Eu sou Roy Harper, nascido em 11 de setembro de 2001, no turbulento bairro de Compton, Los Angeles. Cresci cercado pela violência das gangues, especialmente os Bloods, e pela opressão policial. Meu pai, um alcoólatra, estava mais ausente do que presente. Minha mãe, em busca de uma vida melhor, partiu para Tóquio com seu namorado e minha irmã mais nova, Mia.
A realidade cruel das ruas de Compton moldou minha infância. Testemunhei amigos sendo sugados pelo vortex das gangues, presos ou mortos por policiais ou rivais. Meu pai, embriagado, ocasionalmente me advertia: "Não te envolva, filho." Mas suas palavras eram abafadas pelo barulho das ruas.
Aos poucos, fui me envolvendo com amigos de gangues. Era uma realidade que parecia inevitável. Mas havia algo dentro de mim que gritava por uma saída...
*23 de julho de 2015, 5h25.*
Acordo para mais um dia cinzento. Ao sair do quarto, encontro meu pai desacordado no sofá, cercado pelas garrafas vazias que testemunham sua noite de bebedeira. Essa cena se tornou rotineira, um lembrete constante da realidade que não mudo.
Pego minha mochila, coloco o casaco, capuz e boné, preparando-me para enfrentar o dia na nova escola. Duas expulsões em um ano, e agora uma última chance. Fecho a porta da sala e a grade da frente, mergulhando na escuridão da manhã. O ar frio e a brisa são meus únicos companheiros.
7h47. Parado diante da escola, perdia-me em pensamentos sobre aquele lugar de privilégios. Uma voz suave me trouxe de volta à realidade.
"Vai ficar aqui o dia todo ou vai entrar?"
Virei-me para encontrar uma garota loira, olhos azuis brilhantes e um sorriso encantador. Seu perfume era como o cheiro de rosas ao pôr do sol.
"Hum?" Fiquei confuso.
Ela riu. "Deve ser o aluno novo, certo? Vem, eu te mostro a escola."
Enquanto subíamos a escadaria, eu murmurei: "Pelo visto, nem todos são como pensei."
Hellena se virou, curiosa. "O quê?"
Assustado, gaguejei: "Nada, não é nada."
Ela sorriu. "Meu nome é Hellena."
"Eu sou Roy, prazer," respondi, aliviado.
Hellena analisou meu estilo. "Você é... diferente. Boné, bandana vermelha e blusa de frio neste calor. Parece que você saiu antes do sol nascer!" Ela riu.
Encostado num armário, expliquei: "Sou de Compton. É longe e difícil pegar ônibus. Acordo cedo para não me atrasar.
Hellena ergueu uma sobrancelha, intrigada. "Compton? Você deve ter histórias pra contar."
Soltei uma risada sem humor. "Nem todas são boas."
Ela percebeu o tom na minha voz e mudou de assunto. "Bom, Roy, seja bem-vindo ao inferno. Quero dizer, à escola."
O dia passou arrastado. Algumas pessoas me olhavam torto, outras simplesmente me ignoravam. Mas Hellena? Ela sempre aparecia, puxava conversa, fazia perguntas. Era curiosa demais. Diferente de qualquer um que já conheci.
Na hora do almoço, ela me arrastou até uma mesa onde alguns alunos sentavam. "Pessoal, esse é o Roy, aluno novo."
Um garoto alto, cabelo escuro e olhar desconfiado me analisou. "De onde você veio?"
"Compton."
O grupo trocou olhares. Um deles assobiou. "Eita, aí sim. Deve ser tenso morar lá."
Dei de ombros. "É só mais um lugar."
O garoto de antes riu, debochado. "Sei. Aposto que você já foi preso ou algo assim."
Meus punhos cerraram. Ele não fazia ideia do que eu passei. Antes que eu pudesse responder, Hellena interveio. "Cala a boca, Nate."
Respirei fundo. Isso não era Compton. Não podia reagir como sempre.
"Relaxa," disse, forçando um sorriso. "Se eu tivesse sido preso, não estaria aqui, né?"
Eles riram, menos Nate. Ele me analisou mais um pouco antes de dar de ombros. "Sei lá. Só espero que você não cause problemas."
Hellena revirou os olhos. "E eu espero que você pare de ser babaca."
Depois do almoço, ela me puxou para um canto. "Não precisa ligar pra ele. Ele é meio... idiota."
"Já percebi."
Ela sorriu. "Mas me conta, Roy. Por que veio pra essa escola?"
Olhei ao redor, escolhendo as palavras. "Última chance. Expulsões demais. Meu pai conseguiu uma vaga aqui, então..."
Hellena me observou, como se tentasse decifrar algo. "E o que você quer?"
A pergunta me pegou desprevenido. O que eu queria? Sobreviver? Fugir de Compton? Ser alguém diferente?
"Não sei ainda," murmurei.
Ela sorriu de novo, mas dessa vez havia algo diferente no olhar dela. Como se soubesse que eu estava mentindo.
E foi assim que tudo começou.
