Escolhas e consequências

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A bebida sempre foi um fantasma na vida de Danielle- um vulto constante, espreitando nos cantos da casa, sussurrando promessas de destruição. Mas foi só depois da morte da mãe que esse pesadelo deixou de ser apenas dela e começou a gritar dentro dela também, como se o vazio precisasse ser preenchido por algo igualmente corrosivo.

O corpo dela já estava cansado, mas a mente... a mente carregava cicatrizes invisíveis de anos convivendo com um vício que nunca foi seu. Danielle odiava bebida. O cheiro, o som do gelo no copo, até o estalo da garrafa sendo aberta - tudo isso era gatilho, memória disfarçada de rotina. "Eu não sou ela", pensava sempre que passava pela prateleira onde as garrafas costumavam ficar. Ela cresceu com a convicção de que jamais encostaria em álcool. Porque sabia exatamente o que ele conseguia destruir.

A mãe de Danielle morreu numa terça-feira cinza, dessas em que o céu parece lamentar junto. Foi encontrada no sofá da sala, uma garrafa vazia no chão e o controle da TV ainda na mão. Parecia dormir, como em tantas outras noites - mas dessa vez, não havia mais volta. Danielle não chorou. Ficou ali parada, encarando o corpo imóvel como se esperasse que ela abrisse os olhos e dissesse mais uma daquelas promessas quebradas. "Dessa vez vai ser diferente, filha." Mas dessa vez, a história não iria se repetir.

    No dia do funeral o cheiro de flores velhas e incenso barato impregnava o ar da capela. Danielle ficou imóvel diante do caixão fechado, como se ainda não acreditasse que aquela história, por mais conturbada, tivesse mesmo chegado ao fim. Foi quando sentiu os braços fortes do pai ao seu redor, puxando-a para um abraço apertado. O irmão veio logo depois, alto, com os olhos vermelhos, mas firme - como sempre foi.

Ela desabou ali, entre os dois, deixando que o pranto finalmente rompesse o silêncio que carregava desde a manhã.

"Eu tentei, pai... Eu juro que tentei... Mas eu não consegui salvá-la." A voz de Danielle saía trêmula, partida.

"Não era sua responsabilidade, filha," o pai murmurou, com a voz embargada, passando a mão pelos cabelos dela.

"Você não tem que carregar isso sozinha" completou o irmão, apertando-a contra o peito, como se pudesse protegê-la até da memória.

E, naquele instante, entre lágrimas e despedidas, Danielle sentiu algo estranho: uma pontada de alívio. Como se, enfim, tivesse sido libertada de uma prisão invisível.

Depois do enterro, Danielle se sentou no banco de trás do carro do pai, encarando a paisagem pela janela enquanto a cidade passava devagar, como se estivesse em luto junto com ela. As vozes ao redor pareciam distantes, abafadas pelo peso do que ainda tentava processar.

"Talvez seja mais fácil agora, mas aconteceu tudo tão rápido... e é tudo tão novo." Ela sussurrou, quase para si mesma, com os olhos perdidos no céu nublado. Não sabia se estava falando da ausência da mãe, da mudança para a casa do pai, ou da sensação estranha de respirar sem medo - pela primeira vez em anos.

Era um recomeço. Mas também era um vazio. E Danielle não sabia ainda qual dos dois doía mais

O coração que aprendeu a queimar Stories to obsess over. Discover now