Era dia 24 de junho de 2017, o sol estava se pondo e eu e minhas amigas, Carol e Ana, estávamos passeando por Guararema com traje de caipiras por diversão. Sempre gostei de me fantasiar e comemorar as datas. Quase todas as datas, conseguia arrastar as duas para se vestirem comigo.
Estava esfriando e eu estava na frente da igreja, sentada na praça comendo pipoca, vendo a fogueira queimar sozinha depois que as duas sumiram e provavelmente estavam em algum lugar beijando algum garoto. Senti um peso cair sobre minhas costas e dei um pequeno pulo de susto quando senti duas mãos encostando levemente meus braços.
- Posso me sentar? - Dezoito, talvez dezessete no máximo, era a idade que aquele rapaz deveria ter com seus cabelos mais compridos do que da maioria dos homens, barba feita e olhos, que olhos, verdes e brilhantes. Não tive muito tempo para reagir por ter ficado mais tempo do que queria analisando seu rosto - Está esfriando, não acha? - Ele logo se sentou no banco, olhou para a fogueira, que pude ver refletir nos seus olhos, voltou seu olhar para mim e, tenho certeza que por alguns instantes, o rosto dele mudou para um ar surpreso quando nossos olhos se cruzaram. Logo depois, voltou para um ar relaxado.
Me toquei que o peso nas costas era um casaco escuro, nessa hora, o sol estava atrás das montanhas que tem por volta de Guararema, e a iluminação mais forte era a da fogueira, então "escuro" servia para a cor do casaco. Era grosso e estava quente, talvez ele estivesse usando e o colocou sobre mim, a louca de vestido de caipirinha no meio da praça, com a temperatura beirando os 13°.
Estava sem jeito, começando a ficar nervosa. Desde que ele sentou, minha única ação foi puxar meu cabelo, me certificando que ele estava cobrindo minha orelha. Depois disso, apenas mantive a mão agarrada ao saquinho de pipoca.
Quantos minutos restavam? Acho que um, depois disso ele iria embora, como todos os outros garotos que já se aproximaram de mim.
Aos 17 anos, não ter um namorado, ou nem ao menos um garoto que tenha gostado de mim de verdade, era frustrante. A autoestima sempre estava baixa, as prateleiras cheias de romances e todas as noites eu olhava pela janela a lua esperando o milagroso, e único nesta cidade, Romeu, aparecer no portão de casa chamando pelo meu nome. Mas nunca aconteceu e só Deus sabe quando aconteceria.
Por isso que estava me esforçando para conseguir estudar em São Paulo, a cidade de pedra que não dorme. Mais pessoas, mais chances de encontrar meu par e ser feliz. Mas, e se meu futuro marido já estiver namorando? Preciso me apressar e não o deixar conhecer ninguém antes de mim.
- Imagino que não goste muito de conversar. - Dei um pequeno pulo novamente, e ele me acompanhou nesse, se assustando com meu susto. Tinha esquecido completamente que ele estava ali enquanto mergulhava nos meus pensamentos - E tá tudo bem não gostar, alias eu sou um estranho. - Suas mãos estavam abertas, com as palmas viradas para mim, na altura do peito, como se pedisse desculpas por ter me ofendido.
Ele ainda estava aqui. Devo ter contado errado, mas se eu conferir o relógio vai ser muito rude, e aí de fato ele vai embora.
Depois de alguns segundos olhando fundo nos seus olhos, voltei-me constrangida para o saquinho de pipoca, ainda pela metade. Queria terminar, mas minhas mãos não respondiam, talvez pelo frio, talvez por ter um garoto muito bonito do meu lado, tentando puxar assunto.
Se eu pegar uma pipoca também seria rude da minha parte? Acho que as meninas não vão voltar, melhor eu ir pra casa.
Preciso devolver o casaco pra ele, mas não posso simplesmente tirar e dar pra ele.
Ai Juliana, você precisa se mexer, pelo menos, já que não abre a boca.
Dei um terceiro, leve, pulo, quando senti sua mão quente tocando meu braço descoberto. Por reflexo, puxei o braço e o olhei assustada, derrubando um pouco da pipoca. Nossos olhos se encontraram novamente e ele soltou um leve sorriso.
Desculpa. Só queria dizer que pode falar comigo como achar melhor.
O que era isso? Como ele?
Eu vi quando coloquei o casaco em você, mas só tive certeza depois.
E ele continuou sentado comigo.
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Luz da noite
Short StoryUma festa, um casal. Quando onde você menos espera se torna o local de inicios.
