Um Café em Bloomsbury

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Era uma tarde fria e nublada em Londres, com uma garoa fina transformando as calçadas em superfícies escorregadias. Remus Lupin ajeitou o casaco pesado enquanto se apressava pelas ruas de Bloomsbury, mantendo os olhos atentos às vitrines iluminadas e às pequenas placas que marcavam as entradas das lojas. Ele segurava um livro usado embaixo do braço, o marcador de página mal escondido entre as folhas.

Sirius Black estava sentado em um canto de um café pequeno e acolhedor, a xícara de chá esfumaçando diante dele. Seu cabelo escuro caía em ondas soltas ao redor do rosto, destacando os olhos cinzentos que observavam distraidamente a rua pela janela. Ele era a própria definição de algo que não pertencia àquele mundo, como uma estrela cadente que caiu no lugar errado.

Quando Remus entrou, os sinos da porta anunciaram sua chegada, e Sirius levantou o olhar, sorrindo levemente.

— Finalmente! Achei que tinha sido engolido por um livro ou algo assim.

Remus revirou os olhos, mas havia um sorriso discreto em seus lábios. Ele deslizou para o banco em frente a Sirius, colocando o livro na mesa.

— Era um bom livro, e o metrô estava cheio. Você sabe como é Londres em dias como este.

— Detesto metrôs. — Sirius fez uma careta. — Cheiram a mofo e desespero.

— Assim como você, depois de uma noite de lua cheia. — Remus sorriu, provocando.

Sirius gargalhou, atraindo olhares curiosos de um casal sentado próximo. Remus não pôde evitar sorrir também; o riso de Sirius era contagiante, como sempre.

— O que você pediu? — Remus perguntou, apontando para a xícara de chá de Sirius.

— Chá preto, é claro. Nada muito complicado, afinal, este é um café trouxa. E você? Vai querer o quê?

Remus olhou para o cardápio e encolheu os ombros.

— Chocolate quente. Algo simples também.

— Sempre o mesmo Moony previsível. — Sirius sorriu, mas havia um toque de afeto em sua provocação.

Os dois ficaram em silêncio por um momento, cada um perdido em seus próprios pensamentos enquanto esperavam o pedido. A rua do lado de fora era movimentada, mas o café tinha uma tranquilidade quase mágica, como se o tempo passasse mais devagar ali.

— Você já pensou... — começou Sirius, quebrando o silêncio. Ele hesitou por um momento, algo raro. — Já pensou em como seria viver aqui? Quero dizer, longe do mundo mágico. Só nós dois.

Remus o encarou, surpreso.

— Londres?

— Não precisa ser aqui exatamente. — Sirius fez um gesto vago com a mão. — Pode ser qualquer lugar. Mas algo assim, simples. Sem guerra, sem pressões.

Remus demorou um instante para responder. Ele conhecia Sirius o suficiente para entender o que estava por trás daquela pergunta.

— Às vezes penso nisso, sim. — Sua voz era baixa, quase hesitante. — Mas... não acho que o mundo nos permitiria viver dessa forma. Não por muito tempo.

— O mundo nunca nos deu nada, Moony. — Sirius estreitou os olhos. — Sempre tivemos que tomar o que queríamos. Não vejo por que isso mudaria agora.

Remus suspirou, passando os dedos pelos cabelos bagunçados.

— Talvez você esteja certo. Mas fugir nunca foi a solução para mim.

Sirius inclinou-se para frente, a intensidade em seus olhos quase tangível.

— Não estou falando de fugir. Estou falando de viver. Tem uma diferença.

Remus o encarou por um longo momento, tentando encontrar as palavras certas. Ele sabia que Sirius tinha razão, mas também sabia que o mundo em que viviam era mais complicado do que isso.

Antes que pudesse responder, o garçom chegou com o chocolate quente de Remus. Sirius aproveitou o momento para se recostar na cadeira, um sorriso relaxado voltando a seus lábios.

— Pense nisso, Moony. Não estou pedindo uma resposta agora.

Remus deu um gole na bebida quente, sentindo o calor se espalhar por seu corpo. Ele olhou pela janela, para as ruas agitadas de Londres, e depois voltou a olhar para Sirius, que brincava distraidamente com a alça de sua xícara.

Talvez houvesse algo de tentador naquela ideia. Algo que ele nunca admitiria em voz alta, mas que guardaria para si, como um segredo entre eles. Afinal, Sirius sempre foi bom em torná-lo ousado, mesmo que apenas por um instante.

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