O despertador antigo de Dominick não foi o responsável por tirá-lo do sono naquela manhã. Foram os primeiros raios de sol, tímidos e pálidos, que escapavam pelas frestas da persiana da janela fechada, invadindo o quarto com uma leveza quase respeitosa. Ele abriu os olhos lentamente, ainda pesados, e encarou o teto por alguns segundos antes de se sentar na beirada da cama. O ar estava frio, e quando seus pés tocaram o chão de cimento da casa, um arrepio percorreu sua espinha como um fio de eletricidade. Com passos lentos, ele seguiu até o banheiro, onde a água gelada do chuveiro o fez acordar de vez. Após o banho, vestiu a roupa de sempre — o uniforme cinza e simples do serviço, com o nome da empresa bordado em azul no peito. Caminhou até a cozinha, onde encontrou seu pai já acordado, sentado à mesa, com uma caneca de café nas mãos e os olhos fixos em alguma notícia antiga rodando em loop na televisão. A conversa entre os dois foi leve, pontuada por resmungos sobre o aumento no preço dos alimentos e comentários vagos sobre a escassez de gasolina. Dominick comentou, entre um gole e outro de café, sobre um festival que aconteceria na cidade na semana seguinte — algo raro e quase absurdo, considerando os tempos em que viviam. O pai riu, cético, mas não desmentiu. O clima era estranho, como se todos tentassem agarrar migalhas de normalidade num mundo que já não era normal havia anos. Dominick terminou o café, levantou-se, despediu-se do pai com um aceno silencioso e saiu pela porta da frente. A luz do sol agora era mais forte, refletindo na lataria empoeirada de seu Corolla vermelho. Ele jogou a mochila no banco do passageiro, fechou a porta com um estalo seco e girou a chave na ignição.
Dominick girou a chave e o motor do Corolla ganhou vida com um ronco suave, como se ainda estivesse despertando do sono. Antes de sair, lançou um último olhar pelo retrovisor, esperando ver seu pai voltando para dentro de casa com sua caneca de café nas mãos. Mas o que viu fez seu coração parar por um instante. Atrás do pai, no meio da neblina suave da manhã, uma criatura se erguia — algo que lembrava vagamente um caranguejo, mas com o dobro do tamanho de um homem comum, sua carapaça reluzente de um azul escuro quase negro. As pinças longas e curvas tilintavam no ar como lâminas. Dominick saiu do carro num salto, os pés quase tropeçando no chão, tentando gritar o nome do pai — mas a voz não saía. Seus pulmões estavam vazios, congelados de pavor. Ele estendeu a mão em desespero quando viu a criatura atravessar o peito do velho com uma das pinças, o som do osso sendo perfurado ecoando como um trovão abafado. Foi nesse instante que o grito finalmente explodiu em sua garganta — e ele acordou. O corpo inteiro suado, a respiração irregular, o coração batendo fora de ritmo como um tambor descompassado. Por um momento, não soube onde estava. Então virou o rosto e viu Alexandra, sua esposa, dormindo ao seu lado. Alívio. Ela ainda dormia tranquila, alheia ao pesadelo que acabara de assombrá-lo. Dominick se levantou devagar, com o peito ainda pesado, e caminhou pelo quarto escuro. Antes que pudesse processar tudo, ouviu o som seco de tiros vindos de longe, abafados pelas paredes de concreto. O instinto falou mais alto. Correu para fora do quarto, atravessando os corredores até o salão principal da base. Assim que chegou, viu soldados em alvoroço, posicionados atrás das barricadas, disparando contra algo do lado de fora. Gosmas de um verde viscoso voavam pelos ares, atingindo paredes e armaduras. E então, por entre a névoa e os flashes das armas, uma sombra colossal ergueu-se além do portão principal. Seus olhos — profundos, inumanos — encontraram os de Dominick. E ele soube, naquele instante, que o verdadeiro pesadelo acabara de começar.
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Profundo
Ciencia FicciónAs consequências de não conhecer o próprio oceano batem a sua porta, ou melhor, ela arromba e te mata sem você se quer entender o que aconteceu. Mergulhe nessa trama pós-apocalíptica e descubra que seu pior pesadelo, nada nas profundezas do oceano.
