MEIO

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Liberta-dores

Sou defasada de começos. Não sei como iniciar, tenho somente o meio e fim em meu âmago, como um planejamento bobo no qual rouba a incerteza se dará certo, recupera a confiança tola e me engana com palavras lindas. Sinto que términos são mais confortáveis que inícios; podem carregar fragilidades, traumas, medos e mazelas mas nunca será tocado pela a esperança inútil que o universo é a força maior, a duvida se o outro sente o mesmo e se um dia pequenos atos de carinho se tornaram frases chorosas no altar de uma igreja. São difíceis por si só, mas são os únicos no qual a realidade é a última saída. Em todas as relações que observo, noto que há uma esperança doce que os melhorias dias podem vim, me encarrego quando acontece de sorrir, planejar as melhores frases para que a quebra de confiança no futuro não seja tão melancólica, e quando me vejo, estou ocupada demais pensando como fazer o paciente encarar a verdade, sem o querer fazer sentir dor. Mas, para quem estou mentindo? Ela é inevitável, independentemente de minha vontade, irá acontecer. Sobretudo, para a mulher em minha frente a sensação que me desperta é outra; Uma prisão bem cuidada, mantém um bom cardápio de refeições durante a semana e nos fins come pizza com qualquer vinho. Dorme em uma cama confortável com o lençol a cheiro de lavanda, acorda com despertador irritante e fingi abrir as janelas, arruma a bagunça dos dias e no final da tarde aprecia um bom café com bolachas doces de amendoim. É caricato, ventoso como um dia quente, porém, com clima agradável, e leve como os passos de uma criança de 5 anos,um sorriso de uma senhora de 80. O sentimento é bom, aqueles que nos agarramos para não fugir, que matamos mesmo sem perceber apenas para a felicidade, e que não nos importamos com um enterro medíocre a sina da existência. Vidas assim, guiadas por motivos de se manter pequenos são em sua maiorias adoráveis, mas com tanta ignorância que ainda possuo, posso afirmar que são essas prisões escondidas atrás do romantismo que sãos as mais falsas, podres, nojentas e cruéis que o ser humano pode experimentar. E que me provoca a maldita sensação que me causa é que a morte está perto.

Então, como irei lhe contar os fatos? Se uma vez, eles sãos os únicos que carregados de poder? A verdade em qualquer contexto é preferível?

Deixe-me cega pela verdade, que a luz seja maior que a resistência de minhas iris, que seja eu a maldita vítima da realidade. Enquanto não for eu a sangrenta da situação, irei sobreviver. Mas não posso, quando uma vez sei como ninguém que dores não foram feitas para serem compartilhadas.

Que os fatos roubem sua vida, provocando sussurros frios em tentativa de acabar com a existência.

O pior disso tudo, é que será Margo a assassina.

"Foi mais um aborto, enquanto após todos eles eu contínuo a desejar ser mãe. Não de 4 filhos falecidos, mas de 1 com vida.."

Suas lágrimas corriam dolorosamente pelo rosto branco, covinhas se abriram em um sorriso forçado e melancólico enquanto a sala se mantinha quieta. Não acostumo criar devaneios bobos, mas se tudo fosse uma fábula ou uma coletânea de contos infantis o silêncio estava escondido no canto da sala. Era escuro e choroso, secava lágrimas grossas com seus dedos longos e unhas compridas. O seu sorriso uma vez cheio de dentes, olhos regalados e bochechas rosadas se tornaram uma risada baixa, cílios longos acima dos olhos fechados, sua alma, era corrompida pelo desconforto de transformar tudo em uma peça indesejada, uma visita nunca convidada.

Com embargo, eu ali, uma poltrona a frente da suicida, abocanhando meus medos e duvidando de minha própria capacidade.

"Talvez eu nunca nasci para ter o que eu quero."

"Não. Você está errada."

Expulsou o silêncio do canto, e com outra lágrima grossa ele vai embora. Minha voz, que se manteve tão calada, se faz presente, roubando sua atenção e seus olhos hortelãs ligeiramente avermelhados.

Não sinto o quão ferida está em ouvir a cada tentativa de como fracassa. Ninguém fala diretamente isso para você, nem médico olhara para sua pessoa e será tão desgraçado em agir como se fosse apenas um corpo infértil, com dificuldade de se reproduzir, até mesmo nenhuma psicóloga irá preferir frases tão baixas no qual elas são verdadeiras. Margo, quero que entenda: poderá buscar milhares de seres profissionais, mas só você sabe a sua dor, mesmo que todos olhem para ti com iris doces e palavras no qual fingi sentir; no máximo sentimos compaixão, mas a dor que roem o seu âmago, que come a cada data de aniversário o seu ventre e enforca sua garganta com lágrimas infelizmente, somente você senti..-

O refresco de seus olhos desviaram dos meus, soltando finas águas salgadas enquanto em suas mãos amassava o lenço pequeno que carregava. Voz escondida invadia em um choro pequeno, enquanto seus cabelos cor por do sol caiam em cascata por seus ombros. A dor era palpável, a cada palavra minha atingia um ponto particular em sua pessoa, todavia, mesmo que minha voz fosse uma lança afiada contra a ferida aberta seria a única maneira de a curar. Em muitas vezes, a realidade só tem dor.

"Você não precisa de palavras doces, você precisa entender a verdade que está diante de ti: Não há culpado por cada feto morto, não é culpa do seu marido, do seu Deus e tão pouco de você! Não há nada de errado em seu corpo, ele só faz aquilo que é melhor para si mesmo, expele um ser no qual futuramente irá acarretar danos permanentes para ti, e consequentemente ao futuro do feto. Mas se algo realmente está errado, é sua cabeça. A dor quando não mata fortalece..uma vez você falou em uma sessão que tivemos, mas quando ouvi isso foi acorrentada por uma dúvida: A quanto tempo ela está te matando? Margo..você se sente mais forte após a morte de cada um de seus filhos?"

Lágrimas altas roubavam sua voz. Porém, foi respondida por uma negação de cabeça o suficiente para prosseguir o desalento de minhas palavras

"Dores são necessárias para o crescimento, mas não obrigatórias por toda a vida. O peso que você sente deixou de ser algo fora do controle e se tornou uma martirização, tortura de seu próprio ser. A cada tentativa, mesmo tantas vezes sabendo que seu corpo não irá gerar outras vida, você continua! Percebe-se agora que a única dor que você precisa e parar de querer se matar?! É difícil, não sinto, mas só de pensar o que é estar em sua pele sou capaz de notar o qual doloroso isso é,você ainda é responsável por sua felicidade, a sua existência..não terceirize essa responsabilidade para os outros ainda mais quando esses outros já não existe mais, ou nunca existiu... O cansaço irá acabar se desejar o melhor para si mesma, irá ser uma ótima mãe quando notar o que realmente quer"

Minhas pernas criam autonomia própria, se levantando para estar ao lado na poltrona marrom junto com a loira. Sou capturada por uma vontade atrapalhada de tomar seu rosto molhado com as mãos, e secar todas as lágrimas, até mesmo aquelas que ainda iram brotar.

"Meu amor, entenda que a paixão de ter uma vida nos braços se tornou uma obsessão. Infelizmente, se transformou em uma prisão no qual você está sempre lutando para passar para a próxima ultrassom, natal e meses de gestação. Irá ser uma bela mãe, porque você já nasceu com a beleza, mas não acabe com sua própria vida com dores que nunca iriam ser recompensadas, reforme a ideia de ser alguém para alguém, pense na realidade de ser alguém para você! Ame a si própria, e só assim será capaz de amar outro ser...não existe só um caminho a ter um filho, mas o caminho que está traçando não é mais por amor, você sabe que se tornou apenas um ódio do fracasso, a dor por si mesma."

"O choro intenso era capaz de ser ouvido fora da sala, o que dentro era um som de libertação de sua prisão bem cuidada. Invadi sua privacidade, enlaçando os braços em seu ombro no qual foi recebida por um abraço profundo, um choro com um grito fino e lágrimas que inundavam minha blusa."

Nunca foi verdadeiramente boa com inícios, mas adoro fins, mesmo trágicos e complexos eles ainda são os mais liberta-dores.

AmorWhere stories live. Discover now