São Vicente era uma cidade que misturava ruas arborizadas com prédios antigos cheios de história, mas também tinha aquele cheiro de mofo e um ar de abandono que irritava quem prestava atenção. No meio disso, a Escola Estadual Professor Alberto Silva se destacava, com suas paredes brancas meio descascadas e um interior modernizado que parecia forçado. Era setembro, o sol castigava, e a sala do 2º ano do ensino médio estava um forno, com a luz entrando pelas janelas e batendo nas carteiras velhas de madeira.
Hugo, 16 anos, olhos castanhos e um sorriso que ele raramente usava ali, estava largado numa mesa perto da janela. Tamborilava os dedos no caderno, pensando em riffs de guitarra enquanto ignorava o mundo ao redor. Música era o que importava pra ele — na escola, ele era só mais um, rabiscando letras nas margens das folhas em vez de estudar. O barulho dos outros alunos enchendo a sala com conversas idiotas e bolinhas de papel não o tirava do transe.
Aí a porta rangeu, e uma garota nova entrou. Eloa, cabelo liso caindo pelos ombros, segurava a mochila como se fosse se defender de algo. Olhou a sala lotada, viu o lugar vazio do lado de Hugo e foi direto pra lá. Sem dizer nada, jogou a mochila na carteira e sentou, como se ele nem existisse.
Hugo virou pra ela, já puto.
— Ei, porra, você não vai nem perguntar se pode sentar aí? — soltou, o tom mais grosso que o normal.
Eloa nem piscou, só levantou o olhar com uma cara de quem não tá nem aí.
— Desculpa, não vi ninguém importante aqui. E, olha só, não tem outro lugar — respondeu, com um sarcasmo que já deu nos nervos dele.
— Vai se foder, então — murmurou Hugo, voltando pro caderno e riscando com força, como se quisesse furar a folha.
Nisso, a professora de história, Valéria, entrou. Uma mulher de meia-idade, óculos finos, coque ridículo e uma pilha de livros que jogou na mesa com um baque.
— Bom dia, seus preguiçosos! Hoje é Revolução Industrial, então prestem atenção pra variar — disse, já ajustando os óculos e começando a rabiscar no quadro.
A aula começou, mas Hugo e Eloa pareciam estar em guerra fria. Enquanto dona Clara falava sobre máquinas e fábricas, Hugo se inclinou pra Eloa.
— Essa aula é um cu. História é só perda de tempo — disse, baixo, testando ela.
Eloa virou pra ele, os olhos faiscando de raiva.
— Fala isso de novo, seu burro. História é foda, você que é um ignorante que não presta atenção — retrucou, sem abaixar o tom.
Hugo ficou vermelho, surpreso com o ataque.
— Vai à merda. O que tem de legal em ficar decorando um monte de merda de gente morta?
— É sobre não ser um idiota que repete os mesmos erros, mas você claro, prefere ficar no seu mundinho de barulhinhos de guitarra — disse ela, cruzando os braços.
— Você não sabe porra nenhuma de mim, novata — rebateu Hugo, quase gritando.
— Hugo! Eloa! Calem a boca agora! — gritou Valéria, batendo a mão na mesa.
Os dois se entreolharam com ódio, mas ficaram quietos. O resto da aula foi um silêncio pesado, cada um no seu canto, fervendo por dentro.
Quando o sinal tocou, Hugo levantou e saiu pisando duro. No corredor, viu Eloa indo embora e, sabe-se lá por quê, correu atrás.
— Ei, espera aí, caralho — chamou.
Eloa parou, virando com cara de quem já tava cansada dele.
— Que foi agora?
— Tá, talvez eu tenha sido um babaca. Mas você também não ajuda — disse Hugo, coçando a nuca, irritado consigo mesmo.
Eloa bufou.
— Você é um grosso filho da puta, mas eu também não sou santo. Desculpa se fui escrota. Gosto de história, só isso.
— Beleza. Quer tentar de novo? Posso te mostrar essa cidade de merda depois da aula — sugeriu ele, sem muita paciência.
Eloa pensou, depois deu de ombros.
— Tá, foda-se. Vamos.
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A tarde foi um desastre esperando pra acontecer. Hugo levou Eloa pro centro histórico, mas tudo virou motivo pra briga. Enquanto andavam pelas ruas tortas de pedra, Eloa olhou pros prédios antigos.
— Essa cidade é foda, tem um charme — disse, pegando o celular pra tirar foto.
Hugo deu uma risada debochada.
— Charme? Isso aqui é um lixo, só prédio velho caindo aos pedaços e rua fedendo a mijo.
Eloa parou na hora, encarando ele.
— Você é cego ou só burro? Olha essas fachadas, a história que elas têm!
— Lá vem você com essa porra de história de novo. Parece uma nerd chata pra caralho — disse Hugo, chutando uma lata no chão.
— E você é um idiota que não vê nada além do próprio nariz. Não sabe apreciar porra nenhuma — retrucou ela, quase gritando.
— Então vai tomar no cu, fica aí com seus prédios podres — disse Hugo, virando as costas.
Mas aí ele parou, respirou fundo e voltou.
— Tá, vamos tomar um sorvete antes que eu te deixe aqui mesmo.
Na sorveteria perto da praia, a coisa não melhorou. Hugo tentou puxar papo sobre música, mas Eloa parecia estar em outro planeta.
— Você toca piano, né? — perguntou ele, lambendo o sorvete de morango.
— Toco, mas sou uma merda — respondeu ela, mexendo no sorvete de chocolate.
— Eu toco guitarra. Talvez a gente pudesse tocar junto, sei lá — disse Hugo, já sem muita esperança.
— Sei lá, você é meio irritante pra isso — disse Eloa, sem nem olhar pra ele.
Hugo sentiu vontade de jogar o sorvete na cara dela, mas segurou.
Quando o sol caiu, eles voltaram calados. Na porta da casa dela, Hugo não aguentou.
— Sabe, você é uma chata pra caralho. Não sei nem por que eu tentei.
Eloa riu, mas sem humor.
— E você é um escroto insuportável. Mas, sei lá, talvez a gente possa tentar não se matar sendo amigos.
— Talvez — disse Hugo, já virando pra ir embora.
Eloa entrou, subiu pro quarto e escreveu no diário: "Hugo é um cuzão, mas tem algo nele que não me deixa desistir ainda." Hugo, em casa, pegou a guitarra e tocou uma música nervosa, pensando que aquele dia tinha sido uma merda, mas que, por algum motivo, ele não conseguia largar de vez.
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é o 1⁰ cap da fic! ficou bom?
aceito sugestões!
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