O presente Maldito

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A neve caía suave, tingindo o mundo de branco, enquanto luzes coloridas tremeluziam em janelas por toda a vizinhança. Dentro da pequena casa, o espírito natalino estava em pleno vigor. Guirlandas decoravam as portas, a lareira crepitava gentilmente e o aroma doce de biscoitos assados preenchia o ar. Luísa, com apenas 10 anos, movia-se inquieta, seus olhos fixos na árvore de Natal, cujos galhos sustentavam uma profusão de presentes.

Mas entre os papéis brilhantes e os laços impecáveis, algo a incomodava. No fundo da pilha, quase escondida, estava uma caixa diferente. Era envolta em um papel amarelado, manchado pelo tempo, e amarrada com um laço preto que parecia à beira de desmanchar-se.

“Mamãe, de quem é aquele presente?”, perguntou, o olhar fixo no pacote que parecia destoar de toda a alegria ao redor.
“Não sei, querida. Talvez algum tio tenha deixado. Não se preocupe, abra depois”, respondeu a mãe, distraída com os preparativos da ceia.

O relógio correu, e, quando a meia-noite chegou, a sala se encheu de risos e sons de papéis rasgados. Um a um, os presentes foram abertos, mas ninguém parecia reclamar a tal caixa misteriosa. Luísa, curiosa como sempre, decidiu abri-la por conta própria.

Ao desfazer o laço e remover o papel envelhecido, encontrou dentro um pequeno boneco de madeira. Era rude, mal esculpido, como se tivesse sido feito às pressas ou por mãos pouco habilidosas. Seus olhos de vidro brilhavam sob a luz da árvore, refletindo algo quase vivo. Ao encarar o brinquedo, Luísa sentiu um frio na espinha. “Que estranho...”, murmurou, mas, convencendo-se de que era apenas mais um brinquedo, levou-o ao quarto e o colocou na prateleira, entre seus outros bonecos.

Mas naquela noite, o silêncio habitual da casa foi quebrado. Luísa despertou sobressaltada com o som de passos leves, como se algo pequeno andasse pelo chão de madeira. Ainda meio sonolenta, pensou que fosse sua mãe indo à cozinha. Mas quando olhou para o lado, congelou.

O boneco, que antes estava na prateleira, agora estava sentado na cadeira ao lado da cama. Seus olhos de vidro pareciam encará-la com intensidade. A menina respirou fundo, tentando acalmar o coração acelerado. “Eu devo ter deixado ele aí”, murmurou para si mesma, embora soubesse que não era verdade. Colocou o boneco de volta na prateleira e voltou para a cama, tentando esquecer o incidente.

Na manhã seguinte, o mistério se aprofundou. A mãe encontrou a bandeja de biscoitos, que deveria estar cheia, vazia, e pequenas pegadas, marcadas com fuligem, cruzavam a cozinha. Luísa não disse nada. Mas ao longo dos dias, ela começou a notar coisas ainda mais perturbadoras: o boneco, que deveria ficar imóvel, parecia mudar de lugar. A cada vez que ela olhava, estava em uma posição diferente, como se estivesse se movendo sozinho.

Então, algo ainda pior aconteceu. A mãe mencionou que um vizinho havia desaparecido misteriosamente. Depois, outro. A vila, antes cheia de luzes e alegria natalina, começava a ser tomada por um medo crescente. E, para horror de Luísa, ela começou a perceber que o boneco mudava. Suas feições, antes grosseiras, estavam mais nítidas, e seus olhos de vidro pareciam conter algo humano, quase como se absorvessem a essência de algo... ou alguém.

Certa noite, o destino se revelou. Luísa foi acordada por risadinhas suaves, frias, como se ecoassem de dentro das paredes. Tremendo, ela acendeu o abajur. E ali estava o boneco, agora no pé da cama, segurando um pequeno machado de madeira, cuja lâmina parecia afiada demais para ser um brinquedo. Seu sorriso, antes inexpressivo, agora se esticava grotescamente, como se zombasse de seu terror.

Ela quis gritar, mas sua voz não saía. O boneco moveu-se com agilidade, escalando a cama como uma criatura viva. Luísa tentou fugir, mas tropeçou, caindo com força no chão. Antes que pudesse se levantar, viu os olhos de vidro brilharem no escuro, fixos nela. Foi a última coisa que viu antes de tudo se apagar.

Na manhã seguinte, a casa estava em silêncio. Os pais de Luísa entraram no quarto, apenas para encontrá-lo vazio. Sobre a cama, estava uma nova caixa, envolta no mesmo papel amarelado e com o mesmo laço preto. Tremendo, o pai abriu o pacote. Dentro, havia um boneco de madeira. Este tinha olhos castanhos, cabelos negros e um rosto assustadoramente parecido com o de Luísa.

A caixa foi colocada na sala, na prateleira mais alta, longe do alcance. Mas ninguém nunca mais falou sobre Luísa. A vila, aos poucos, voltou à sua rotina, embora um silêncio estranho pairasse sobre aquele Natal.

Dizem que, se alguém parar para ouvir, pode escutar o boneco sussurrando palavras quase humanas. E, nas noites mais escuras, seus olhos de vidro parecem brilhar, ansiosos, esperando pelo próximo presente que nunca deveria ser aberto.

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⏰ Last updated: Dec 06, 2024 ⏰

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