Purity, Cap 1, Penumbra

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"O mundo nunca foi muito justo com você né criança?
Ainda não chegou a hora de desistir?     
Bem, pelo menos saia da chuva"

Nas vielas estreitas e sombrias de uma cidade consumida pela natureza, uma figura de pequena estatura avançava encapuzada, seus passos pesados e irregulares sob o peso de uma mochila que parecia grande demais para ela. Cada movimento parecia deslocar o equilíbrio do lugar, como se sua presença fosse uma intrusão em um ambiente que a rejeitava.

Acima, o céu nublado se estendia como uma tela imaculada, enquanto pássaros cruzavam o ar em sincronia, movendo-se em direção a uma vasta cratera. Embora ainda próxima, a visão daquela paisagem simbolizava a maior distância que aquela pessoa já havia alcançado de tudo que conhecia.

Em determinado momento, ao erguer o rosto para observar os pássaros, o capuz deslizou, revelando uma máscara de gás suja e encardida, destoando completamente do ambiente ao redor. Junto à máscara, surgiu também um cabelo de tonalidade esbranquiçada, bagunçado e marcado por algumas pontas tingidas de um vermelho vibrante, reforçando o aspecto peculiar de sua figura.

Apressando os passos pelas vielas, a pequena figura finalmente alcançou uma visão ao mesmo tempo bela e perturbadora: uma vasta e insondável cratera, rodeado por uma cidade em formato de espiral. A grandiosidade e o vazio daquela paisagem evocavam nela um desconforto quase paralisante. O lugar a chamava, e ecoava seu nome em sua mente, Penumbra.

Hesitante, a figura subiu no corrimão que a separava do monumental abismo, posicionando-se diante da vastidão que se desenrolava à sua frente. Ao olhar para baixo, o fundo permanecia oculto, encoberto por uma densa nuvem negra formada por sujeira e poluentes, que bloqueava a visão a partir da metade da descida.

— Vamos lá Ru! Você consegue! Não é a primeira vez que você faz isso, você precisa conseguir....por ela — Mesmo com a relutância evidente, havia uma determinação silenciosa que a movia e a transmitia a coragem que tanto necessitava.

A figura suspendeu a respiração ao erguer os olhos para o céu, observando os pássaros que antes voavam em perfeita sintonia. Agora, contudo, separavam-se, cada um traçando um destino distinto: um dirigindo-se à grande cidade ao longe, enquanto o outro mergulhava na vastidão da cratera.

Em um gesto decidido, a pequena figura lançou-se de costas para o abismo, entregando-se à escuridão que parecia não ter fim. Assim, tornou-se parte daquele breu profundo, imersa na vastidão silenciosa e insondável do vazio.

[......] 

 ''Escuridão, aquela que define onde estamos, define onde devemos e somos obrigados a estar''

— Ruth! Cadê você?! Meu Deus, essa criança nunca aparece quando deveria. A quem ela puxou, hein? — exclamou um homem, sua face oculta por um risco que atravessava seu rosto.

— Eu não sei, mas você sabe como ela é, tem o espírito livre. Não podemos mudar isso. E, convenhamos, eu sei muito bem a quem ela puxou — respondeu uma mulher em tom calmo e sereno. Sua face também permanecia invisível, revelando apenas um longo cabelo vermelho que lhe alcançava os ombros.

Enquanto isso, uma criança corria pelas ruas de maneira descontrolada, empurrando e desviando dos pedestres que cruzavam seu caminho. Ao olhar para trás, era possível avistar um grupo de cerca de dez outras crianças em sua perseguição, com expressões de raiva estampadas em seus rostos.

— Foi brincadeira! Pelo amor de Deus, o que vocês querem de mim?! — gritou a fugitiva, sua voz carregada de desespero. Seus cabelos vermelhos e bagunçados reluziam sob a luz, e suas roupas — um macacão sujo de graxa, botas e luvas encardidas — evidenciavam um espírito que não parecia se importar com a sujeira que carregava.

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