NUM FUTURO POUCO DISTANTE...
...Não era nem a primeira e infelizmente nem a última vez que Jenni dormiria ao relento, ali na serra do mar o ar era mais pesado e mais úmido e isso era sentido nas roupas que logo ficavam molhadas ao seu lado estava já adormecido, Ranger seu pastor alemão inteiramente preto que era seu único amigo nesse mundo.
O sono não viria com facilidade qualquer barulho na mata assustava na verdade desde que acordou nesse mundo ela nunca mais conseguiu ter uma noite de sono completa e revigorante talvez nos momentos em que passou com o Sr. A, mas precisava chegar ao porto de Paranaguá o quanto antes e faria isso não importa o que custasse.
Entre um cochilo e outro Jenni logo viu os primeiros raios de sol adentrarem a serra através das aberturas nas rochas que agora estavam tão perto quanto poderiam estar, a vegetação estava bem grande e muitos animais haviam aparecido nesse meio tempo e Jenni os via de longe observando com cautela. As vezes passava pela sua cabeça que o mundo estava melhor sem os humanos tudo parecia fluir melhor de forma mais natural.
Decidiu levantar e comer o desjejum; um pão velho e um pouco de suco, jogou um pedaço para Ranger logo juntou suas coisas e estava de pé pronta para seguir sua decida através da envelhecida Estrada da Graciosa que já não estava em seus melhores dias, cheia de vegetação crescendo através de seus paralelepípedos escorregadios, até algumas pequenas arvores estavam agora no meio da estrada parecia que haviam passado trinta anos pelo estado que estava.
Com Ranger ao seu lado sempre cheirando e verificando o lugar, Jenni desceu devagar suas botas estavam desgastadas e com alguns pequenos furos o que não incomodava tanto, parece que seus pés também se adaptaram ao novo mundo.
Desde que entrou na estrada Jenni tinha um sentimento que alguém a observava e isso a deixava com medo, mas Ranger não havia latido nem rosnado nenhuma vez então se sentia mais segura, porem ficava atenta e com a sua faca na mão, sua arma continuava na sua mochila descarregada esperava não precisar usa-la novamente à última vez ela não queria nem lembrar.
Algo logo a frente fez o coração de Jenni disparar, uma antiga ponte construída para a travessia havia despencado e uma grande cratera se formou, restava para ela duas alternativas, tentar descer ou se arrastar pela beirada da cratera e seguir a estrada. Descer parecia perigoso demais, um passo em falso significaria a morte ou pelo menos alguns ossos quebrados, ela não estava disposta a correr o risco então iria se arrastar pela beirada da cratera, mas e Ranger como faria pra levar o cachorro com ela. Sentou no chão para descansar e pensar no que fazer olhou em volta procurando algo que a ajudasse na travessia, só havia madeira alguns galhos, o resto de uma fogueira chamou sua atenção, pegou sua faca e colocou junto ao peito, a adrenalina subiu olhou em volta procurando por pessoas não havia nada nem pegadas, a fogueira era antiga ela percebeu quando chegou mais perto. Ali viu alguns troncos nenhum com a espessura suficiente para que ela pudesse caminhar em cima, a distância que percorreria se arrastando através da cratera era de uns quinze a vinte metros, era um paredão pedregoso que parecia bem irregular e perigoso impossível Ranger conseguir passar por ali. Como levaria o cachorro a pergunta permanecia, nunca que Jenni o deixaria ele já havia a salvo muitas vezes e era sua única companhia e em quem ela confiava. Em sua mochila tinha uma corda que havia encontrado na loja de departamentos do Sams Club. A corda devia ter mais ou menos 15 metros o problema era que Jenni não confiava que aguentaria puxar Ranger caso ele caísse o animal era bem pesado. Não havia uma resposta exata, ela teria que escolher, decidiu tentar se arrastar e ver se do outro lado achava algo que a ajudasse a puxar o cachorro.
- Ranger senta! -gritou a ordem para o pastor alemão-.
O cachorro que parecia ter tido algum treinamento acatou a ordem e ficou sentado quieto próximo borda da cratera.
A garota tomou coragem e colocou o primeiro pé na parede que havia sido uma ponte e agora é um espaço que caberia apenas o pé de uma pessoa de lado, se segurou em uma rocha, logo colocou o segundo pé e começou a se arrastar, algumas pedrinhas soltaram e caíram no foço que parecia nem ter fundo tamanho era a escuridão dentro dele. Cada passo o coração de Jenni batia mais forte e o suor em sua testa escorria as vezes em seus olhos o que dificultava a tarefa ainda mais, olhou para Ranger que permanecia sentado e a olhando fixamente. Parecia que o tempo não havia passado e Jenni estava parada, porem dava seus passos cada vez mais devagar em um momento pensou em voltar, mas já estava no meio do caminho ia ser o mesmo trabalho até que pisou em falso algumas pedras rolaram e seu pé ficou pendurado, suas mãos estavam segurando firme enfiaram as unhas na parede, parou um pouco e recolocou o pé na parede e respirou fundo.
- Calma garoto estou bem, fica sentado.
O cachorro ao ver a quase queda da dona estava na beira da cratera, havia levantado e estava com a língua de fora olhando atentamente e bem agitado.
Ficou parada um tempo, mas percebeu que até pra ficar parada estava gastando energia e resolveu se arrastar mais rápido e acabar logo com aquilo, foi o que fez algumas vezes as pedras se soltavam, mas ela não desistiu em algum momento ela percebeu algumas pedras e areia caindo de cima, quando olhou pra cima a visão fez seu coração quase sair pela boca, uma rocha redonda mais ou menos dez metros a cima dela estava protuberante e com sinais que iria cair a qualquer momento. No desespero começou a ir mais rápido faltava apenas mais uns três metros para atravessar e os tremores começaram. A rocha parecia se mover. Dois metros para chegar sua mão escapou e por muito pouco não caiu, um metro agora o sentimento de que conseguiria acendeu uma chama dentro de seu peito. Um barulho muito alto reverberou na serra era a pedra caindo como se o momento fosse em câmera lenta no impulso Jenni se jogou e conseguiu cair do outro lado cratera. A rocha passou e com um estrondo entrou na cratera com ela veio muita poeira, areia e pedregulhos menores, a garota defendeu a cabeça com as duas mãos e só sentiu a batida de algumas pedras em seu corpo. A poeira começava a se dispersar e com medo ela olhou a procura de Ranger porem não conseguia ver nada além de poeira...
Começou a hiperventilar parecia que ia desmaiar começou a lembrar que desmaiava muito quando acordou nesse “novo” mundo...
Num susto ela acordou, e sentiu suas costelas doerem, percebeu que estava em uma cama o que era muito estranho, será que era mais um de seus sonhos, mas logo viu algo que a fez perceber que não, estava amarrada a cama, com uma corda bem presa, olhou em volta parecia um quarto comum porem sem nenhuma janela, começou a respirar mais rápido, pensou em Ranger o que teria acontecido com seu cachorro, e suas coisas, a arma em sua mochila e seus outros utensílios.
Ficou imóvel por mais umas duas horas até que a porta do seu quarto se abriu.
- Boa tarde.
Um homem magro com o cabelo raspado nas laterais e um longo nariz adentrou na sala.
- Vejo que está acordada, deve estar assustada.
- Quem é você, onde eu estou? -perguntou num grito-.
O homem apenas sorriu pegou sua prancheta e colocou um óculos redondo, começou a ler.
- Aparência de uns 25, 30 anos, duas costelas fraturadas e várias escoriações pelo corpo. Você já foi medicada então logo estará boa. Sobre suas perguntas vamos lá, sou o Dr Moreti, trabalho aqui na irmandade do silencio desde o dia zero, você está sobre nossos cuidados desde que a encontramos na estrada da graciosa.
Um médico e uma irmandade, o mundo era muito estranho pensou Jenni, mas depois de andar tanto tempo sozinha achou que seria legal ter algum humano para acompanha-la lembrou de Adenisia e pensou se ela estaria bem ainda lá em Colombo naquele mercado esquecido. E o Sr. S, que tanto a ajudou e até queria vir junto, mas achava melhor ser a esperança de outros viajantes.
- Por que estou amarrada? -perguntou secamente-.
O médico a olhou demoradamente.
- Por isso.
Ele a cutucou com o dedo bem na sua costela, Jenni urrou de dor era algo dentro parecia enfiado em sua carne.
- Suas costelas estavam ainda piores quando a encontramos, então preciso que você fique no mínimo uma semana de repouso para aí sim te avaliar novamente, sem o raio x é tudo mais difícil para nós médicos.
Dito isso ele saiu e fechou a porta, avisou que passariam para alimenta-la e foi só.
E assim os dias foram passando, as dores ainda eram fortes em seu corpo, mas com os medicamentos tudo estava sob controle, uma mulher corpulenta e alta de pele bronzeada aparecia duas vezes ao dia e alimentava Jenni que fraca apenas aceitava calada as refeições. Tentava fazer perguntas a mulher que nada respondia, estava desesperada por notícias de Ranger, mas recebia apenas silencio.
Depois de uma semana Jenni já sentia que poderia caminhar e na consulta diária mencionou isso;
- Eu quero me levantar, já sinto que estou quase boa.
O Dr Moreti com seus óculos na ponta do nariz, fez um som de desacordo;
- Vamos ver, vou te desamarrar, mas não tente movimentos bruscos pode se machucar novamente.
Ele a desamarrou as amarras não estavam apertadas, mas a sensação de liberdade fez Jenni se emocionar e seus olhos lacrimejaram.
- Obrigado. -Balbuciou-.
- Você está livre para sair e andar nas dependências da Morada, esse continua sendo seu quarto vou pedir que o diretor da irmandade fale com você e explique nossas regras, mas não é nada muito rígido pode ficar sossegada.
Ela esperou o médico sair pra depois abrir a porta e curtir sua liberdade, lá fora tinha sol e ele estava bem no meio do céu só isso já deu uma sensação ótima em Jenni que caminhou por um grande jardim com algumas arvores, incluindo palmeiras e algumas hortênsias era grande e com tudo muito bem cuidado, haviam duas ruas de asfalto uma dava para um grande portão de ferro e outra para uma espécie de igreja enorme que ficava atrás de uma pracinha com muitos bancos e algumas pessoas com roupas brancas.
Ela resolveu seguir a rua até a tal igreja no caminho viu que algumas pessoas estavam também andando e passaram por ela com sorriso no rosto e os olhos um pouco estranho pareciam cansadas, Jenni imaginou que havia muito trabalho por ali.
Havia ali além da igreja e o prédio de Jenni, uma espécie de galpão mais ao longe num outro caminho de pedras rusticas e também outro prédio de dois andares igualzinho ao lado da igreja.
Chegando mais próxima a pracinha um senhor de barba branca e cabelo curto se aproximou dela.
- Nossa nova moradora, bem vinda, bem vinda. – ele abriu os braços e abraçou Jenni-.
Claramente ela se sentiu desconfortável não abraçava ninguém desde aquela vez com aquele cara, e isso ela nem queria lembrar.
- Sou Gilberto, diretor aqui da morada do silencio, o que você precisar é só falar comigo, espero que esteja bem.
Depois de falar isso Jenni lembrou que tinha duas costelas machucadas, sentiu uma pontada de dor, mas aguentou calada, estendeu a mão e apertou a do velho senhor grisalho.
- Estamos na serra do mar ainda?
- Sim, no meio do caminho da graciosa, hoje fomos abençoados com esse dia lindo, daqui a pouco o almoço será servido no refeitório. -ele apontou para o prédio próximo a igreja-. Devo dizer que hoje o cardápio me agrada, bisteca de porco com arroz e salada.
A garota salivou com a menção a comida, ela estava comendo apenas papinhas e purês nos últimos dias.
- Me acompanhe vou te mostrar o lugar.
Foram andando devagar ele, falava como sobreviveram ao “Dia Zero”
- Eu estava aqui quando ouvi um barulho ensurdecedor cai de joelhos bem ali. – apontou para o meio da praça-. E um clarão veio, mas as arvores bloquearam quase tudo mesmo assim eu sofro com um pequeno problema de visão desde então, resolvi naquele momento que ninguém sairia nem entraria até sabermos o que aconteceu.
- E o que aconteceu? -perguntou Jenni-.
Ele suspirou colocou os braços por trás do corpo.
- Uma ótima pergunta eu gosto de acreditar que foi algo maior que nós, para alguns algo divino, por que pessoas sumiram, por aqui mesmo chegaram no máximo umas quinze pessoas desde aquele dia a tantos anos.
Seu semblante estava mais sombrio e pensativo, parecia não querer dar todas as informações.
Continuaram andando e chegaram até aquele galpão mais afastado ali os insetos já incomodavam muito e um cheiro forte de animais se aninhava, Jenni prontamente se lembrou de Ranger.
- Meu cachorro, o que vocês fizeram com ele?
O homem a olhou com surpresa.
- Minha menina não achamos nada apenas você e sua mochila.
Isso a assustou sentiu uma pontada no coração e suas forças indo embora, ela havia abandonado seu melhor amigo naquele mundo, ele que a salvou tantas vezes.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Fuga de Colombo
General FictionEm um mundo pós-apocalíptico, uma mulher acorda sem memória em um hospital em ruínas na cidade de Colombo - PR. O céu cinza e opressivo reflete a desolação ao seu redor. Sozinha e confusa, ela deve desvendar os mistérios de seu passado enquanto enfr...
