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O Último Capítulo

Arthur sempre foi um homem tranquilo. Aos 23 anos, morava em uma cidade pequena, onde sua rotina era bem previsível: acordava cedo para o trabalho, passava o dia em um escritório simples e, ao cair da noite, mergulhava em seu mundo literário. Seu refúgio eram os livros de mistério, e ele adorava criar histórias no estilo de Sherlock Holmes, de detetives imperturbáveis que desvendavam os maiores crimes. Algumas dessas histórias foram publicadas, outras ficaram guardadas em seu computador, esperando pelo momento certo.

Uma sexta-feira, exausto do trabalho, Arthur chegou em casa e foi direto para sua escrivaninha. A ideia de escrever sobre um serial killer o intrigava e, naquela noite, ele não pensou em mais nada. Com um café ao lado, começou a digitar sem parar. Seu novo livro, O Rastro na Noite, descrevia com riqueza de detalhes a caça de um detetive imbatível a um assassino meticuloso que deixava pistas nos lugares mais inusitados, como lanchonetes, sorveterias e praças movimentadas. A história, sombria e complexa, foi concluída em poucos dias.

O livro foi um sucesso estrondoso. Os moradores da cidade, que nunca haviam presenciado algo tão macabro, ficaram fascinados pela narrativa e pela maneira precisa como Arthur havia desenhado o perfil do assassino. Era um mistério que parecia vir de um lugar sombrio, distante da realidade de uma cidade pacata.

Isabela, uma jovem de 20 anos que trabalhava em um lar de idosos, também leu O Rastro na Noite. Ela sempre teve um gosto peculiar por histórias criminais, e os livros de Arthur eram seus favoritos. Embora fosse tímida e tivesse poucos amigos, ela se sentia atraída pela mente criativa de Arthur. Quando o encontrou na praça, não hesitou em pedir para ele autografar o livro. Eles conversaram por um tempo, e logo perceberam que compartilhavam um interesse mútuo: a atração por mistérios e o gosto por detalhes sombrios.

O relacionamento deles se intensificou rapidamente. Era como se o destino os tivesse unido, e, em pouco tempo, o beijo entre eles foi inevitável. Com as conversas fluindo naturalmente, eles passaram a se conhecer melhor, trocando mensagens e se encontrando sempre que possível.

Contudo, o que Arthur não sabia era que, ao escrever sua história sobre um serial killer, ele havia criado mais do que um simples conto de ficção. Em algum lugar, alguém estava seguindo as páginas de seu livro de forma alarmante.

Uma semana depois da publicação, a cidade foi abalada por uma série de crimes. O primeiro corpo apareceu em frente a uma lanchonete no centro da cidade, com detalhes que pareciam tirados diretamente do livro de Arthur: o assassino havia deixado uma pista enigmática no local, algo que o detetive da história teria desvendado facilmente. Dias depois, outro corpo foi encontrado em uma sorveteria, com os mesmos sinais. E, finalmente, o terceiro corpo foi encontrado na praça onde Arthur e Isabela se conheceram. O cenário estava idêntico ao descrito no livro.

Arthur ficou em pânico. Ele não conseguia entender o que estava acontecendo. Como alguém poderia seguir sua história tão precisamente? Ele logo percebeu que sua vida estava em perigo: se a polícia o descobrisse como responsável, sua carreira acabaria, e a cidade inteira o veria como um monstro. Mas ele jurava que não tinha feito nada.

Ele compartilhou suas suspeitas com Isabela, que parecia igualmente assustada.

— Isso não pode ser real... — disse Arthur, a voz trêmula. — Como alguém sabe tanto sobre o que escrevi? É como se os crimes estivessem saindo das páginas do meu livro.

Isabela olhou para ele com um semblante sério, o olhar distante. Ela parecia atenta, mas não era difícil perceber que algo estava diferente nela.

— Você tem certeza de que não é você? — ela perguntou, com uma suavidade incomum.

Arthur franziu a testa, confuso. Ele não podia acreditar no que acabara de ouvir.

— O quê? Como pode pensar isso? — perguntou, quase sem fôlego.

Isabela parecia desconfortável por um momento, mas logo se recompôs, como se estivesse calculando suas palavras.

— Você escreveu tudo tão perfeitamente, Arthur. Talvez sua mente tenha feito algo que você não consegue compreender. — Ela olhou para ele de maneira profunda, como se estivesse tentando ler seus pensamentos.

Aquilo o fez estremecer. Ele se sentiu fraco, como se ela estivesse manipulando suas emoções. Algo naquelas palavras não parecia certo, mas ele não podia entender o quê.

Naquele momento, a polícia apareceu. Arthur foi interrogado, seus manuscritos e anotações vasculhados. Mas, apesar das evidências, nada de concreto foi encontrado que o incriminasse diretamente. A desconfiança, porém, pairava no ar. Arthur foi deixado em paz, mas o medo de ser culpado nunca o deixou.

E então, o inesperado aconteceu: Isabela o procurou, pedindo para encontrá-lo novamente, desta vez na praça onde se conheceram.

Quando Arthur chegou, ela estava sentada no banco, com um sorriso que ele não reconhecia. Seus olhos, antes tão tímidos e doces, agora tinham um brilho gélido.

— Arthur... — disse ela, levantando-se devagar. — Você sabia que eu sou uma grande fã dos seus livros, não sabia?

Ele ficou tenso. Algo estava errado. O sorriso dela era diferente, quase... predatório.

— Eu sei que você é fã, mas isso não tem nada a ver com os crimes, Isabela. — Ele tentou dar um passo para trás, mas ela já estava muito perto.

— Ah, claro que tem a ver. Porque, sem o seu livro, nada disso teria acontecido, não é? — Ela deu um passo mais perto, os olhos brilhando com uma intensidade assustadora. — Eu sempre quis entender como a mente de um assassino funciona. Quando li sua história, tudo fez sentido. Você me deu o mapa perfeito, Arthur.

A palavra "assassina" ecoou na mente de Arthur como um trovão. Ele deu um passo atrás, mas ela o segurou com força.

— Não se preocupe, Arthur. Ninguém vai desconfiar de mim. Eu sou apenas a moça tímida, não sou? Mas agora, com você fora do caminho, quem mais poderia ser o culpado? Você me deu as ferramentas, eu só fiz o que precisava ser feito.

Ela olhou para ele, com um sorriso sádico se formando em seus lábios.

— E sabe, Arthur, você não será o único a escrever o próximo capítulo dessa história. — Ela desapareceu na noite, deixando-o chocado e paralisado.

A polícia, desconfiada da conexão entre os crimes e o livro de Arthur, voltou a investigá-lo. Mas ninguém desconfiava da verdadeira face do assassino. A jovem tímida que todos conheciam como Isabela agora continuava sua vida como se nada tivesse acontecido, enquanto, à noite, ela escrevia em um caderno, anotando os detalhes do próximo crime que ela já estava planejando.

Arthur sabia que ele não seria capaz de provar sua inocência a tempo. Ele estava preso em uma história que não havia escrito — uma história que agora se desenrolava na realidade, e que ele não poderia mais escapar.

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⏰ Last updated: Jan 04, 2025 ⏰

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