Alan nunca viu o mundo com os olhos. Mas isso não significava que ele não o conhecia.
Ele sabia o formato dos móveis pelos estalos do piso. Reconhecia a distância de um inseto pela vibração do zumbido. Sentia a presença de alguém pelo sutil deslocamento do ar, pelo som da respiração, pela mudança quase imperceptível no ambiente. O som era sua visão. O som era sua vida.
Desde criança, Alan aprendeu a escutar o mundo de uma forma que os outros não conseguiam. Era como se cada ruído criasse formas no escuro, um copo na mesa, a chuva no telhado, o ranger da madeira. Tudo isso era luz para ele. Tudo isso era certeza.
Por isso, ele temia o silêncio.
Não o silêncio normal de uma noite calma ou de uma sala vazia. Mas o silêncio real, aquele que vinha sem motivo, como um manto sufocante, arrancando o som das coisas, engolindo o mundo sem aviso.
A primeira vez que sentiu isso, estava em casa, lendo em braile perto da janela aberta. O vento entrou… mas sem som. Nenhuma folha tremia. Nenhum pássaro cantava. Ele chamou pelo seu gato, Billy, mas não ouviu nem os sons das patinhas batendo no chão. Nem o miado.
Foi como se o mundo tivesse prendido a respiração.
Alan ficou paralisado. Tentou bater palmas — nada. Nem o estalo ecoou.
Seu bastão caiu no chão — nenhum som.
E então, no meio do vazio absoluto, ele ouviu um passo.
Um só.
Seco. Lento. Muito perto.
Alan se virou com o coração disparado. Mas não havia eco, não havia pista. Era como se o som tivesse escapado do silêncio, sem querer. E agora ele sentia... que aquilo — o silêncio — percebeu que ele percebeu.
Depois daquele dia, Alan tentou manter o som vivo. Ligava todos os rádios ao mesmo tempo. Deixava o gás da chaleira assobiar por horas. Falava sozinho, lia em voz alta, batucava nas paredes. Dormia com uma música de fundo, por menor que fosse.
Mas o silêncio vinha mesmo assim.
No início, uma vez por mês. Depois, uma vez por semana. Depois, todas as noites.
E a cada vez que ele surgia, o passo estava mais perto.
O silêncio não era uma ausência. Era uma presença. Uma coisa que se alimentava daquilo que Alan mais amava: os sons que o mantinham seguro.
Na última gravação deixada por ele, apenas uma frase é sussurrada no gravador, com a voz tremendo:
— “Se você não pode ver, o som é tudo. E quando ele acaba… alguma coisa vê você.”
A gravação termina com silêncio.
Mas se você escutar com fones, bem no fundo, lá pelos últimos dois segundos… dizem que dá pra ouvir.
Outro passo.
