A noite está fria, e o azul profundo do céu já tomou conta de tudo. Lá fora, apenas o som do vento cortando o vazio, carregando poeira e sussurros desconhecidos. Mas aqui dentro, tudo é escuridão e pedra. Minha prisão. As paredes são sólidas, intransponíveis, seladas por rochas empilhadas sem frestas. Apenas um pequeno buraco, do tamanho da palma da minha mão, me conecta ao mundo exterior.
Por ele, sinto o ar gelado roçar minha pele, mas nada vejo além da escuridão infinita.Como será o lado de fora desta caverna? Será que ainda existe algo esperando por mim lá fora?
Papai disse que eu deveria me alimentar mais, porque estou muito fraca. Ontem à noite, ouvi sua voz ecoando pelas paredes enquanto discutia com mamãe. Ele insistia que eu precisava de sangue, não de comida humana, mas ela discordava. Dizia que os testes no laboratório não foram o suficiente, que não adiantaria.
Semana passada, mamãe veio até aqui. Passou pela parede como se fosse ar, atravessando a pedra fria com magia. Eu a observei, fascinada.
— Me ensina a fazer isso! — pedi, empolgada.
Ela sorriu de canto, mas sua resposta veio firme:
— Você não pode aprender isso agora. Ainda não está pronta, minha pequena.
— Mas por quê?
— Porque você ainda é uma criança indefesa... Mas logo será a mais forte de toda Prythian.
Franzi a testa.
— Mas por que eu preciso ser forte?
O brilho negro de seus olhos se intensificou. Mamãe abaixou-se até ficar na minha altura, e sua voz saiu como um sussurro afiado:
— Para que todos se curvem diante de nós.
Ela me fitava como se visse algo que eu ainda não conseguia enxergar. Seus cabelos curtos, vermelhos como fogo, moviam-se sozinhos, como se fossem feitos de chamas vivas. Meu coração acelerou. Eu queria perguntar mais, mas não consegui. Algo naquela resposta me deixou inquieta.
Ela se aproximou e, com delicadeza, retirou meu sangue. Suas palavras eram gentis, mas seus olhos, sua expressão... transmitiam algo diferente. Nojo. Nojo ao me tocar. Era estranho.
Eu ficava confusa sobre como mamãe cuidava de mim. Seu toque era leve, quase carinhoso, mas assim que o frasco se encheu com meu sangue, seus olhos brilharam de satisfação. Um sorriso surgiu em seus lábios, como se estivesse prestes a fazer algo grandioso. E então, como se de repente se lembrasse do que eu era, seu olhar se tornou frio, desdenhoso.
— O que vai fazer com isso? — perguntei, tentando esconder minha curiosidade. — Vocês sempre pegam meu sangue. Ou um fio do meu cabelo. Já arrancaram um dente meu. Por quê? Para onde levam tudo isso?
Ela não respondeu. Apenas segurou o frasco com firmeza e virou-se, como se minhas perguntas não merecessem atenção.
Uma vez, li em um livro que crianças brincavam de boneca. Desmontavam, trocavam peças, e depois montavam de novo. Eu nunca vi uma boneca de verdade, mas... me sentia como uma.
Uma boneca que eles desmontavam aos poucos, retirando partes e levando para aquele laboratório que eu nunca vi, que eu nem sei onde fica. Mas sei que já estive lá. Uma vez, me levaram.
Eu não lembro de nada.
A única coisa que sei é que acordei novamente nesta caverna. Papai estava lá, me observando com um olhar estranho, analisando cada detalhe meu.
— Você se comportou direitinho — ele disse, sua voz suave demais, como quem tenta não despertar suspeitas. — Só ficou dormindo o tempo todo.
Depois, inclinou-se um pouco mais e me fitou nos olhos.
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Véu de Fogo e Névoa
FanfictionAnny viveu presa na escuridão, esquecida pelo mundo. Eris a encontrou através de um espelho. Azriel sente que algo o chama. Três destinos entrelaçados por segredos, poder e uma verdade que nunca deveria ser descoberta.
