Sinto lágrimas surgindo em meus olhos enquanto observo minha imagem estampada em uma caixa de leite.
Não era uma das mais belas fotos, e no momento me causa certa duvida. Na lateral branca do papelão levemente amassado, uma fissura marcava a primeira memória de infância, uma foto pequena e colorida, onde uma pequena Amanda corria em meio a grama. Usava uma jardineira vermelha com flores bordadas, e enquanto encaro a imagem capturando detalhes, esfrego os dedos na fissura como se fosse os detalhes da costura colorida da roupa.
Os cabelos loiros estavam presos, e uma franja cobria minha testa, que naquela época não era nem grande demais ou oleosa demais. Não tinha espinhas, nem as marcas que surgiram após, e eu não me recordava de me preocupar com a aparência que iria ter depois de correr tão rápido por toda a grama de um parque ou de algum quintal.
Espremo os olhos enquanto passo a analisar a foto maior, e uma lágrima desce silenciosa. Sinto a queimação que toma conta de meu peito aos poucos se expandindo por meu corpo, me dando uma dor de cabeça que não consigo identificar se é porque estou enrugando a testa ou forçando o maxilar demais.
A foto com fundo cinza mostra uma pessoa que não sou eu, com um rosto semelhante ao que tenho hoje. A pessoa com os cabelos mais escuros do que a criança que já fui tem os mesmos olhos pequenos, e veste uma blusa branca sem graça. Nada de cor aparece na imagem a não ser os meus traços verdes na íris e o quase marrom de meu cabelo. Não, não é meu cabelo.
Meu cabelo continua loiro como o da foto pequena, apesar de ter me desvencilhado da franja. Meu rosto não é limpo como o da imagem, e algumas espinhas e áreas vermelhas pontuam minha face. Meus olhos escureceram para um tom de musgo muito semelhante aos que mantenho guardados em minha mente, como uma memória da família que um dia tive.
Abaixo o olhar da foto e a legenda me causa um arrepio, um leve tremor passando pela minha estrutura.
“Imagem gerada por inteligência artificial.”
A minha foto de infância estava em uma caixa de leite ao lado de uma imagem gerada por IA, construindo o que hoje poderia ser a minha aparência baseada na criança que fui.
Aquela imagem estava ali, pois agora eles colocavam anúncios de busca por pessoas desaparecidas nas caixas de leite.
Meu ombro cai na lateral da geladeira, utilizando a mesma como apoio. Sinto agora o aperto subindo para a garganta, e o momento me sufoca. Minhas sobrancelhas estão endurecidas, congeladas com meus olhos arregalados.
Estou sozinha em casa. É véspera de Natal, e meu pai saiu para buscar o que falta para finalizarmos a nossa ceia. Só eu e ele. Como sempre foi, mesmo que eu tenha na memória momentos que foram chamados de falsos, em Natais repletos de pessoas, olhos verdes e grama de quintal.
Como aquela foto, com aquela criança, a mesma que está em cima da nossa lareira, foi parar em uma caixa de leite?
Meus ouvidos parecem ouvir um tilintar suave de chaves no corredor de fora, mas não consigo identificar se realmente é meu pai chegando ou apenas a sensação da minha pressão caindo, me deixando com a audição abafada enquanto ouço um zumbido.
Não sei como reagir. Não sinto que tenho forças ou vontade de reagir, nem como faço para responder a isso, se não com os sentimentos que engolem meu corpo.
Como se eu e a estrutura da casa fossemos um só ser, o chão embaixo de meus pés parece ceder enquanto sinto os dedos gélidos em conjunto com a sola dolorida pelo chão frio. A porta se abre com um rangido, papai havia falado que consertaria aquele barulho antes do ano novo. As paredes tremem levemente com a batida da madeira ao se fechar, e a chave nos tranca em casa. Somos somente nos dois e a casa parece pequena e frágil demais agora.
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Last Christmas
Short StoryConto de natal escrito em um primeiro dia de férias em dezembro. Uma história rápida com o objetivo de ser uma leitura envolvida com sentimentos e tensão em cada parágrafo. Amanda observa sua foto onde não esperava que ela estivesse, e se conecta co...
