A cidade de Valbrisa não era de todo hostil, mas sua atmosfera fria e nebulosa fazia com que os seus habitantes se camuflassem na paisagem, como sombras de árvores antigas que cercavam os lagos gelados. Quando o inverno começava a se aproximar, a cidade parecia se recolher para dentro de si mesma, coberta por um manto de névoa, como se estivesse tentando esconder os segredos que só ela conhecia.
Na manhã fria daquele dia, Alune se espremia entre as árvores do parque central, vestindo seu casaco escuro e seus pensamentos ainda pesados pelas palavras de sua mãe na noite anterior. Ela sabia que o caminho até a escola, com seus trilhos de pedras e o som abafado de folhas secas, seria uma maneira perfeita de se distrair. No entanto, como sempre, seus passos a levavam até a mesma beira do lago onde ela sempre se sentava a pensar. O lugar lhe trazia um conforto estranho, como se estivesse isolada do resto do mundo — ou, pelo menos, da sua família.
Foi quando ela o viu.
Phelipe estava ali, em pé, perto da borda do lago. A mesma vista que ela tanto gostava. Os cabelos castanhos claros balançavam levemente com a brisa, e seus olhos, que pareciam refletir o cinza do céu, estavam fixos na água escura. A presença dele era inegável, uma força que parecia exercer influência até sobre o silêncio ao redor. O problema, é claro, era que ele era o filho dos Santoro, a família que ela mais odiava no mundo.
Alune sentiu a familiar mistura de raiva e atração. Como se as duas emoções se entrelaçassem e se tornassem uma única sensação, um nó apertado no peito.
Coincidência, ela pensou. Nada mais do que uma coincidência.
O fato de Phelipe estar ali, naquele exato momento, não poderia ser apenas uma questão de sorte. Eles se conheciam, sim, desde que eram crianças, mas havia muito tempo que não se viam. E, nas poucas vezes em que seus caminhos se cruzaram, a tensão era palpável. A guerra entre suas famílias não era só um conflito distante, era algo que estava vivo em cada olhar, em cada gesto. Era uma rivalidade alimentada por anos de intriga e ódio, algo profundo e perigoso. Mas naquele instante, Alune não sabia o que fazer com o que estava sentindo.
Ela desviou o olhar por um momento, tentando se convencer de que ele não a havia visto. Mas quando virou novamente a cabeça, seus olhos se encontraram com os de Phelipe. O mesmo olhar que ela lembrava — um olhar que parecia entender tudo, como se ele soubesse o que ela estava pensando sem que ela precisasse dizer uma palavra. Alune engoliu seco, sem saber como reagir.
Phelipe foi o primeiro a quebrar o silêncio, seu tom suave, mas carregado de algo que ela não conseguiu identificar.
— Não é coincidência, Alune.
A voz dele era familiar, mas ao mesmo tempo estranhamente distante. Ela sabia que estava lidando com alguém completamente diferente da criança travessa que conhecia. Ou talvez ele tivesse sempre sido assim, mas as paredes que ela construíra ao redor de seu próprio coração não deixavam espaço para perceber.
Ela se aproximou, sem vontade, mas com uma curiosidade irresistível. O sorriso dele, embora tímido, parecia ter um toque de desafio. A presença dele, mais do que qualquer outra coisa, a fazia se sentir fora de lugar.
— Você ainda não se afastou o suficiente dos Santoro, então? — Alune perguntou, tentando esconder a vulnerabilidade em sua voz. Sabia que a provocação era o único modo de manter as defesas altas.
Phelipe riu, mas não foi uma risada de deboche. Havia algo triste nela, como se ele mesmo estivesse preso a algo que não podia escapar.
— Talvez eu esteja mais perto de você do que você imagina.
O comentário pairou no ar, carregado de significado. Alune sentiu a tensão crescer, como se o simples ato de respirar naquele espaço apertado entre eles fosse difícil demais.
— Isso não muda nada — respondeu, tentando parecer mais firme do que realmente estava.
Os dois ficaram ali por um longo momento, sem mais palavras. O vento uivava através das árvores e o lago à sua frente refletia uma paisagem que parecia, de alguma forma, mais sombria do que antes. Ela queria ir embora, mas uma parte dela não conseguia. Algo entre eles dois estava se formando, algo que não poderia ser ignorado. O que exatamente, ela não sabia. Mas sabia, ao menos, que o destino os havia colocado naquele momento, naquele lugar. E o pior de tudo: talvez, só talvez, fosse uma coincidência de que isso não fosse tão simples quanto parecia.
Aquela manhã, sob o céu cinza de Valbrisa, não tinha sido uma coincidência. E talvez nunca tivesse sido.
BINABASA MO ANG
Lights Off
RomanceEm uma cidade marcada pelo poder, luxo e segredos obscuros, dois jovens adultos, filhos de famílias rivais, se encontram em um jogo perigoso de atração e repulsão. Apesar do ódio histórico entre seus pais, Alune e Lipe não conseguem negar a tensão e...
