Numa dessas idas e vindas corriqueiras, daquelas onde estamos no automatismo - corpo aqui e mente ali, acompanhados ou sozinhos dialogando mentalmente conosco mesmos - deparo-me com eles. E, neste momento, uma curiosidade perturbadora me abraçou. O som em meus ouvidos foi abafado por um zumbido constante, quase me causando tontura e automaticamente tirei meus fones de ouvido. Mas não havia nada de especial naquilo: um casal gay em uma mesa de bar na calçada.
Talvez eu estivesse surpreso em como no auge de uma quarta-feira alguém tivesse a liberdade de estar em uma mesa de bar às três da tarde? Não, não há justiça nessa hipótese, haja vista que eu voltava da academia quando aconteceu. A verdade é que tive um vislumbre. Aquele breve encontro causou-me uma compreensão intuitiva, trazendo à luz o que eu sempre soube, mas que, por forças externas, se tornara nebuloso. Havia, ali, a simplicidade.
Nada me pareceu incomodar o casal - se é que podemos chamá-los assim. Vestiam-se simples, jeans, camiseta e tênis, como se fosse mais um dia, só um dia. No centro da mesa, suas mãos se alisavam pelas pontas dos dedos, os olhares tenazes remontavam à exploração do princípio - já substituída pelo conforto do conhecido - enquanto equilibravam os pés bambos de suas cadeiras.
Em paralelo, a civilização acontecia. Pessoas transitavam cegas pelo tempo, carros buzinavam no semáforo fechado, esperando que isso magicamente fizesse a luz verde se acender, e na mesa a frente, um cão latia para seus tutores não ignorarem seu desejo de correr livre. A parede ao lado, pixada, apoiava uma placa colorida com a palavra "promoção" gritando em giz vermelho. No ar, o cheiro de gordura usada se aquecendo - que me fez espirrar.
Passei direto sem ser notado e atravessei a rua. Um incômodo me surgiu. Por que tudo ali era tão simples? Parei, virei e fique encarando-os propositalmente. Dentro de mim, crescia um interesse genuíno, uma flor que germinava no canto do muro sem preparo da terra, semente ou intenção. Também, havia nisso um quê de angústia. Questionamentos crescentes insultavam meu acervo de experiências.
Não acho que aquilo era um primeiro encontro, mas se o era, perdoem-me. Falavam, sorriam, tocavam-se e gesticulavam sem rodeios. De maneira natural, o que se propuseram a entrega ali estava sendo feito sem nuances de dificuldades. Existia uma atmosfera de intimidade que me sufocava, um ar nunca respirado, rarefeito, secava minha boca e eu deglutia, deglutia e deglutia. Peguei minha garrafa e bebi um gole farto de água.
Segui meu caminho com um entalo na garganta - seriam as verdades difíceis de engolir? Sentia-me feliz e triste, numa gangorra onde ora tocava a segurança do chão e ora subia com um gelo na barriga. Então, senti culpa. Senti culpa por todas minhas relações frustradas, uma vez que era como se ouvisse mais uma vez a voz de ideias que me sabotaram. Por que não havia simplicidade em minhas vivências?
Todos meus causos envolvendo afeto, paixão e - ouso dizer - amor cabem em uma mesma forma de bolo. O que eu sei é que me dedico muito mais àqueles que, de alguma maneira, não se demonstram dispostos a se interessarem, e automaticamente um interruptor é apertado dentro de mim, como um botão de mísseis nucleares, mas que não leva à terceira guerra mundial e sim a um conflito de interesse, onde incansavelmente tento provar o meu valor.
Um casal e a guerra - a guerra que há na simplicidade. Um olhar a fundo sobre a coragem de apenas viver o que há para ser vivido no aqui o no agora. A liberdade em não se importar porque o que de fato importa é subjetivo e não há deveres - o dever é o assassino da vontade. A força invisível de ser feliz naquilo que nos é imposto, e a tristeza do que não nos cabe, mas que se repete em nós porque queremos ser aceitos.
Meu mundo fora engolido por um buraco de minhoca, e eu estava sendo arrastado para o passado. Assisti a mim, brevemente, crescendo ao longo de vinte e seis anos, como descrevem em momentos de quase morte - eu estava morrendo? Como consequência, encontrei sentido, entendimento, mas não compreensão. Lá estava eu e tudo o que me foi negado. De não em não, uma esfera cintilante pairava sobre tantos Eus embotados e seus desejos de ser. Em qual momento deixei de acreditar no que é real?
No banho, a água morna escorria em meu rosto, e eu tapava os ouvidos para ficar em silêncio. Sentei-me ao chão e senti um alívio nos pés - era a primeira sensação física real depois daquele encontro -, o mesmo alívio o qual desejava que caísse como uma bomba e explodisse meus pensamentos. Então, ensaboei as mãos e massageei meus pés. A pressão nos dedos desviava a corrente sanguínea na sola, criando desenhos pálidos efêmeros que logo eram devolvidos à cor de estar vivo. Ainda que tentasse o contrário, meu organismo tendia ao equilíbrio.
É... é impossível sabotar a simplicidade da natureza.
BẠN ĐANG ĐỌC
De não em não, uma flor
Truyện NgắnUm encontro inocente com desconhecidos em uma mesa de bar que desencadeou uma profunda reflexão sobre simplicidade, relações humanas e a busca incessante por aceitação. A indução a um confronto inevitável com nossas próprias experiências, memórias e...
