capítulo 1

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A cela era fria e sombria. Minhas únicas companhias eram minhas sombras, que, assim como eu, viviam presas a esse lugar. Desde que o rei trouxe minha mãe e eu de volta à vida, fomos condenadas a viver no calabouço do castelo, sendo torturadas de todas as formas imagináveis.

Minha mãe, infelizmente, não resistiu à dor e à agonia, e morreu novamente. Com sua morte, eu cheguei a pensar em desistir, em permitir que a morte me levasse também. Mas não seria isso que me faria desistir. Não agora. Não quando eu sabia que o rei estava morto.

Agora, minha única missão era fugir. Eles estavam lá em cima, até os guardas, porque a rainha — até então desconhecida por muitos — ordenou que colocassem uma poção do sono na comida dos prisioneiros para que ninguém escapasse enquanto os soldados estavam ocupados.

Um dos guardas me deu a chave de minha cela, mantimentos e comida, sem a poção, em troca de uma promessa: pouparia sua vida e de sua família quando a guerra começasse. Eu aceitei.

Destranquei a cela — onde passei os piores dias da minha vida — com o máximo de cuidado. O medo de que um guarda ainda estivesse por perto apertava meu peito. Passei pelos corredores escuros e silenciosos, onde as almas atormentadas pareciam sussurrar, implorando por misericórdia.

Quando saí daquele corredor, estiquei o braço e peguei uma tocha acesa que iluminava o caminho à frente. Segui até a base da escada, mas não a subi. Fiquei parada ao lado da parede, procurando por uma pedra maior que as outras. Poucos conheciam essa passagem secreta. Eu sabia que estava em segurança por enquanto.

— Achei — murmurei para mim mesma, empurrando a pedra, que se moveu com um ruído abafado. A passagem se abriu. Entrei, e, assim que passei, a pedra se fechou atrás de mim, como se quisesse me engolir.

O túnel que eu estava percorrendo levava até a Corte Diurna, e eu acreditava que estava na direção certa. De lá, voaria até a Corte dos Pesadelos, faria uma pausa, e seguiria até Veláris, onde espero encontrar meu irmão. Não aguentaria perder mais ninguém da minha família.

Sinto falta de ir às compras com Mor, de treinar com Cassian, das brigas com meu irmão. Mas, acima de tudo, sinto falta das conversas à noite, de ficar sozinha com Azriel, falando sobre tudo o que aconteceu durante o dia. Ele nunca foi de conversar com Mor, Cass ou Rhys, mas comigo, as palavras sempre fluíam com naturalidade. Passávamos horas juntos, compartilhando nossos pensamentos, rindo e às vezes até chorando. Nossas sombras se entrelaçavam, brincavam, como se também tivessem vida própria.

Mas, com minha morte, tudo isso acabou. Não sei como eles estão agora. Principalmente Azriel.

A essa altura, a rainha Ameerah e seus guardas já devem ter notado minha ausência. Já faz muito tempo que estou me arrastando por essas passagens. Deve estar quase na hora de chegar à fronteira com a Corte Diurna.

Cheguei a um ponto sem saída, mas havia uma escada à minha frente que levava ao topo. Comecei a subir. Olhei para cima e vi uma porta. Tentei abri-la, mas estava emperrada. Usei minha força sobrenatural para forçar a abertura.

Os torturadores gostavam de realizar experimentos no corpo feérico, e eu era a cobaia. Isso me fez mais forte, mais rápida, com poderes muito mais intensos do que meu irmão. Eu me tornei mais poderosa que ele, mas não sabia ao certo quais os efeitos das substâncias que injetaram em mim. Espero que não sejam letais.

A Corte Diurna era linda, mas não poderia ficar por muito tempo. Eu precisava seguir para a Corte dos Pesadelos e descansar um pouco antes de atravessar para Veláris.

Chegando perto da fronteira entre as duas cortes, decidi parar em uma caverna. Não era seguro voar à noite. Muitas criaturas ainda estavam soltas, e o reinado de Amarantha deixou cicatrizes profundas em Prynthia.

Quando pousei, um cheiro estranho no ar fez meus sentidos se aguçarem. Algo estava errado.

Ouvi um galho se partir e passos, mas não podia ser. Não poderia ser eles. Não agora, quando já estava tão perto de ver minha família novamente. No entanto, o que surgiu diante de mim não eram guardas.

Era algo bem mais antigo e perigoso.

Eu não sabia que Bryaxis havia sido libertada da biblioteca da Casa do Vento. Ouvi apenas rumores de que meu irmão havia feito um acordo com Stryga, a Tecelã do Bosque, uma imortal de enorme poder de outra dimensão. Todos temiam Stryga, cujos poderes permitiam consumir a própria vida. Nem Amarantha ousou perturbá-la.

Bryaxis, no entanto, eu não sabia como havia saído de Veláris, mas ela estava ali, vagando por Prynthia.

— Não quero lhe machucar. Tudo o que eu quero é descansar um pouco e depois voltar para minha família — disse, tentando parecer tranquila diante da criatura.

“Qual é o seu nome, criança?”

A voz em minha mente era inconfundível. Era a voz de Bryaxis, profunda e ancestral.

— Ayla — respondi, sem hesitar.

“Ah, você é a irmã morta do Grão-Senhor da Corte Noturna. Ouvi boatos de que o rei usou a magia do caldeirão para trazer você e sua mãe de volta à vida. Agora posso ver que não eram apenas boatos.”

Bryaxis se aproximava, e suas palavras, embora calmas, pareciam mortais.

“Calma, criança. Não quero lhe fazer mal. Quero apenas companhia. Minha vida é solitária, menina. Preciso de alguém com quem fofocar.”

— Não posso ficar. Preciso ver minha família — respondi gentilmente.

“Vamos fazer um acordo, então, minha querida.”

O medo se fez presente. Um acordo? Com Bryaxis? Isso não poderia ser bom.

“Eu levo você em segurança até sua família, protejo você das criaturas que atacam à noite, e você me visitará pelo menos uma vez por mês para conversarmos. Em troca, você poderá seguir seu caminho, e eu voltarei para a biblioteca em Veláris.”

O acordo parecia bom. Eu teria minha família de volta e Bryaxis teria companhia. Além disso, sua ajuda seria valiosa caso os guardas da Rainha Clythia me encontrassem.

— Eu aceito, mas com uma condição — disse, sentindo a tensão crescer.

“E qual seria essa condição?”

— Sempre que eu precisar, você virá me ajudar.

“Ok, por mim tudo bem. Então temos um acordo.”

Senti um formigamento em meu pulso esquerdo, e sabia que o acordo havia sido selado. A tatuagem que apareceu ali era uma meia-lua dentro de um sol. Era bonita, mas também cheia de significados profundos.

— Essa tatuagem é linda, mas agora precisamos ir. Acho que não consigo caminhar mais hoje. Podemos descansar em uma caverna e comer algo? — perguntei, exausta.

“Tudo bem, querida. Sei de um lugar seguro. Amanhã, ao alvorecer, te levarei até os escudos de Veláris, e de lá você terá que dar um jeito de entrar.”

— Combinado. Vamos lá.

“Claro.”

Seguimos em direção à caverna que Bryaxis havia indicado. Lá, comi rapidamente, e ela disse que ficaria acordada vigiando enquanto eu descansava. Fechei os olhos e logo cai no sono, aliviada por estar um passo mais perto de minha família.

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