que pareciam ter sido esquecidos pelo tempo.
Mas o que mais surpreendeu Alícia foi quem já vivia lá.
Socorro, uma mulher de meia idade, sorriso fácil e língua afiada, apareceu carregando um regador nas mãos quando as três chegaram.
— Ué, vocês são as novas donas? — perguntou, sem cerimônia. — Essa casa era da Dona Marlene. Eu era empregada aqui, morava nos fundos. Quando ela morreu, me deixaram por conta do quintal e da faxina... mas, com a venda, achei que ia ser despejada.
Estela e Cândida se entreolharam, e foi Alícia quem respondeu:
— Então fica. Se quiser, pode continuar aqui com a gente. Vamos morar todas juntas.
Socorro sorriu largo.
— Eita, gosto disso! Mas já aviso: eu sou boa de vassoura, ruim de paciência.
— A gente se acostuma — disse Alícia, rindo pela primeira vez em dias.
—
E assim começou a nova vida.
A casa foi ganhando cor, cheiro de bolo e risadas entrecortadas por barulhos de móveis sendo arrastados.
Aos poucos, o passado começava a ceder espaço para o futuro.
E mesmo sem saber o que viria, Alícia sentia — pela primeira vez — que estava exatamente onde deveria estar.
KAMU SEDANG MEMBACA
O recomeço de Alícia
Fiksi RemajaAlícia vive em uma vila simples e trabalha como faxineira em uma grande empresa. Mesmo com poucos recursos, divide o que tem com duas senhoras idosas e esquecidas pela família. O que ela não imagina é que, por trás daqueles gestos silenciosos de cui...
