Capítulo 1 - O homem por trás da cicatriz

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Prólogo: A Noite do Sussurro

A chuva batia insistente contra a vidraça do meu loft, um apartamento minúsculo no último andar de um prédio antigo no centro da cidade. O som era reconfortante, combinando com o lento whisper do meu fone de ouvido e a página do livro que virava. "Wuthering Heights". Heathcliff e sua paixão destrutiva. Eu me encolhi no enorme sofá de veludo vermelho, meus enormes cabelos ruivos – uma herança da minha avó irlandesa – formando uma cascata sobre os ombros e o braço do móvel.

Meu nome é Elara. Dezoito anos, órfã desde os dezesseis, vivendo de uma modesta herança que me permitia esse refúgio de livros, telas de pintura e solidão escolhida. Meu corpo em forma de ampulheta, com curvas generosas que sempre atraíam olhares indesejados, era escondido sob um roupão de cetim preto. Eu gostava do meu isolamento. Era seguro. Previsível.

Até que a energia acabou.

Um estalo seco, e todo o loft foi engolido pela escuridão, silenciada apenas pelo tilintar repentino da chuva. A música parou. Apenas o bater do meu coração, acelerado pelo susto, ecoou nos meus ouvidos. Respirei fundo. Apagão. Acontece neste bairro velho. Vai voltar.

Tateei no escuro até a janela, afastando a pesada cortina de veludo. A rua lá embaixo também estava escura, apenas os faróis ocasionais de um carro cortando a negritude. Nenhuma luz em nenhum prédio. Um apagão geral.

Foi então que ouvi. Não um som da rua, mas dentro do apartamento. Um rangido suave, quase imperceptível, como o de uma tábua de assoalho sob um peso que não deveria estar ali.

"Quem está aí?" Minha voz saiu trêmula, mais alta do que eu pretendia.

Silêncio. Depois, outro rangido. Mais perto. Vindo da direção da porta da frente, que eu tinha certeza absoluta de ter trancado.

O medo, gelado e afiado, alojou-se na minha garganta. Recuei da janela, meus pés descalços encontrando o chão de madeira fria. Eu não tinha armas. Meu celular estava carregando na cozinha, morto como todo o resto. Meu único refúgio seria o quarto, mas a porta estava do outro lado da sala aberta, passando pelo corredor estreito onde o som parecia vir.

Corri. Não pensei. Instinto puro. Meus pés voaram no chão escuro, meus braços estendidos à frente. Eu quase consegui. Minha mão tocou a maçaneta gelada do meu quarto quando algo – não, alguém – muito maior, muito mais sólido, saiu das sombras e me pegou.

Um braço de aço envolveu minha cintura, levantando-me do chão como se eu fosse uma pena. Outra mão, enorme e com luvas ásperas, tapou minha boca, abafando meu grito antes que ele pudesse nascer. Eu me debati, meus pés chutando o ar, minhas mãos arranhando o braço que me prendia. Era inútil. Ele era uma fortaleza.

"Pare de lutar." A voz era um sussurro rouco, arrastado, como se as cordas vocais tivessem sido danificadas. Não era um tom de raiva, mas de... exaustão? "Não vou machucar você... ainda."

Ele me carregou de volta para a sala, para o pequeno círculo de penumbra perto da janela. Lá, a luz fraca da lua, filtrada pela chuva e pela névoa, iluminou brevemente o rosto do homem que me segurava.

Meu sangue gelou. Eu conhecia aquele rosto. Todo mundo na internet conhecia. O cabelo preto e oleado, caído sobre a testa. A pele pálida, quase cadavérica. E os olhos... Deus, os olhos. Eles não eram totalmente negros, como nas lendas. Eram de um cinza azulado, profundo e intenso, como o mar antes de uma tempestade. Eles cintilavam com uma inteligência aguda e uma dor tão profunda que, por um instante, meu medo deu lugar a uma pontada de empatia absurda. Mas então minha visão focou no resto: os lábios puxados para trás em um grotesco sorriso permanente, cortados em cada extremidade, revelando dentes irregulares e as gengivas pálidas por trás. As cicatrizes grosseiras, como queimaduras ou cortes mal curados, que se estendiam pelas bochechas e pescoço.

Apresento... Jeff the killer Where stories live. Discover now