Eu odeio o inverno. Não pelo frio em si, mas porque cada floco de neve que toca o chão me lembra de como tudo mudou.
Quando Amarantha estabeleceu seu reinado em Prythian tudo se tornou instável, eu vivia na Corte Primaveril com minha mãe, perto demais das fronteiras do reino humano. A fome já era nossa companheira, mas isso não nos apavorava tanto quanto o tributo cobrado duas vezes ao ano, um próximo do solstício de verão e outro de inverno, minha mãe nunca me deixou ir com ela, mas daquela vez, eu iria com ela. Não para me curvar mas para olhar nos olhos do Grão-Senhor e perguntar se ele realmente acreditava que era justo exigir tributos de um povo que já não tinha sequer o que comer.
Minha mãe me encheu de ideias apressadas, não comparecer ao tributo, fugir para outro continente, desaparecer. Na época, achei que fosse coragem. Hoje, entendo: era medo. Medo do que minha petulância poderia fazer comigo. E naquele desespero silencioso, agarrei a primeira saída que brotou em sua mente, tão assustada quanto a minha.
Eu aceitei. Não por acreditar que daria certo, mas porque não suportava mais ficar. Pegamos o pouco que tínhamos, quase nada, e corremos. Com os pés calejados e o coração em carne viva, fugimos em direção ao porto, em busca de qualquer navio, qualquer rumo desde que fosse longe dali. Longe da Corte Primaveril e longe de Prythian.
A neve caía como se quisesse nos engolir. Meu manto pouco fazia contra o vento cortante, e eu tremia, embora hoje eu saiba que não era apenas o frio, mas o medo que me fazia estremecer. Fomos capturadas antes mesmo de alcançar o porto. Interceptadas e levadas à força para sob a montanha. Desde então, nunca mais vi minha mãe.
Dizem que o destino de todos os prisioneiros é a morte. Nos primeiros, tentei procurá-la, descer até as celas, descobrir ao menos onde os corpos eram descartados. Queria me despedir, dar-lhe um funeral digno. Mas Amarantha não permitiu. Ela não gostava da minha insistência, e deixou claro que emoções eram fraquezas. Segundo ela, eu não podia me dar ao luxo de demonstrá-las.
Ela é a pior pessoa que já conheci.
Eu deveria odiá-la, repudiar cada uma de suas decisões cruéis, sentir aversão só de ouvir seu nome. Mas ela me deu comida quando a fome me rasgava por dentro. Cobriu meus ombros quando o frio queria me apagar. Não me deixou morrer mesmo tendo executado todos os outros na cela.
Quando se perde tudo, até uma migalha parece um presente e a gratidão nasce da carência desesperada de ser visto, lembrado, poupado.
— Liv, Vossa Majestade aguarda você — diz um dos servos, interceptando meu caminho no corredor e agarrando meu braço com força demais.
Me solto, bruscamente, a raiva queimando sob a pele. Se eu contasse a ela sobre isso, ele estaria morto antes do pôr do sol. Por algum motivo, ela sempre me protegeu. Qualquer um que ousasse me tocar sem permissão acabava morto. Por isso, grande parte dos servos me odeia. E o resto finge que eu simplesmente não existo.
Caminho até seus aposentos, pomposos e sufocantes. Bato à porta, não demora até que ela se abra. Lá está ela, envolta em um robe vermelho-escuro, da mesma cor de seu cabelo. Os olhos dela me examinam, intensos como sempre.
Entro... e então o vejo.
Rhysand está deitado em sua cama, uma única coberta jogada de maneira descuidada sobre suas pernas. Seu tronco nu brilha à luz suave do aposento. Meu rosto aquece de imediato. De repente, os meus próprios pés se tornam a coisa mais interessante do mundo.
— Olhe para mim — ordena Amarantha
Levanto os olhos. Ela está sentada agora ao lado de Rhysand. Os olhos dele parecem vazios, sem brilho. Mas sua expressão carrega aquele eterno desdém como se minha presença fosse irrelevante, como se eu não fosse nada. Isso me constrange ainda mais, e por um instante, sinto vontade de desaparecer.
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Corte de Sonhos e Mentiras
FanfictionEm uma corte onde até os sentimentos são controlados, amar pode ser a maior das traições. Quando Amarantha usurpou o poder dos Sete Grão-Senhores e se coroou Grã-Rainha de Prythian, o reino mergulhou em sombras. Na tentativa desesperada de sobrevive...
